O que é paranoia e por que ela nos prejudica?

junho 2, 2019
A paranoia é um estado mental e emocional complexo, mencionado desde o tempo de Hipócrates. A psiquiatria transformou esse conceito em um complemento de outros transtornos, enquanto a psicanálise a aborda como uma entidade independente.

A paranoia foi interpretada de maneira diferente pela psiquiatria e pela psicanálise. O conceito surgiu inicialmente na psiquiatria e, a princípio, foi simplesmente assumido como uma forma de demência.

Com o tempo, a psiquiatria descartou esse conceito como uma entidade diagnóstica; em parte, porque a paranoia começou a fazer parte de alguns distúrbios mentais, em particular da esquizofrenia. Assim, deixou de ser uma entidade separada e tornou-se quase um sintoma de outras patologias. Atualmente, o que mais se assemelha, segundo o DSM, é a “síndrome delirante”.

Na psicanálise, algo muito diferente aconteceu. Em princípio, Sigmund Freud a abordou como uma forma de neurose derivada da obsessão. Mais tarde, particularmente com o caso Schreber, entendeu que se tratava de uma psicose. Lacan, por outro lado, fez sua tese de doutorado sobre o caso Aimée: uma paranoia curada.

… “aquilo que foi abolido por dentro retorna por fora”.
-Sigmund Freud-

Um pouco de história

A palavra paranoia vem da raiz grega “para”, que significa “ao lado de” ou “junto de”; e da palavra “noev”, que significa pensar ou entender. Então, por sua etimologia, a paranoia é algo como “ter um pensamento paralelo”. O primeiro a falar disso foi Hipócrates.

Mulher tendo alucinações paranoicas

Durante muito tempo a palavra paranoia foi usada como sinônimo de loucura. O alemão Kahlbaum foi o primeiro a falar dela como uma entidade separada em 1863. Kraft-Ebing desenvolveu um pouco mais o conceito e, em 1879, a descreveu como uma “alienação mental que diz respeito essencialmente ao julgamento e raciocínio”.

Houve outras tentativas de descrever esse problema, mas finalmente o conceito de Kraepelin foi imposto em 1889. A partir de então, assumiu o significado de um tipo de distúrbio em que há delírios, sem outra psicopatologia significativa. No DSM esteve presente até 1987, quando foi substituída pelo “transtorno delirante” ou “transtorno paranoico”.

Paranoia na psicanálise

Sigmund Freud falou inicialmente da paranoia, sem conseguir conceituá-la completamente, em sua obra A neuropsicose de defesa (1894). A psicanálise freudiana lidava principalmente com neuroses. Inicialmente, Freud associou a paranoia ao mecanismo de projeção; então, não avançou de forma conclusiva.

Neisser definiu um aspecto fundamental da maneira como a psicanálise lida com o fenômeno paranoide. Ele observou que esta é, em essência, “uma maneira única de interpretar. O paranoico sente que tudo o que observa e ouve, de uma forma ou de outra, se refere a ele.

Jacques Lacan, por sua vez, foi muito mais fundo no assunto. Em um texto de 1958, no qual ele se refere ao caso Schreber, abordado por Freud, Lacan definiu a paranoia como a “identificação de um proveito no lugar do outro“.

Lacan é enigmático e não é facilmente entendido. Digamos apenas que sua afirmação equivale ao slogan da paranoia: “O Outro se aproveita de mim”. Jacques Lacan diz isso literalmente: “Ele mesmo [o paranoico] se oferece como apoio para que Deus ou o Outro goze do seu ser passivado”.

Jovem sofrendo de paranoia

Diluindo o conceito de paranoia

O paranoico na psicanálise não é apenas uma pessoa desconfiada, como é costume pensar na cultura popular. O afetado por esse problema parte de dois pressupostos: um, que algum tipo de “maldade” ou “crueldade” foi desencadeado e que ele seria a vítima desta. E dois, que o que acontece no mundo tem a ver com ele de alguma forma.

O paranoico interpreta o mundo a partir desses dois pressupostos e com base em um delírio. O delírio é uma história irracional. Na paranoia, essa história tem a ver com uma forma de maldade que quer transformar a pessoa em uma vítima. “Espíritos perversos tomam conta da minha mente”, por exemplo. Ou os marcianos ou o diabo.

Nesse estado, uma pessoa interpreta os fatos da história à qual sua mente deu vida. Assim, perder um objeto, por exemplo, seria uma prova de que esses espíritos, marcianos ou demônios, ou o que quer que seja, estão brincando com ela ou a atormentando.

Como Lacan aponta, aparece o slogan: “O Outro se aproveita de mim”. Diante disso, ele se sente completamente “passivado”. Atribui o que acontece em sua vida: Não fui eu, foi o Outro. Essa crença e esse delírio vão desde situações relativamente simples, como o ciúmes, até estados que levam à consequências mais graves, como no caso Aimée.

  • Freud, S. (1911). Puntualizaciones psicoanalíticas sobre un caso de paranoia (Dementia paranoides) descrito autobiográficamente. Obras completas, 12, 1-73.