O relógio, a invenção medieval que mudou nossas vidas

· maio 29, 2019
O relógio se popularizou na Europa no final da Idade Média, junto com a expansão do trabalho urbano e da vida cisterciense. Com ele, surgiu uma nova maneira de entender o tempo.

A arte da relojoaria, como muitas outras, não nasceu na Europa Ocidental. A civilização islâmica, e sobretudo a chinesa, desvendaram seus mistérios antes. As chamadas clepsidras orientais, um relógio de inspiração astronômica, não representaram, entretanto, a mudança social que seria causada pelos seus primos mecânicos no Ocidente. A invenção do relógio é, acima de tudo, a descoberta do tempo. O tempo do comerciante, como antecipou o historiador francês Jacques Le Goff, não é o tempo do camponês.

Evidentemente, a ação de medir os dias é tão antiga quanto a observação dos astros. No entanto, esse serviço que o Sol e a Lua proporcionam é, ao mesmo tempo, uma escravidão aos mesmos. Da mesma forma que a luz elétrica urbana acabaria com a tirania das noites, o relógio outorgará a independência do Sol aos homens atarefados.  Com as novas vantagens, chegariam novos valores.

Tempos no campo, tempos na cidade

A Idade Média, assim como parte dos tempos anteriores e posteriores, foi uma época eminentemente agrária. A maior parte dos europeus vivia do cultivo da terra ou do cuidado de seu gado. A vida era marcada pelos tempos naturais, tanto diária quanto sazonalmente. O resto das atividades, sacras ou profanas, deviam se adaptar aos ritmos que o trabalho impunha. Embora os relógios não fossem comuns nem conhecidos, também não eram necessários.

Mas algo deve ter acontecido nos séculos XIII, XIV e XV, pois a Europa Central e Ocidental ficou repleta de relógios mecânicos de todos os tipos. Desde os relógios públicos de Pádua ou Bolonha até os relógios das catedrais de Chartres ou de Wells. Definitivamente, percebia-se um novo uso do tempo entre aqueles homens. Os elementos-chave eram a nova vida monástica e urbana.

O relógio astronômico de Pádua

O relógio para Deus

As novas regras monásticas, muito mais estritas do que até então, passaram a impor aos monges uma centralidade da vida em torno da oração. Ao contrário dos camponeses, o monge devia adaptar suas tarefas às suas orações, que foram estabelecidas em um horário estável.

Fixadas as laudes, o conhecimento exato do tempo e de suas unidades se tornou indispensável na vida do monastério. Os relógios inundariam os espaços comuns avisando os horários das orações. Este seria o berço daquela invenção.

Para os teólogos medievais, o tempo era tão importante quanto irrecuperável. Desperdiçá-lo era desperdiçar um dom de Deus. Pelo contrário, dedicá-lo à meditação era um sinal de virtude.

O relógio para o dinheiro

Apesar do relógio ter sido criado para medir os tempos de Deus, os seres humanos logo passaram a servir outros deuses. Os ritmos de trabalho na cidade, para comerciantes e artesãos, também não se adaptavam necessariamente à incessante dança do Sol e da Lua.

As exigências dos negócios impunham o cultivo de novos valores, como a pontualidade ou a eficiência. As praças públicas logo passaram a anunciar as horas fazendo tocar os sinos.  A cidade estava em ebulição, o dinheiro passava de mão em mão, os cidadãos ansiosos não podiam se permitir chegar tarde em um encontro ou esperar o outro em vão.

As cidades se transformaram em um eco de soar de sinos, anunciando todo tipo de acontecimento periódico. Os novos tempos tinham um som metálico.

O relógio, tecnologia de ponta

O desenvolvimento que essas máquinas, já indispensáveis, tiveram em poucos séculos foi sintomático da época. Ficava cada vez mais distante o estilo ornamental e se tornavam pouco úteis os mecanismos orientais. O fluir da água, usado no início, não era suficientemente preciso e constante para o passar do tempo. Os diferentes sistemas de cordas, eixos e pesos foram evoluindo até se tornarem verdadeiras obras-primas, como o relógio da cidade velha de Praga (1410).

Relógio da cidade antiga de Praga

Já no século XV seria desenvolvido um modelo que só se tornaria obsoleto com a atual tecnologia móvel: os relógios de bolso ou pulso. As molas e os espirais substituíram os contrapesos, e os relojoeiros se tornaram menos ferreiros e mais artistas. Foi a individualização definitiva do ritmo de vida, imprescindível às profissões liberais. Esse mesmo século, e fruto desses pequenos relógios, presenciaria o surgimento dos horários. Após 600 anos, nem tudo mudou.

Talvez nos dias de hoje seja chocante ouvir isso, mas houve um tempo em que os homens não eram escravos de seus relógios. O tempo não pode ser dominado, e a tentativa de dominar o ritmo imposto pelos astros levou irremediavelmente à nossa própria dominação.

  • Landes, David (2007) Revolución en el tiempo, Crítica.
  • Le Goff, Jacques (2004) Mercaderes y banqueros en la Edad Media, Alianza.