Qual é a diferença entre paixão e obsessão?

25 Outubro, 2020
Paixão e obsessão são duas realidades nas quais somos motivados a fazer um grande esforço. No entanto, enquanto a paixão nos leva a crescer, a obsessão exerce uma influência negativa em nossas vidas.

Paixão e obsessão são duas realidades muito próximas, mas também muito diferentes. Enquanto a primeira corresponde a um grande fluxo de energia emocional que leva a superar os próprios limites e ir além, a segunda paralisa a vontade, ou melhor, a coloca em limites muito reduzidos.

Também deve ser dito que paixão e obsessão são realidades contíguas. Em outras palavras, em muitos casos você começa com uma paixão por alguma coisa e quando cruza uma determinada fronteira, entra no terreno da obsessão. Portanto, pode-se dizer que a obsessão é uma espécie de excesso de paixão.

É plausível dizer que paixão e obsessão são as duas faces da mesma moeda. Ambas realidades subjetivas são feitas de grande envolvimento emocional e máxima atenção e foco. No entanto, uma representa o lado construtivo e a outra o destrutivo.

“As paixões são como os ventos, necessários para dar movimento a tudo, embora muitas vezes sejam a causa dos furacões”.
– Bernard Le Bouvier de Fontenelle –

Homem preocupado

Paixão e obsessão

Em muitos casos, a paixão e a obsessão seguem uma linha de continuidade ditada por fatores externos. O normal é que tudo comece com alguma atividade de que você goste e na qual, de repente, descubra um prazer muito especial. Ela é tão atraente que a pessoa começa a se apaixonar.

A paixão lhe faz dedicar muito tempo a esta atividade e se esforçar para fazê-lo cada vez com parâmetros de maior exigência e perfeição. Depois vêm as conquistas e o reconhecimento pela atividade realizada; justamente nesse momento começam os problemas.

Acontece que a validação externa pode operar como um fator negativo. O que antes era feito de forma espontânea e apenas para se divertir, agora se tornou uma atividade onde você busca obter uma resposta específica dos outros. Você não desfruta mais do processo, mas do resultado. É quando você começa a ficar obcecado.

Os labirintos da obsessão

Quando você fica obcecado por uma atividade por causa da resposta que obtém dos resultados, a alegria se transforma em preocupação. Você depende dos outros e isso é inquietante e causa estresse. Na verdade, há estudos que demonstram que se desenvolve uma dependência tão intensa que pode até levar a comportamentos antiéticos.

Como o resultado das ações e da resposta de validação dos outros é algo que está fora de controle, as paixões obsessivas são acompanhadas por inquietação e, muitas vezes, por frustração. A dependência da validação alheia não é apenas emocional, mas também foi comprovado que se torna física.

Há evidências de que esse excesso de preocupação com a aprovação alheia inunda o corpo de dopamina e, com isso, configura uma espécie de vício. Isto, é claro, reforça a dependência e coloca tudo em outra lógica. Há esforço e até exaustão e, ao mesmo tempo, resultados incertos. A pessoa chega ao ponto de trapacear, tudo para obter o aplauso dos demais.

Mulher preocupada

A dependência da aprovação externa

Seria uma mentira dizer que uma pessoa pode se desligar completamente da opinião dos outros e chegar a um ponto em que não se interessa de forma alguma pela aprovação alheia. Só alguém extremamente evoluído espiritualmente consegue isso. Os mortais comuns dependem, até certo ponto, da aprovação.

Quem não fica feliz em ganhar um prêmio ou reconhecimento pelo que fez? Mesmo no dia a dia, todos sentem algum grau de satisfação quando postam algo nas redes sociais e conseguem uma “curtida”, ou recebem pedidos de amizade, ou aumentam o número de seguidores.

O segredo para não cair nas garras da obsessão pela aprovação dos outros é perceber isso a tempo. Quando receber aquela “curtida” por algo que você disse sem muitas pretensões, entenda que o importante é ter expressado algo que você pensa. A aprovação é apenas um acréscimo que aconteceu hoje, mas talvez amanhã as suas postagens sejam ignoradas.

É muito gratificante quando é possível desfrutar do que fazemos e ser coerente com o que pensamos, sem medo ou ansiedade quanto ao resultado. Não é fácil se livrar da motivação que a resposta alheia pode supor, mas é preciso trabalhar sempre para não cair nessa armadilha. Deixe a paixão guiá-lo, e não a obsessão.

Piola, M. E. (2004). De la pasión por” uno mismo” a la obsesión por el otro. Comentarios sobre la ética de Emmanuel Lévinas. Utopía y Praxis Latinoamericana, 9(25), 121-128.