O que é a pornossexualidade?

· março 9, 2019
Estima-se que 66% dos homens e 41% das mulheres assistem a um vídeo pornográfico pelo menos uma vez por mês. Alguns deles entram na pornossexualidade e isso os impede, cada vez mais, de construir relacionamentos íntimos genuínos.

As relações entre seres humanos estão cada vez mais midiáticas. Ou seja, já não se tem mais acesso ao outro por meio de uma experiência direta de encontro, mas sim de algum meio que serve como um vínculo. Em outras palavras, entre um ser humano e outro é cada vez mais comum a mediação de um aparelho. A era da Internet massificou um fenômeno que atingiu proporções dramáticas e moldou outros tipos de fenômenos, como o da pornossexualidade.

O consumo de pornografia já existe há muito tempo, mas as novas tecnologias acabaram facilitando ao extremo o acesso a esses conteúdos. Isso é o que levou ao que é chamado de pornossexualidade, ou uma aposta pela pornografia como o eixo principal da sexualidade individual.

Não há estatísticas totalmente confiáveis sobre este assunto, uma vez que se trata de um tema que nem todos reconhecem. No entanto, de acordo com um estudo chamado Brain Structure and Functional Connectivity Associate with Pornography Consumption, publicado na revista científica Journal of the American Medical Association, 66% dos homens e 41% das mulheres assistem pornografia pelo menos uma vez por mês. No entanto, não está claro quantas dessas pessoas se enquadram na categoria da pornossexualidade.

 “A pornografia é para o sexo o que o McDonald’s é para os alimentos. Uma versão plástica e genérica da realidade”.
-Gail Dines-

A pornossexualidade e a pós-modernidade

Uma das características mais relevantes da pós-modernidade é a explosão da diversidade no campo da sexualidade. As manifestações nessa área se tornaram um amplo leque. Para o mundo inteiro, está cada vez mais claro que existem múltiplas formas de viver a sexualidade e que todas elas são perfeitamente respeitáveis.

O que não está muito claro é se a pornossexualidade é uma opção, uma tendência ou um problema. Estritamente falando, os pornossexuais são aquelas pessoas que obtêm satisfação sexual somente e exclusivamente quando assistem pornografia. Não há outra maneira de conseguirem sentir prazer verdadeiro. Elas não são usuárias ocasionais de vídeos desse tipo. A pornografia, na verdade, é a referência essencial para viver sua sexualidade.

Em termos pós-modernos e abertos, isso seria apenas mais uma expressão da ampla diversidade que existe atualmente. Do ponto de vista psicológico, surge a questão de saber se esse comportamento não é uma maneira de evitar relacionamentos reais. Se este for o caso, não é uma expressão livre, mas um mecanismo que mascara um problema.

Pornografia

Os problemas associados à pornografia

Tudo parece indicar que há uma espiral ascendente no uso da pornografia. A pessoa começa como um espectador ocasional e, pouco a pouco, o comportamento se torna repetitivo. Para muitos, chega um momento em que só conseguem desfrutar da sexualidade por meio da pornografia. Aparentemente, a pornografia entorpece o desejo e o prazer de um casal de verdade.

A pornografia cria situações sexuais de maneira artificial. Essa artificialidade não é inofensiva, pois condiciona elementos tão importantes quanto as expectativas. Além disso, retira da sexualidade as contradições envolvidas em um relacionamento verdadeiro. Portanto, para aqueles que têm dificuldades em lidar com os altos e baixos da intimidade, o pornô pode acabar se tornando um substituto para as relações sexuais.

A pornossexualidade estagna o desenvolvimento psicossexual. Para ter um parceiro e alcançar uma intimidade satisfatória, é necessário cultivar e desenvolver habilidades sociais e dimensões psicoafetivas. Em muitos casos, a relação obsessiva com a pornografia impede que essa evolução ocorra.

Mulher com celular na mão

Um tema que deve ser levado a sério

Há estudos que sugerem que a pornografia tem potencial suficiente para modificar a estrutura e o funcionamento do cérebro. Isso se deve ao fato de que, ao assistir a um vídeo desse tipo, há fortes descargas de dopamina. Quando há um estímulo que provoca esse tipo de resposta, o risco de desenvolver um vício aumenta notavelmente.

Da mesma forma, a exposição frequente à pornografia modifica o centro de recompensa do cérebro. Isso faz com que quanto mais se assiste pornografia, menos prazer ela produza. O efeito é exatamente o mesmo de um vício, ou seja, cada vez é preciso consumir mais para obter um nível de prazer semelhante ao que se obtinha antes.

O mais preocupante é que a pornossexualidade priva as pessoas do contato íntimo direto com outros seres humanos. O outro é substituído por uma tela. Isso pode ocultar o medo de construir relacionamentos genuínos, ao mesmo tempo em que alimenta esse medo. Como qualquer tipo de comportamento viciante, a longo prazo acaba criando um poço do qual não será fácil sair.

Tena Aguiar, Y. M. (2016). La Post-pornografía: una respuesta crítica a la Pornografía. Castrante.