O que é a psiquiatria biológica?

julho 31, 2019
A psiquiatria biológica é o ramo da psiquiatria responsável por estudar as relações biológicas que influenciam ou que estão relacionadas à presença de transtornos mentais nos indivíduos.

A psiquiatria biológica ou a biopsiquiatria é um ramo da psiquiatria que tenta compreender os transtornos mentais, concentrando sua atenção no funcionamento do sistema nervoso.

É interdisciplinar em sua abordagem e se baseia em ciências como a neurociência, a psicofarmacologia, a bioquímica, a genética e a fisiologia. Dessa forma, é o ramo da medicina que se ocupa do estudo da função biológica do sistema nervoso nos transtornos mentais.

A psiquiatria biológica teve início entre os séculos XVIII e XIX. Sua predominância chegou com o advento dos psicofármacos por volta dos anos 50 do século passado.

A escola alemã deu uma ênfase especial à neuroanatomia e à histopatologia. No século XX, denominado o século da Física, ocorreu um enorme progresso de instrumentos tecnológicos que levaram a um grande desenvolvimento das ciências básicas.

Surgiram melhores equipamentos de microscopia, melhores técnicas de imagiologia, tais como ressonância magnética e tomografia por emissão de pósitrons, tendo chegado inclusive à nanotecnologia que será amplamente utilizada no desenvolvimento do Projeto Cérebro Humano.

“Quando não podemos mais mudar uma situação, temos o desafio de mudar a nós mesmos”.
-Viktor E. Frankl-

Aprofundando-se na psiquiatria biológica

O desenvolvimento da psiquiatria biológica está ligado a avanços na tecnologia.

Um dos mais importantes foi quando ocorreu a identificação de neurotransmissores e receptores que intervinham nos mecanismos de ação de fármacos e, depois, estes foram aperfeiçoados para produzir bloqueios ou ativações de aminas biogênicas.

Sinapses de neurônios

Com a chegada dos psicofármacos e das teorias de desequilíbrio bioquímico, iniciou-se também um período de busca pelos elementos genéticos ligados a essas variáveis bioquímicas, e abriu-se o caminho para que as descobertas derivadas dessa busca influenciassem a evolução das classificações diagnósticas.

Até o momento, no entanto, não foram obtidos marcadores biológicos confiáveis, embora aparentemente as técnicas atuais de exploração estejam começando a dar frutos.

Por exemplo, em estudos sobre a biologia da depressão e por meio de técnicas de escaneamento cerebral, Helen Mayberg identificou dois circuitos de grande importância para a tomada de decisões sobre o tipo de aproximação terapêutica de escolha para o tratamento de pacientes deprimidos.

Segundo esse estudo, os pacientes que apresentavam atividade basal abaixo da média no nível da ínsula anterior respondiam bem à terapia cognitiva. Por outro lado, pacientes acima da média de atividade respondiam bem à medicação antidepressiva.

Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos

Para falar da base biológica dos transtornos psiquiátricos, necessariamente temos que falar de genética.

Sabemos que há características genéticas que intervêm na etiopatogenia de doenças mentais (probabilidade de que apareçam doenças mentais), mas ainda não há genes identificados. Há genes candidatos com locus prováveis, mas esta continua sendo uma via pouco desenvolvida.

“Se queremos que tudo continue como está, é necessário que tudo mude”.
-Ortega y Gasset-

Estudo 1

Um estudo recente do grupo de Marian L. Hamshere identificou uma associação genética entre o transtorno infantil de déficit de atenção e hiperatividade com esquizofrenia e o transtorno bipolar em adultos.

Quase simultaneamente, foi publicado na revista The Lancet um artigo que demonstrava que cinco desordens psiquiátricas de início na infância ou na idade adulta (transtorno de déficit de atenção, transtorno bipolar, autismo, depressão e esquizofrenia) compartilham fatores genéticos comuns de risco.

Variações nos genes da atividade do canal de cálcio aparentemente são muito importantes nos cinco transtornos, o que nos leva a ter a esperança de novos alvos moleculares para o desenvolvimento de medicamentos psicoterapêuticos.

Estudo 2

Outra área de pesquisa genética se orienta ao estudo de como as mutações genéticas influenciam o desenvolvimento do cérebro. A maior parte das mutações produzem pequenas diferenças em nossos genes.

Pesquisadores como Murdoch e State descobriram um significativo número de variações copiadas do cromossomo 7. Uma cópia extra de um segmento desse cromossomo aumenta consideravelmente o risco de autismo, que se caracteriza pela tendência ao isolamento social.

O aspecto mais interessante é que a perda do mesmo segmento resulta na síndrome de Williams, transtorno caracterizado por uma intensa sociabilização.

Esse segmento do cromossomo 7 contém por volta de 25 dos 21.000 genes, aproximadamente, do genoma humano. Apesar dessa minúscula quantidade, uma cópia extra ou uma cópia ausente desse segmento tem efeitos profundos, e radicalmente diferentes, sobre o comportamento social do indivíduo.

Ao mesmo tempo, esta é mais uma prova da natureza biológica dos transtornos mentais, o que por sua vez indica que determinadas alterações de nível mental, como a esquizofrenia e a depressão, têm um importante componente genético.

“Antes, pensávamos que nosso futuro estava nas estrelas. Agora, sabemos que está em nossos genes”.
-James Watson-

Conexões dos genes

As promessas da psiquiatria biológica para o futuro

Os avanços na psiquiatria biológica foram e continuam sendo vinculados ao desenvolvimento de tecnologias. Já afirmou-se que no futuro próximo obteremos muitas informações sobre o cérebro a partir de desenvolvimentos em nanotecnologia, microeletrônica e biologia sintética.

Desenvolvimentos que serão colocados à disposição de neurocientistas para experimentos e pesquisa, tais como implantes de nano sensores, fibra óptica sem fio e células vivas geneticamente projetadas para penetrar no tecido cerebral e reportar o quê, como e quando os neurônios estão respondendo a vários estímulos.

Essa é a essência do projeto internacional denominado “Cérebro”, similar ao do Genoma Humano, que tanto contribuiu para o campo da ciência em geral e da genética em particular.