O Leitor: traumas, segredos e paixão - A Mente é Maravilhosa

O Leitor: traumas, segredos e paixão 

agosto 5, 2018 em Filmes 0 Compartilhados
O Leitor

O Leitor é um filme de 2009 dirigido por Stephen Daldry. Estamos falando de uma adaptação da obra homônima de Bernhard Schlink. Protagonizado pela brilhante Kate Winslet, junto com Ralph Fiennes e David Kross, propõe uma reflexão sobre alguns assuntos da nossa história recente.

Sabe-se que o Holocausto inspirou uma infinidade de filmes e romances e que, nos dias de hoje, continua dando muito o que falar. No entanto, O Leitor não nos transporta ao Holocausto em si, mas sim a muitos anos depois, quando alguns dos protagonistas foram julgados e condenados. Além disso, a história contada no filme vai além do drama e da Segunda Guerra Mundial, concentra-se nos personagens, na história que eles viveram e, especialmente, no passado de um deles.

O filme trás uma história que já passou, como uma lembrança que é revivida por seu protagonista, Michael Berg, um homem que, em sua juventude, conheceu uma mulher peculiar, Hanna, com quem estabeleceu uma relação sentimental.

O Leitor começa com um adulto, Michael, se lembrando dessa mulher e de seus encontros durante sua juventude; uma mulher da qual nem sabia o nome quando começou o relacionamento. Sombrio, pausado e misterioso, como a própria Hanna, o filme dá um giro argumentativo fundamental que nos leva a uma história muito diferente da inicial. 

Devido a este giro do qual falamos, me vejo obrigada a contar um spoiler ao longo do artigo, por isso não é aconselhável que você continue lendo se não assistiu ao filme ainda. O Leitor não acrescenta uma trama linear, e sim um vai e vem de saltos ao passado e voltas ao presente: Michael parece não aceitar seu passado, mas não consegue se desapegar dele, assim como aconteceu com Hanna.

Assim, o filme inspira uma reflexão: todo nós temos um passado, temos uma história por trás que poucas pessoas conhecem, nossa vida é um mar de segredos, de experiências, de sensações e de pessoas que deixaram marcas nela. Por mais que tentemos nos esquecer, nos desvincular… é impossível, pois o passado faz parte de quem somos atualmente.

O Leitor propõe uma viagem pela história de Michael e Hanna, uma descoberta dos segredos mais profundos destes personagens.
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A relação de Michael e de Hanna

Hanna e Michael se conheceram por acaso nos anos 50, quando ele era um adolescente e ela uma mulher que tinha o dobro de sua idade. Sem nem sequer saber seus respectivos nomes, começaram uma estranha relação, baseada em encontros sexuais e conversas carentes. Michael era um adolescente que ainda estava descobrindo seu corpo e nunca tinha estado com nenhuma mulher, Hanna era quem ditava as regras em seus encontros sexuais.

Hanna continuou ditando as regras aos encontros e adicionou uma condição: Michael deveria ler para ela. Ele era um estudante interessado em literatura, por isso sempre carregava livros de suas classes ou da biblioteca. Hanna ouvia atentamente estas histórias que Michael lia, mas nunca tocava em um livro.

A cumplicidade fluía entre ambos, mas tinham acabado de se conhecer. Nunca falavam de seu passado, nem de seu presente; mantinham um relacionamento totalmente clandestino: um marco no qual compartilhavam livros e lençóis.

Hanna é retratada como uma mulher muito reservada e com uma personalidade forte. O relacionamento parece muito estranho, inclusive além da diferença de idade entre eles. É como se pudéssemos entender Michael, mas não Hanna, sobre quem não sabemos praticamente nada.

O filme começa com o despertar sexual de um adolescente, transmite o primeiro desejo da juventude, a descoberta do corpo, o primeiro contato com o amor. No entanto, acaba desmascarando os dois personagens principais e colocando em causa algumas questões sobre seu passado.

Cena do filme 'O Leitor'

O Leitor, a vergonha

Passarão muitos anos até que as vidas de Michael e Hanna voltem a se encontrar e, então, Michael já não será mais aquele ingênuo adolescente que não fazia nenhuma pergunta a si mesmo, e sim um jovem estudante de Direito.

A partir deste momento, o filme muda para um cenário muito mais sério, onde toda a verdade virá à tona. Aconteceram julgamentos para condenar algumas das mulheres que trabalharam como “guardiãs” durante o Holocausto. Michael se junta aos seus companheiro e professores da Universidade e Hanna acaba sendo uma das investigadas.

Diferentemente do resto das acusadas, Hanna parece não tentar se defender, dá a sensação de não compreender a gravidade do assunto que está enfrentando. Uma infinidade de perguntas vão passar pela cabeça de Michael. Será que ele realmente conhece a mulher que está sentada ali? Como é possível que ela não demonstre sinais de arrependimento?

E o mais importante: Michael, por fim, descobre o grande segredo de Hanna: ela é analfabeta, e sua vergonha é tão grande que nem sequer tenta dizer a verdade para fugir da prisão. Hanna construiu uma imagem de si mesma, uma armadura que ela apresenta ao mundo, mas que esconde seu segredo debaixo dela.

Cena do filme 'O Leitor'

O resto das réus vão fazer de tudo para não ir para a cadeia, vão tentar fazer com que a culpa caia para outra pessoa e, ao envolver Hanna na elaboração de um manuscrito, todos os dedos vão apontar para ela como principal responsável. O que ninguém sabe é que Hanna não pode ter escrito este manuscrito por ser analfabeta, mas diante da pressão de fazer uma prova de caligrafia, decide confessar ser autora do mesmo.

Como é possível que Hanna sinta uma vergonha tão profunda por ser analfabeta, mas não de seu passado como guarda durante o Holocausto? Hanna não nega seu envolvimento com o nazismo, mas não é capaz de reconhecer seu analfabetismo nem mesmo para se libertar da cadeia.

Paralelamente, Michael vai fazer um grande esforço para entender Hanna e descobrir quem ela é. Uma infinidade de emoções transborda da tela graças à profundidade de suas cenas. Todos nos identificamos com o sentimento de Hanna, ao enfrentar o seu maior medo, e com a tristeza de Michael ao descobrir que, assim como ele lia para ela em sua adolescência, Hanna usou jovens judias para lerem para ela.

Cena do filme 'O Leitor'

Atualmente, não pensamos duas vezes em julgar e condenar todos aqueles que fizeram parte de tais crimes. Porém, parece que nos esquecemos do outro lado da moeda, um lado muito mais sedutor para alguns setores da população.

Hanna era analfabeta, vivia sozinha e com certeza jamais poderia alcançar determinados cargos; o nazismo foi uma promessa de prosperidade, de trabalho e, para Hanna, poder trabalhar como guarda era também uma promessa de status. Mas não apenas as pessoas analfabetas se deixaram seduzir pelas ideias do nazismo, mas também alguns pensadores como Heidegger (que posteriormente se retratou sobre o assunto), ou poetas como Ezra Pound, cuja profunda admiração por Mussolini o fez colaborar em sua propaganda e em sua mudança para a Itália.

O exercício que O Leitor propõe nos lembra profundamente da filósofa Hannah Arendt, que dizia que muitos nazistas eram pessoais normais, vítimas de seu tempo e das circunstâncias. No filme, Hanna defende que aquele era seu trabalho e, portanto, sua obrigação.

Ela afirma que se limitava a obedecer ordens e cumprir com o seu dever, sem pensar muito em seus atos. O Leitor expõe um tema complexo, difícil de abordar, propõe uma reflexão do passado destes personagens, de como este afeta o presente e quem somos atualmente. No entanto, também propõe uma reflexão sobre a natureza de um dos crimes mais cruéis da humanidade.

“As sociedades querem ser regidas por algo chamado moralidade, mas, na realidade, são regidas por algo chamado lei”.
– O Leitor-

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