O segredo da flor de ouro: o livro taoísta chinês sobre a meditação

· outubro 8, 2018

O segredo da flor de ouro é um livro sobre meditação e alquimia chinesa traduzido por Richard Wilhelm e comentado por Carl Jung. Faz referência a uma metáfora na qual cada um de nós é obrigado a despertar, a abrir nossa consciência na direção da Luz. Uma abertura primordial, simbolizada pela flor dourada, um centro de poder no qual tudo circula e transcende.

Falar dessa obra é se referir a um dos textos mas importantes sobre a religião taoísta, mas também um dos mais polêmicos. O livro O segredo da flor de ouro é uma tradução “ocidentalizada” de um dos legados espirituais mais relevantes da Ásia. Assim como aconteceu com O livro tibetano dos mortos, muitos detalhes foram simplificados para transformá-lo em um manual chinês sobre ioga que o mundo ocidental conseguiria entender perfeitamente.

No entanto, é muito mais do que isso. Sabe-se que a primeira menção desse texto remonta ao século VII, em tábuas de madeira. Era um antiquíssimo tratado chinês sobre esoterismo que se transmitia de forma oral. Seus princípios, seus códigos e suas sabedorias foram compilados por um membro da chamada Religião da Luz, cujo líder era Lu Yan. Acredita-se que todos esses métodos descritos remetem a ideias que surgiram na Pérsia e que têm suas raízes na tradição hermética egípcia.

Como vemos, é um livro de grande importância. No entanto, a complexidade de sua religião é imensa. Fala do processo alquímico através do qual iluminaríamos a morada da consciência espiritual. Para isso, devemos voltar nossa atenção a um recinto sacro interno, à flor dourada que é, ao mesmo tempo, nossa origem e nossa meta. Por sua vez, Wilhelm e Jung, embora tenham deixado alguns conceitos para trás, conseguiram nos oferecer uma obra na qual podemos nos iniciar nessas ideias, nessa filosofia.

“A Flor de Ouro é a Luz, e a Luz do Céu é o Tao. Aí está a ‘vesícula germinal’, na qual a essência e a vida ainda são uma unidade. O nascimento do processo alquímico ocorre quando o escuro dá lugar à Luz”.
-O segredo da flor de ouro-

O segredo da flor de ouro

O segredo da flor de ouro, uma busca interior

Carl Jung conta em suas memórias que sempre se sentiu interessado pela filosofia oriental. Foi por volta de 1920 que começou a experimentar com o I Ching, aprofundando-se quase sem perceber nessa sabedoria ancestral, nessa linguagem figurativa e naquelas tradições orientais que tanto o cativavam. Foi exatamente nessa época que ele conheceu Richard Wilhelm, eminente sinólogo, teólogo e missionário alemão, especializado sobretudo em traduzir obras do chinês ao alemão.

A ideia de traduzir o livro O segredo da flor de ouro partiu daí, após um primeiro encontro na “Escola da Sabedoria” e, mais tarde, no clube de psicologia. Em 1923, a obra foi lançada com o prólogo e comentários de Jung. Em 1931, Carl Baynes a traduziu para o inglês. Não demorou muito para que o livro desse a volta ao mundo e, de alguma maneira, se transformasse no livro de cabeceira de muitas pessoas. No entanto, O segredo da flor de ouro realmente fala apenas sobre ioga e meditação? De forma alguma.

A importância de desenvolver nossa flor de ouro particular

O título original do livro era algo como “Instruções para desenvolver a flor de ouro”. Para entender o propósito desse livro, devemos, primeiro, saber o que é a flor de ouro.

  • A flor de ouro é uma metáfora, mas uma metáfora que faz referência a um tipo de alquimia, a uma transformação interna.
  • A filosofia taoísta afirma que existe uma energia espiritual que transcende a todos nós. Uma luz que simboliza a nossa consciência.
  • Para despertar essa luz ou a nossa flor de ouro, devemos realizar uma série de meditações e exercícios que, no próprio texto original, são denominados como alquimia energética.
  • Esses exercícios contínuos nos permitirão, pouco a pouco, concentrar nossa luz e formar (fazer germinar) nossa flor dourada.  
A importância da meditação

É muito possível que, na nossa visão ocidental, todos esses princípios enunciados em O segredo da flor de ouro pareçam distantes e até estranhos. No entanto, vamos nos voltar a aquilo que chamou a atenção de Carl Jung. Algo que, como psiquiatra e pioneiro na psicologia analítica, o cativou durante grande parte de sua vida. A flor de ouro nos obriga a deixar de lado nossa mente ocupada e condicionada pela sociedade para alcançar uma mente mais elevada, livre, criativa e até celestial.

A luz sempre está sendo filtrada em nossos vórtices. Nossa consciência escorre ao nosso redor em tudo aquilo que desejamos, que sonhamos ou que nos rodeia. Devemos focar nossa mente no nosso interior para permitir que a flor dourada germine e a consciência desperte.

Tranquilizar a mente para abrir o coração

Ao chegar a esse ponto, muitos dos nossos leitores terão feito uma pergunta mais do que evidente. Qual tipo de alquimia/meditação devo realizar para alcançar essa luz descrita em O segredo da flor de ouro? A resposta reside em algo que, aparentemente, pode ser simples, mas que requer uma grande dedicação, prática e vontade: devemos aprender a tranquilizar a mente para abrir o coração.

  • Podemos começar nos perguntando quem somos. Provavelmente, após essa pergunta e quase sem nos darmos conta, vamos visualizar nosso rosto. No entanto, o que define quem somos não é o nosso corpo: são nossos pensamentos. O mais provável é que eles falem demais, nos contem mentiras e nos façam acreditar em coisas que não são verdadeiras. Assim, o melhor é silenciá-los.
  • Para tranquilizar esse ruído dos pensamentos, devemos praticar a respiração profunda para que, pouco a pouco, nosso interior se silencie. Isso é algo que não conseguiremos fazer em um dia ou uma semana. Tranquilizar a mente exige tempo.
  • Quando alcançamos o silêncio interno, chega a reflexão. Nesse instante, entraremos em contato com o espírito do nosso coração, com o pedestal no qual se situa a consciência.
Carl Jung

O segredo da flor de ouro se baseia na meditação de forma regular. Em algum momento, quando esse cuidadoso trabalho revelar uma a uma todas as camadas que nossa mente aprisionou e condicionou, visualizaremos uma mandala. Uma figura na qual está contido esse símbolo químico resplandecente que vai nos libertar por completo: a flor dourada.