O mito do empate e o pacifismo

14 Setembro, 2020
O mito do empate é o nome que Claude Levi-Strauss deu a uma prática realizada pela comunidade Gahuku-Gama, da Nova Guiné. Este mito mostra que o jogo não é apenas um ato de diversão, mas também reflete os valores de uma sociedade.
 

O mito do empate diz respeito principalmente a uma cultura da Nova Guiné chamada Gahuku-Gama, ou Gahulu-Kama. Esta comunidade possui uma moral e costumes que são muito diferentes do que é visto no Ocidente, principalmente em relação à competitividade e ao conflito. Este grupo faz tudo dentro do seu alcance para manter a harmonia entre os membros.

É preciso ressaltar que o mito do empate foi descrito por Claude Levi-Strauss, o pai da antropologia moderna, em seu livro “O Pensamento Primitivo”. A cultura Gahuku-Gama esteve isolada do mundo ocidental até 1930, data em que houve contato com missionários vindos principalmente da Europa.

Levi-Strauss conta que os missionários lhes ensinaram a jogar futebol. Os Gahuku-Gama, então, adaptaram a prática deste esporte aos seus próprios valores e costumes.

De modo surpreendente, eles se mostraram avessos à ideia de um jogo conflituoso entre adversários. Eram capazes, inclusive, de jogar por dias inteiros até que as equipes chegassem a um empate. Daí nasceu o mito.

“O prevalecer sobre nada, nem que nada prevaleça sobre si mesmo, é algo que encaixa, preenche, dá sentido, tem beleza e acalma.”
-Joaquín Araújo-

Bola na grama
 

O mito do empate

Para os Gahuku-Gama, é inaceitável que alguns seres humanos se tornem vencedores ao passo que, por razões óbvias, outros se tornem perdedores. Eles encaram as duas circunstâncias como coisas degradantes e contrárias à sua própria estabilidade enquanto grupo. Devido a isso, levaram a prática do futebol a outro nível, convertendo o jogo em um mito: o mito do empate.

Para aquela cultura, a solidariedade é um valor fundamental. Justamente por isso, não poderiam aceitar um jogo cujo objetivo fosse que uma equipe se impusesse sobre a outra. Os Gahuku-Gama valorizam profundamente o esforço e lhes pareceu muito injusto que houvesse perdedores sendo que todos os jogadores se esforçavam.

Desta maneira, uma partida de futebol que fosse disputada por este grupo poderia durar vários dias. Ter o empate como objetivo não significa que uma equipe deva fazer concessões à outra, visto que isso seria falta de honestidade. A intenção é que ambas equipes consigam evoluir até o ponto em que atinjam condições iguais. O mito do empate faz com que todos sejam vencedores e perdedores de uma só vez.

Competir e empatar

Poderíamos pensar que o caso dos Gahaku-Gama fosse uma exceção. Muitas teorias afirmam que a guerra, a competição e o conflito são inerentes à natureza humana. Talvez até seja assim a princípio, porém são muitas as culturas que promovem a solidariedade de maneira enfática, em vez da competição e do confrontamento.

Há evidências de que as culturas que existiram antes da Grécia Antiga também eram assim. Há, também, grupos humanos, como os esquimós, que jamais protagonizaram uma única guerra em toda a sua história.

 

Apesar destes povos habitarem áreas em que os recursos são escassos, eles compreenderam que, em vez de competirem, a melhor saída para este problema era a solidarização mútua em prol do bem comum — o que também pode ser visto como uma forma de empate.

No outro lado do mundo, na Patagônia, existem comunidades com valores e costumes semelhantes. Os Yaganes, ou Yamanas, por exemplo, cuja população diminuiu graças às ações do “homem branco”, não têm nenhum registro de terem iniciado guerras ou qualquer tipo de confronto físico com outras comunidades.

A união faz a força

O empate na vida cotidiana

Nós conseguiríamos poupar muitas ansiedades, estresses e depressões se estivéssemos mais abertos às mensagens enviadas por comunidades como as mencionadas. Uma boa parte dos nossos problemas provém desses êxitos ou fracassos que nos tiram o sono; de nos sentirmos inferiores ou superiores aos outros; de não conseguirmos lidar com as nossas diferenças e de nos sentirmos compelidos a nos impor sobre os outros.

O mito do empate fala da vontade coletiva de crescer e nos diz que evoluir individualmente não é o bastante, mas que a tarefa só se completa quando conseguimos que os outros evoluam conosco.

 

Todos nos sentimos mais tranquilos quando conseguimos atingir uma certa igualdade ou princípio de justiça universal que valorize tanto os outros quanto a nós mesmos.

A palavra “empatar” tem uma etimologia muito interessante. Quando a analisamos, chegamos à raiz latina “pactare”, que originou o vocábulo italiano “impattare”. Em sua concepção original, significava “aceitar, ficar em paz”. É exatamente isso que aquelas culturas milenares fazem através de seus jogos e costumes cotidianos: a construção da paz individual e coletiva.

 

Araújo, J. (1996). XXI, siglo de la ecología: para una cultura de la hospitalidad. Espasa.