Psicologia do testemunho: a qualidade da lembrança

Psicologia do testemunho: a qualidade da lembrança
Sara Clemente

Escrito e verificado por psicóloga e jornalista Sara Clemente.

Última atualização: 22 dezembro, 2022

A psicologia do testemunho é o conjunto de conhecimentos e investigações com os quais se busca garantir a qualidade dos relatos prestados pelas testemunhas oculares. Muitos autores vêm realizando contribuições neste campo, tão pouco conhecido quanto relevante no âmbito judicial e forense.

A memória nos trai. Seus conteúdos, as lembranças, estão muito longe de ser uma recriação fiel da realidade. Quando contamos alguma coisa, cada vez a contamos de uma maneira diferente. De fato, a psicologia forense pede que as testemunhas não contem os fatos a ninguém, numa tentativa de não contaminar as lembranças. É curioso como a nossa mente funciona, e, em particular, a memória das testemunhas. Podemos realmente lembrar de algo que aconteceu?

Hipótese Reconstrutiva

Elisabeth Loftus, matemática e psicóloga especializada neste campo, assegura que a memória pode ser manipulada e, portanto, é possível “induzir” falsas memórias por meio da sugestão. Mais especificamente, ela considera que a memória das testemunhas é uma reconstrução. Por quê?

Mulher prestando depoimento

Quando alguém é testemunha de um fato, armazena dois tipos de informação. Por um lado, o que tenha sido obtido enquanto presenciava este fato e, por outro, o que lhe foi sendo proporcionado depois. Ambos se integram, dando lugar ao fenômeno da reconstrução. A pessoa pode chegar a se lembrar de detalhes do acontecimento que na verdade não viu, e, ao contrário, pode se esquecer de outros que presenciou.

“Por que surgem estas memórias reconstruídas? Porque o cérebro odeia o vácuo”.
-Scott Fraser-

Psicologia do testemunho: principais fatores na precisão da memória de uma testemunha

Quando uma pessoa presencia um delito ou um crime, é necessário levar em conta uma série de fatores. Destas variantes depende que uma lembrança seja considerada mais ou menos precisa e, portanto, mais ou menos válida.

Testemunho suspeito

Normalmente, uma pessoa consegue registrar apenas 20% daquilo que vê. No caso das testemunhas de um acontecimento, esta porcentagem diminui ainda mais. Justamente porque não esperavam que este evento acontecesse e pela brevidade do mesmo.

Além disso, nesses momentos acontece um efeito conhecido como “cegueira à mudança”: não somos capazes de perceber as modificações que ocorrem ao redor de uma pessoa. Isto acontece porque não prestamos atenção a isso; ainda que se trate de algo relevante, não reparamos nos detalhes, nos focamos no grosso (roubo, empurrão, arma…). E temos erros de percepção que costumam ser pontos-chave na memória de testemunhas.

Expectativas prévias

Há vários estudos que afirmam que aquilo que lembramos não somente se limita ao que vivemos diretamente, mas, além disso, memorizamos nossas expectativas. Ou seja, os conhecimentos e conteúdos que fomos adquirindo a partir de outras experiências anteriores relacionadas com o acontecimento (Bransford & Franks, 1971).

Esta memória daquilo que esperávamos ver é muito bem explicada por Barlett e sua memória reconstrutiva. Nos seus estudos, revelou que as reproduções feitas pelos leitores de seu famoso conto A guerra dos fantasmas haviam alterado a versão original. Estas distorções se referiam a uma excessiva simplificação, omissão de detalhes e mudanças de detalhes por outros, próprios deles mesmos.

Perguntas capciosas

As testemunhas podem alterar a natureza de suas lembranças devido ao que ocorre depois de terem presenciado o delito. De fato, as perguntas feitas às testemunhas influenciam – e muito – aquilo de que se lembram. Como “consolo”, os estudos nos dizem que, normalmente, estas distorções afetam detalhes periféricos ou menores, de modo que não influenciam tanto as consequências do testemunho.

Psicologia do testemunho

Diferenças individuais

Na análise da psicologia do testemunho, foi comprovado que as crianças e os idosos são mais vulneráveis a distorções. As crianças são menos precisas, enquanto os idosos estão mais convencidos de SUA própria verdade. Isto é, confiam mais na veracidade de suas falsas memórias.

Da mesma forma, há uma influência da própria idade da testemunha. Na hora de identificar o culpado, quanto menor for a diferença de idade entre o suposto culpado e a testemunha, maior é a precisão.

Confiança da testemunha

Em geral, a segurança que a testemunha demonstra ao identificar o culpado não é um bom indicador da precisão daquilo que a testemunha manifesta. Por mais detalhes que revele, a emoção demonstrada ou a sua capacidade de convicção não são, em geral, sinônimos de veracidade.

Fatores situacionais

Em geral, os níveis médios de ativação são os mais adequados para recordar com precisão. Se o sujeito tem picos de ansiedade ou de estresse, se reduz a capacidade de recordar.

Da mesma forma, a maioria das testemunhas confirma que um evento violento fica gravado com mais força que um não violento. É especialmente curioso o efeito da focalização da arma. As testemunhas prestam tanta atenção na arma do agressor que seu campo de visão se reduz apenas a ela, ignorando outros detalhes. A violência faz com que as testemunhas se lembrem mais da experiência central (arma) e menos das experiências periféricas.

Assim, em muitas ocasiões, manifestamos uma fé cega em nossa capacidade de perceber tudo o que acontece ao nosso redor. Entretanto, muitas vezes somos incapazes de detectar todas as mudanças à nossa volta. Por isso, nossas memórias são frágeis e a psicologia do testemunho atesta este fato.


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