Os 7 pecados da memória segundo Daniel Schacter

janeiro 30, 2019
A memória é essencial em nossa vida cotidiana. No entanto, apesar da sua importância, ela não proporciona um registro exato das nossas experiências.

A pesquisa de Daniel Schacter, um estudioso dos processos da memória, psicólogo cognitivo e professor de psicologia da Universidade de Harvard, defende que nossas memórias são inclinadas a cair em sete enganos que, devido ao seu funcionamento, são comuns a todos nós. Ele chamou estes sete erros de os sete pecados da memória.

Schacter explica que as pesquisas mostram que o processo de recordar e recuperar memórias é uma atividade de construção. Ele diz que o sistema da memória humana não é perfeito, tem as suas deficiências e todos estamos sujeito a isso, podendo ser afetados por esses problemas em nossa vida cotidiana.

Em seu livro ‘Os Sete Pecados da Memória‘, Schacter classifica sistematicamente várias distorções das memória em sete categorias básicas. Segundo ele, estas sete categorias de distorção da memória são: fugacidade, atribuição errônea, bloqueio, má atribuição, sugestibilidade, preconceito e persistência.

No entanto, Schacter diz que “essas distorções da memória não devem ser vistas como uma falha no desenho do sistema, mas essas sugestões podem ser conceitualizadas como subprodutos de características desejáveis da memória humana”.

Nesse sentido, Schacter ressalta que existem evidências de que a memória satisfaz as necessidades do presente e de que o passado se remodela com o conhecimento, as crenças e as emoções atuais. Os erros da memória são tão fascinantes quanto importantes, segundo ele.

Esses pecados da memória ocorrem com frequência na nossa vida cotidiana, e não são, por si só, um sinal de patologia. O problema é que as consequências que costumam derivar desse problema amnésico não são muito desejáveis.

Deterioração da memória

Os 7 pecados da memória

Daniel Schacter afirma que o mau funcionamento da memória pode ser dividido em sete transgressões fundamentais e pecados. Por uma lado temos os pecados de omissão, que são o resultado de um fracasso para recordar uma ideia, um fato, ou um evento (recuperação da memória).

São a fugacidade ou transitoriedade (perda da retenção com o tempo), a falta de atenção ou distensão mental (falhas de atenção que dão lugar a uma perda de memória) e bloqueio (incapacidade de recuperar informação que está disponível na memória).

Do outro lado estão os pecados de comissão, que implicam diferentes tipos de distorção. Ou seja, casos nos quais a memória é recuperada mas há uma falha nessa recordação. Pode ocorrer por ter sido mal codificada, ou por ter sido modificada depois sem que tenhamos nos dados conta.

São a atribuição errônea (atribuir memória a uma fonte incorreta), a sugestibilidade (memórias implantadas resultantes de sugestões ou informações enganosas) e o preconceito (efeitos de distorção que surgem dos conhecimentos que já temos, crenças e sentimentos na memória).

Schacter propõe ainda um pecado final, a persistência, que tem relação com as memórias intrusivas e indesejáveis que não podemos esquecer nem se quisermos.

Fugacidade ou transitoriedade

A fugacidade ou transitoriedade se refere a um enfraquecimento, deterioração ou perda de memória com o tempo. Ou seja, a memória fica mais fraca com o passar do tempo. De fato, podemos recordar muito mais os eventos recentes do que aqueles que se encontram mais longe, no passado. Essa é uma característica básica da memória, e também a culpada por muitos dos problemas de memória.

A transitoriedade é causada pela interferência. Há dois tipos de interferência: a interferência proativa, na qual uma informação antiga inibe a capacidade de recordar informação nova, e a interferência retroativa, na qual a informação nova inibe a capacidade de recordar informação antiga.

Falta de atenção ou distensão mental

A distensão mental ou falta de atenção implica uma ruptura na interface entre a memória e a atenção. Implica problemas no ponto em que a atenção e a memória se relacionam.

Os erros de memória por estarmos distraídos (perder as chaves ou esquecer um convite para almoçar, por exemplo) costumam acontecer porque estamos preocupados com questões ou preocupações que nos distraem, e assim não focamos a atenção no que precisamos focar para memorizar e recordar.

Ou seja, no momento da codificação não prestamos atenção suficiente ao que devíamos e, assim, a memória não se forma.

Homem com a mão na cabeça por ter esquecido algo

Bloqueio

O bloqueio tem relação com uma busca frustrada de informação que podemos estar tentando recuperar desesperadamente. Ocorre quando o cérebro tenta recuperar ou codificar informações, mas outra memória interfere no processo.

Essa experiência frustrante ocorre mesmo que estejamos prestando atenção na tarefa em questão, e ainda que a memória que desejamos evocar não tenha desaparecido do nosso cérebro. Na verdade, só percebemos isso quando recuperamos inesperadamente a memória bloqueada horas ou dias depois.

Atribuição errônea

O pecado da atribuição errônea implica designar uma memória a uma fonte equivocada. Ou seja, implica ter uma memória de informações corretas mas com um pequeno erro relacionado à fonte dessa informação.

A atribuição errônea ou reconhecimento falso pode ocorrer quando as pessoas reconhecem incorretamente um elemento que já encontraram anteriormente.como um elemento novo relacionado à percepção ou a algum conceito similar.

É importante ter em mente que a atribuição errônea é muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina, e tem implicações potencialmente profundas no contexto legal.

Sugestibilidade

A sugestibilidade é algo similar à atribuição errônea, mas com a inclusão de haver uma sugestão aberta. O pecado da sugestibilidade se refere a memórias que podem ser implantadas no nosso cérebro como resultados de perguntas, comentários ou sugestões importantes quando uma pessoa está tentando lembrar de alguma experiência passada.

Ou seja, a sugestibilidade é a incorporação de informações erradas na memória devido a perguntas importantes, mentiras ou outras causas.

Preconceitos

Os preconceitos são distorções retrospectivas produzidas pelo conhecimento atual e das crenças atuais. Esse pecado é similar ao de sugestibilidade no que diz respeito aos sentimentos e à visão atual de uma pessoa distorcendo a memória de eventos passados.

Dessa forma, o pecado do preconceito reflete a nossa capacidade de modificar nossas memórias de maneira significativa  sem nos darmos conta. Frequentemente editamos e reescrevemos por completo nossas experiências anteriores, sem ter consciência do que estamos fazendo, em função do que sabemos ou acreditamos nesse momento.

O resultado pode ser uma representação enviesada de um incidente específico ou inclusive de um período prolongado de nossas vidas, que diz mais sobre como nos sentimos agora do que sobre o que aconteceu no momento.

Mulher segurando uma nuvem em um deserto

Persistência

A persistência é uma falha do sistema de memória que implica a recuperação recorrente de informações perturbadoras que queríamos ignorar. A memória persistente pode levar à formação de fobias, transtornos por estresse pós-traumático e inclusive ao suicídio em casos particularmente perturbadores ou intrusivos.

Dito de outro modo, a persistência se refere a memórias não desejadas que as pessoas não conseguem esquecer, como as que podem estar associadas a um estresse pós-traumático. Ou seja, o pecado da persistência implica uma recordação repetida de informação perturbadora que gostaríamos de esquecer.

Comentários finais

Ainda que os pecados da memória pareçam nossos inimigos, na realidade são uma consequência lógica de como a nossa mente funciona, já que estão conectados a características da memória que fazem com que ela funcione bem.

Por isso, assim como defende Schacter, os pecados da memória não são incômodos que devemos minimizar ou evitar, e devem ser consideradas a partir de um ponto de vista positivo.

Graças a todas as pesquisas, sabemos mais sobre como a memória recorre ao passado para informar o presente, como preserva os elementos da experiência presente para futuras referências, e como nos permite rever o passado à vontade. Por isso, também poderíamos ver esses pecados da memória como virtudes, como elementos de uma ponte que permite unir a nossa mente com o mundo.

  • Schacter, D. (2013). Memory: sins and virtues. Annals Of The New York Academy Of Sciences1303(1), 56-60. doi: 10.1111/nyas.12168
  • Schacter, D. (2002). The seven sins of memory. Boston: Houghton Mifflin.
  • Schacter D. (1996). Searching for memory: the brain, the mind, and the past Choice. Reviews Online, 34 (04), 34-34. doi: 10.5860/CHOICE.34-2465
  • Stone, A. (2001). The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers. American Journal Of Psychiatry158(12), 2106-a-2107. doi: 10.1176/appi.ajp.158.12.2106-a