O Universo no Olhar, o espelho da alma

março 11, 2019
'O Universo no Olhar' tenta unir ciência e espiritualidade; parte da metáfora "os olhos são o espelho da alma" para propor um modelo que nos fará questionar nossa própria realidade sensível.

O Universo no Olhar, I Origins em inglês, é um filme norte-americano do ano de 2014. É uma produção independente que foi lançada no Festival de Sundance de Cinema no mesmo ano e premiada como Melhor Filme do Festival de Sitges de 2014. Dirigido por Mike Cahill e protagonizado por Michael Pitt, Brit Marling e Àstrid Bergès-Frisbey, o filme nos apresenta um drama com um interessante componente fictício, mas que é surpreendentemente verossímil.

Ciência e espiritualidade se misturam no filme; algo que parece muito difícil de consolidar, mas que se conjuga corretamente. O enredo é construído como um tipo de matrioshka (boneca russa), mas com um fio condutor: os olhos. A princípio, conhecemos o cientista Ian Gray, que está tentando realizar uma pesquisa que consiga, finalmente, desmistificar a espiritualidade. A partir daqui, esse enredo nos levará a outro para, por fim, explicar o motivo pelo qual “os olhos são o espelho da alma”.

Os olhos como ponto de partida

Obcecado com os olhos, Ian Gray pretende encontrar uma origem, um ponto de partida para a evolução do olho que demonstre, com provas, que a fé não tem mais lugar na nossa sociedade. Ian está obcecado pela ciência, pelas evidências e pelos dados; mas, para sua surpresa, encontrará o amor em uma jovem bastante atípica: Sofi, uma garota estrangeira que possui uma forte espiritualidade que contrasta fortemente com o ceticismo de Ian.

O Universo no Olhar adentra uma das questões mais debatidas ao longo da história: ciência vs. religião. Mergulha em várias crenças e fornece uma resposta para a reencarnação. Os olhos serão o ponto de partida e também a descoberta que fará Ian questionar tudo o que sabe, tudo o que estudou. O filme, no entanto, às vezes peca com diálogos muito surrealistas, com pouca credibilidade numa conversa normal de casal. Apesar disso, levando em consideração a natureza de Sofi, podem não ser tão irreais.

Talvez estejamos diante de um filme muito previsível, que quer abordar muitas coisas e, às vezes, fica na superfície. Pode não chegar a atingir o coração dos mais céticos, mas, sem dúvida, tem uma boa abordagem, um bom desenvolvimento e consegue fazer o enredo nos envolver. A reencarnação existe? E se nossos olhos não fossem nada mais do que a marca de outras vidas passadas, de outras almas que, uma vez, tiveram o mesmo olhar?

Acaso, coincidência e O Universo no Olhar

Para Ian, não há nada que a ciência não possa explicar, não existe mundo espiritual, tudo passa pela ciência, pelas observações e demonstrações que podemos extrair do mundo que nos rodeia. O acaso e a coincidência não fazem parte de sua concepção do mundo, mas tudo isso muda ao conhecer Sofi, uma jovem que ele conhece por acaso, de quem não sabe nada e cujo rosto nem sequer conseguiu ver.

Ian e Sofi vão à mesma festa de Halloween, uma noite ligada ao espiritual, às almas. Ela está fantasiada, apenas com os olhos à mostra, olhos inconfundíveis e fascinantes que Ian não conseguirá esquecer. Depois de perder seu rastro, Ian vai procurar Sofi e uma série de coincidências o levará até ela. De repente, Ian começará a ver que o número 11 aparece repetidamente e, seguindo esse número, encontra Sofi.

Por que 11? Embora no filme o número apareça de forma completamente casual e inexplicável na vida de Ian, podemos pensar que não foi escolhido ao acaso, já que o número 11 está tradicionalmente ligado à vida espiritual. O 11 é duas vezes o 1, a soma de seus dígitos nos dá 2, o que nos faz pensar em dualidade, em dois planos, dois mundos; por sua vez, é maior do que o número 10, ligado à perfeição, mas também ao mundo material, de modo que o 11 nos levaria a um plano além, ao espiritual.

O Universo no Olhar

Misticismo e ciência

Os Pitagóricos viam na natureza uma certa correspondência numérica; a razão dava acesso à natureza, ao verdadeiro conhecimento, e esta, por sua vez, estava ligada à matemática, aos números. Para eles, tudo vinha do um; este seria o princípio fundamental do qual viriam outras coisas, o apeirón. O 1 está ligado a uma certa natureza divina e, a partir daqui, os outros surgirão. O todo seria expresso pelo 10, de modo que o 11 estaria ligado a um plano além do terreno.

Além disso, os Pitagóricos possuíam uma visão mística do mundo; não devemos esquecer que, mais do que uma escola, eles foram uma associação de natureza secreta e religiosa. Para os Pitagóricos, existia uma transmigração das almas, isto é, a alma estava em um plano divino, não pertencia ao terreno; a alma habitava o corpo e, após a morte, ocuparia um novo corpo e o faria quantas vezes fosse necessário até alcançar a libertação.

Cena de O Universo no Olhar

Para alcançar essa purificação ou libertação da alma, eles tinham que seguir certas regras de comportamento, dentre as quais se destaca o vegetarianismo, algo fortemente ligado à reencarnação e que aparece em outras religiões, como o budismo. Em O Universo no Olhar, Sofi não parece pertencer a nenhuma corrente religiosa particular, mas acredita na reencarnação e se sente profundamente ligada a certas crenças da Índia.

Desta forma, vemos que O Universo no Olhar não só coincide com os Pitagóricos no misticismo do número 11, mas também com as afirmações sobre a reencarnação. Sofi, além disso, também coincide com os pitagóricos no vegetarianismo, algo que lhe permitirá questionar experimentos científicos, questionar até que ponto é ético fazer experimentos com animais, torturar vermes, como no caso de Ian, seja para provar que uma teoria é verdadeira ou por simples egoísmo humano.

Atualmente, não hesitamos em vincular Pitágoras e seus discípulos com a matemática, com a geometria, com um conhecimento racional e científico. No entanto, nos aprofundando em sua filosofia, percebemos a importância do componente religioso. Em O Universo no Olhar, a espiritualidade e a ciência se fundem, se misturam e nos convidam a refletir sobre o mundo ao nosso redor.

A dualidade

Platão nos explicou que havia dois mundos, que havia um mundo fora do alcance dos nossos sentidos, mas que estava lá; esse mundo seria o que nos daria acesso à verdade, aquele que libertaria nossas almas. Sofi faz uma pergunta interessante para Ian: ele está experimentando com vermes que só têm dois sentidos. Mas o que aconteceria se nós, assim como aqueles vermes não têm visão, não tivéssemos outro sentido, o que nos impediria de enxergar além?

Os vermes com os quais Ian faz experiências não conseguem enxergar. Portanto, não sabem o que é a luz ou o que são as cores. Como podemos ter certeza de que não nos falta outro sentido que nos permita perceber algo que está diante de nós e que simplesmente não sabemos porque não temos a capacidade de acessá-lo?

O Universo no Olhar

Os homens que Platão descreveu em sua alegoria da caverna se agarravam, como Ian, à sua realidade sensível, àquelas sombras que consideravam reais por serem o que conseguiam enxergar. No entanto, eles estavam deixando de lado um mundo real ao qual, sem acesso, rejeitavam, sem questionar se era real ou não. O fato é que parece que tudo o que é desconhecido ou inexplicável assusta. Assim, queremos nos apegar ao que vemos, ao que percebemos através dos nossos sentidos.

O Universo no Olhar brinca com o que consideramos racional, com os limites do nosso próprio conhecimento, e tenta propor uma realidade que poderia estar diante de nossos olhos e que, simplesmente, não conseguimos perceber. O filme desenvolve um enredo para finalmente repetir e exemplificar uma metáfora que já ouvimos muito ao longo da história: “os olhos são o espelho da alma”.

“Você já conheceu alguém que, à primeira vista, preenche um vazio que você tinha e que, quando vai embora, faz com que esse vazio se torne mais doloroso?”
– O Universo no Olhar –