O efeito Einstellung: a dificuldade de pensar de maneira diferente

fevereiro 14, 2020
O efeito Einstellung nos mostra algo para refletirmos: o nosso cérebro tem dificuldade para pensar de maneira criativa na hora de resolver problemas. Nós sempre usamos as mesmas estratégias, mesmo que as condições sejam diferentes.

O efeito Einstellung é, acima de tudo, uma armadilha cognitiva na qual todos nós caímos com frequência. Ocorre, por exemplo, quando tentamos resolver um problema e, quando o analisamos profunda e cuidadosamente, assumimos que esse desafio não tem solução. Acreditamos nisso porque o nosso cérebro raciocina de maneira inflexível e é incapaz de assumir novas perspectivas.

Para entender melhor, basta levantar um fato bastante comum: imagine um especialista de uma determinada área tentando resolver um desafio repentino. Ele analisa a questão, dá muitas voltas e o observa sob muitas perspectivas.

Agora, em um determinado momento, uma pessoa ‘de fora’ chega, observa as circunstâncias e, de repente, oferece uma solução magnífica. Uma que ele nem tinha considerado. O que aconteceu?

O que acontece nesse tipo de situação é que, às vezes, manifestamos o que é conhecido como “hiperespecialização” do conhecimento. Ou seja, dominamos uma série de abordagens, assuntos e esquemas de conhecimento sem deixar espaço para outras possibilidades, sem sequer questionar ou explorar novas perspectivas através do pensamento lateral.

Há também um fato sobre o qual devemos ser claros: o efeito Einstellung não define um tipo de personalidade. É um tipo de estratégia mental. Refere-se, basicamente, a uma maneira de operar o nosso cérebro, onde ele sempre tende a dar o mesmo tipo de respostas e soluções. É muito difícil inovar, ser original, e isso certamente é um grande problema.

O termo Einstellung vem do alemão e resulta da união de dois termos: ajuste e atitude. Ele define aquelas situações em que nos ajustamos às soluções mais conhecidas que impedem outras alternativas.

Pensar diferente do grupo

O efeito Einstellung: o atalho cognitivo que bloqueia a nossa mente

Se eu tenho as minhas próprias estratégias para resolver as coisas, por que perder tempo tentando outras abordagens? Essa frase resume muito bem o atalho mental com o qual enfrentamos muitos dos nossos problemas.

De certa forma, fazemos dessa maneira porque o ser humano integra um grande número de ideias preconcebidas, aquelas com as quais “trabalhamos” no dia a dia, aquelas que nos poupam tempo e nos dão uma sensação de eficácia.

No entanto, ocasionalmente, algo acontece. Acontecem coisas que nos colocam à prova para demonstrar algo muito concreto: o nosso conhecimento anterior muitas vezes dificulta a oportunidade de aplicar abordagens mais criativas e originais. Isso está resumido na ideia clássica de que ‘mais vale o mau conhecido do que o bom por conhecer’, demonstrando ao mesmo tempo algo muito impressionante: o nosso cérebro trabalha por hábitos.

Ele sempre dará mais valor ao que está armazenado em nossa experiência do que à oportunidade de improvisar, de tentar outras coisas. Portanto, ele sempre enviará mais a mensagem “isso sempre foi feito dessa maneira” do que “vamos tentar para ver o que acontece”.

Os grandes especialistas são menos criativos (efeito Einstellung)

O efeito Einstellung foi descrito pela primeira vez em 1942 pelo Dr. Abraham Luchins. Ele mostrou algo que pode chamar a nossa atenção: os melhores especialistas em uma área são, às vezes, aqueles que menos utilizam o pensamento criativo e inovador… Como pode ser?

Quando temos mais experiência em algo, é mais difícil nos questionarmos. Nos estabelecemos em um tipo de esquema cognitivo muito rígido para confiar nas nossas experiências.

Isso faz com que, às vezes, a presença de um “não especialista” nessa área do conhecimento seja capaz de trazer ideias novas e originais, agregando um valor repentino às nossas perspectivas.

Algo curioso, mas frequente.

A criatividade das crianças

Comece com você mesmo: desenvolva um pensamento mais flexível

Todos nós já ouvimos falar do pensamento lateral, da mente flexível, do valor da criatividade e da necessidade de inovar. Sabemos que é necessário fazer uso e expressão dessas dimensões, que aplicá-las ao nosso trabalho, estilo de vida e pensamento melhoraria significativamente o bem-estar e até o progresso da nossa sociedade.

No entanto, há algo que devemos admitir: essas mudanças nem sempre são apreciadas. Na maioria dos locais de trabalho de trabalho, o mais comum é “vamos fazer o de sempre porque funciona”. Isso explica por que o efeito Einstellung é a constante que nos obriga a reagir a diferentes problemas com as soluções usuais, impedindo assim qualquer progresso.

O que podemos fazer? Na verdade, poderíamos fazer várias mudanças. Começar por nós mesmos é essencial para incentivar os outros, para criar uma realidade mais inovadora, flexível e aberta. Essas seriam algumas chaves para refletir.

Como reduzir o efeito Einstellung?

  • Ao resolver um problema, não fique com as primeiras ideias que vêm à mente. Seja capaz de ampliar o foco.
  • Cultive e expanda o seu conhecimento. É possível que você seja um especialista em determinadas áreas, mas o aprofundamento em outras o ajudará a assumir um horizonte maior em termos de perspectivas e também a relativizar.
  • Controle as reações da sua mente e evite conformismos. É muito comum dizermos coisas como “por que tentar de outra maneira se eu sei que funciona assim?”. Esse tipo de pensamentos cria o efeito Einstellung. Vamos evitá-lo.
  • Ouse desaprender certas coisas para aprender a partir de outras perspectivas e abordagens.
  • Ouça as pessoas ao seu redor, observe perspectivas opostas às suas, anime-se a improvisar, a treinar o músculo criativo da sua mente.
Combater o efeito Einstellung

Para concluir, fazer uso de uma abordagem lateral mais aberta, flexível e original leva tempo. Devemos reeducar o nosso cérebro, convidá-lo a parar de se apegar tanto às ideias preconcebidas para abordar o novo e, assim, continuar aprendendo, continuar crescendo.

  • Luchins, A. S. (1942). Mechanization in problem solving: The effect of Einstellung. Psychological Monographs54(6), i–95. https://doi.org/10.1037/h0093502