Para que serve o medo?

Quem não experimentou medo ao longo de sua vida? Mas, qual é a sua função? O medo realmente nos ajuda?
Para que serve o medo?

Última atualização: 14 julho, 2022

O medo é uma das seis emoções básicas (alegria, tristeza, nojo, raiva, medo, surpresa) que Charles Darwin descreveu em 1872. Tem um gesto bem diferenciado: olhos abertos, boca trêmula e sensação de perplexidade. Agora, para que serve o medo?

Embora todos nós experimentemos essa emoção ao longo de nossas vidas, muitos de nós não temos muita clareza sobre sua função e qual mensagem ela quer nos transmitir. Porque o que seria de nós se o medo não existisse? É possível uma vida livre dessa emoção? Vamos ver isso.

O medo desempenha um papel importante

O medo como tal pode ser definido como uma perturbação angustiada do espírito devido a um risco ou dano real ou imaginário. A palavra deriva do latim metus, que tem um significado semelhante. Existem também alguns termos que estão associados à palavra, como ‘susto, horror, pavor, terror, pânico, fobia’.

Todas as emoções servem a um propósito. Por exemplo: a raiva ajuda a estabelecer limites, a surpresa a reconhecer e a descobrir, a alegria induz ao compartilhamento, o nojo a rejeitar, a tristeza a refletir e o medo nos ajuda a nos proteger contra o perigo.

mulher com cara de medo

Assim, experimentar o medo é uma resposta biologicamente herdada que possibilita o desenvolvimento de uma reação defensiva ao perigo. É um dom genético moldado por séculos de evolução que nos permite, por meio de respostas rápidas e automáticas, nos proteger de situações ameaçadoras e perigos potenciais. Ou seja, visa preservar nossas vidas.

Mas também é uma sensação desagradável intensa causada pela percepção de perigo (real ou imaginário). É comum a todos os animais em situação de ameaça. Nesse sentido, o medo é uma emoção normal e benéfica para a sobrevivência não só de um indivíduo, mas da espécie.

Um medo pode ser considerado normal quando sua intensidade corresponde à dimensão da ameaça. Em outras palavras, o objeto gerador do medo possui características que podem colocar em risco a vida da pessoa.

A relação entre o cérebro e o medo

A expressão máxima do medo é o terror. No território dos medos patológicos, a intensidade do ataque de medo nada tem a ver com o perigo que o objeto pode gerar, como no caso das fobias de animais inofensivos, como um coelho ou um ave.

Além disso, o medo está relacionado à ansiedade quando se trata de antecipar eventos perigosos futuros.

Por outro lado, o medo é uma sensação subjetiva que nos leva a desenvolver certos comportamentos e uma resposta fisiológica complexa. Durante situações de emergência com risco de vida, o sistema nervoso simpático é ativado. Esse mecanismo nervoso é o que dá origem às respostas clássicas de luta, fuga ou congelamento.

Quando um estímulo é percebido pelos sentidos e é percebido como perigoso, o tálamo o avalia rapidamente e o envia para a amígdala. Este, que é o centro de regulação emocional, juntamente com o eixo hipotálamo-hipofisário, é responsável pela reação fisiológica. A glândula adrenal é estimulada causando uma importante descarga de adrenalina e norepinefrina.

Sistemas envolvidos na ativação simpática

O medo ativa o sistema cardiovascular, vasoconstritor. Isso faz com que a pressão arterial aumente e o fluxo sanguíneo para as extremidades diminua. O excesso de sangue é redirecionado para os músculos esqueléticos, onde permanece disponível para órgãos vitais que podem ser necessários durante uma emergência. Isso dá origem a vários efeitos:

  • Palidez: Como resultado de menor fluxo sanguíneo para a pele.
  • Arrepios e piloereção: conservam o calor quando os vasos sanguíneos estão contraídos.
  • Períodos de calor e frio: são experimentados durante o medo extremo.
  • Aumento da frequência cardíaca e respiratória: para fornecer o oxigênio necessário para circular o sangue rapidamente.

O aumento da pressão arterial também visa trazer oxigênio para o cérebro. É necessário estimular processos cognitivos e funções sensoriais que lhe permitam estar mais alerta. Isso acelera os reflexos e o fluxo de pensamento.

Por sua vez, o fígado libera mais glicose na corrente sanguínea para alimentar vários músculos e órgãos-chave, como o cérebro. As pupilas dilatam, possivelmente para permitir uma melhor visão da situação. O ouvido é afiado para detectar o perigo e a atividade digestiva é suspensa, resultando em uma diminuição do fluxo de saliva.

A curto prazo, a evacuação de materiais residuais e a eliminação dos processos digestivos preparam ainda mais o corpo para ação e atividade concentradas. É daí que vem a pressão para urinar e defecar, e até mesmo para vomitar.

Mulher correndo com medo

Luta, fuga ou paralisia

A ação de fuga ou luta é importante, porque há milhares de anos aqueles com respostas fortes tinham mais probabilidade de sobreviver aos perigos do que aqueles com respostas fracas. A espécie humana sofreu com a pressão da competição no meio ambiente, tanto para encontrar alimentos como por sofrer ataques de outros animais.

Fugir é uma forma de evitar o perigo, embora enfrentá-lo faça parte da defesa contra o risco, mas o prelúdio de ambas as reações é a paralisia. Paralisar-se afeta todo o processo cognitivo e neurofisiológico que descrevemos, é o momento de preparação para tomar uma estratégia de ação.

O silêncio paralisante, como comportamento anterior à ação, nos faz aguçar a visão e a audição. São aqueles momentos em que você sente o próprio batimento cardíaco que acelera, sua respiração se aguça e seus músculos ficam tensos, há um movimento intestinal, congelamento de movimentos, foco de atenção, fantasias catastróficas, tremores e sudorese.

Quando o medo é um problema?

O medo é um problema quando está presente permanentemente ou aparece quando não deveria, ou seja, é disfuncional. No caso das fobias, por exemplo, sente-se um medo irracional, ou seja, que não responde a uma ameaça real.

Outra das formas disfuncionais que essa emoção assume são os transtornos de ansiedade e pânico. A ativação permanente do medo produz efeitos negativos no corpo e é necessário tratá-los, pois não estamos preparados para suportar o medo todos os dias.

Utilidade social do medo

Uma das funções do medo é motivar a ação imediata para salvar a vida. Sinais de medo, como expressões faciais ou vocalizações, também têm uma função comunicativa: alertar o restante do grupo. Dessa forma, as chances de sobrevivência dos grupos também são aumentadas.

Portanto, não é necessário negar o medo, pois é uma emoção valiosa e, como tal, essencial para a sobrevivência. Tanto que é o que nos permitiu, desde os primeiros hominídeos, nos adaptarmos à vida, nos defendermos dos riscos e nos ajudar a sobreviver em situações extremas.

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