O paradigma de transferência de excitação

janeiro 25, 2019

Você já ouviu falar de transferência de excitação? Estamos em uma partida de futebol, aos 44 minutos do segundo tempo. Falta um minuto para o final. O Corinthians está ganhando de um a zero do Palmeiras. Um jogador da equipe da gaviões tenta bloquear a entrada de um jogador palmeirense dentro da área e ele cai.

O árbitro apita o pênalti e os jogadores corintianos começam a discutir com o árbitro. Alguns parecem estar com muita raiva. Um jogador do porco empurra outro do Corinthians e ele revida. O juiz se vê na obrigação de levantar dois cartões vermelhos e vários amarelos. O que está acontecendo? Todos eles estão sendo vítimas do paradigma de transferência de excitação.

É muito comum estarmos diante de situações nas quais alguém reage de forma um pouco ou bastante desproporcional diante de um estímulo que, a princípio, não teria um grande significado intrínseco. Muitas vezes já recebemos respostas muito desagradáveis por parte de algum familiar ou alguém conhecido sem ter feito nada para merecê-las.

Em vários desses momentos, no entanto, não há a intenção ou a pretensão do comentário ou comportamento fazer mal ao outro. Além disso, podemos observar que esse tipo de acontecimento tem mais chance de acontecer no final do dia. O que está acontecendo? Por que está acontecendo? Continue lendo e descubra.

O que está acontecendo?

Dolf Zillmann desenvolveu o paradigma de transferência de excitação a partir da teoria do arousal, que foi criada por Stanley Schachter. Segundo esse autor, o arousal equivale a uma ativação fisiológica. Apesar de ser uma teoria muito mais complexa e extensa do que isso, essa breve descrição basta para entender o paradigma de Zillmann que queremos explicar.

Segundo Zillmann, a ativação fisiológica não acaba de forma súbita no momento em que as condições que a originaram não estão mais presentes. Na verdade, ela demora muito mais para desaparecer devido ao fato de os processos hormonais que estão por trás delas serem lentos.

Ou seja, se uma pessoa foi ativada em um contexto determinado, e logo a seguir se encontra em outro contexto e esse também provoca uma emoção, essa segunda ativação é somada àquela que havia sido gerada no primeiro contexto. Essa situação é o que se conhece como arousal residual, ou seja, o grau de ativação que levamos de uma contexto para o outro.

Pessoa com raiva batendo na mesa

Atribuição errônea

Quando levamos o arousal de um contexto A para um contexto B, costumamos atribuí-lo erroneamente e unicamente para o contexto B.

Se nossa jornada de trabalho está sendo muito pesada, e na última hora o nosso superior nos dá mais uma tarefa mesmo sabendo que não temos tempo de acabá-la, nossa reação poderia ser de muita raiva e poderíamos explodir diante dele – ainda que não façamos isso na maioria das vezes. Estaremos atribuindo toda a nossa frustração à última tarefa que nosso chefe acabou de nos passar.

“Não tenha nenhuma atitude com a fúria da paixão; seria o equivalente a entrar no mar em plena tempestade”.
-Thomas Fuller-

Se a tarefa do chefe tivesse sido repassada para nós logo na primeira hora da manhã, com certeza a teríamos realizado sem nenhum problema, já que ainda não teríamos acumulado nenhum tipo de reação fisiológica. Ou talvez até tivéssemos, dependendo de como tivesse sido o dia até o momento que chegamos para trabalhar.

Desse modo, o paradigma de transferência de excitação pode se cumprir ou não, dependendo de como estivemos naquele dia ou naquele período de tempo.

Por isso, antes de responder a alguém com raiva ou fúria, é melhor deixar alguns minutos passarem e tentar relaxar na medida do possível. Isso porque em muitas ocasiões, dizendo de um modo popular, podemos estar “esquentadinhos” e qualquer coisa pode ser a faísca final para gerar o fogo. “Nem vem que hoje eu estou péssimo”; quando alguém nos diz isso, é melhor não ir mesmo.

Experimento de Zillmann sobre o paradigma de transferência de excitação

Em 1971, Zillmann realizou um experimento sobre o efeito de ver filmes com diferentes conteúdos emocionais no comportamento agressivo. O experimento foi realizado em três etapas diferentes:

  • No início da sessão, um cúmplice da pesquisa despertava a raiva no participante.
  • Logo a seguir, um filme de conteúdo violento, erótico ou neutro era projetado para o participante.
  • A última etapa consistia em dar ao paciente a oportunidade de administrar descargas elétricas de intensidade variável no cúmplice.

Zillmann esperava que aqueles que tivessem assistido a filmes eróticos e agressivos dessem descargas elétricas de maior intensidade no “inimigo” do que aqueles que viram os filmes neutros. O resultado mostrou que os participantes que viram o filme com o conteúdo violento realmente administraram descargas mais intensas do que depois de ver o filme de conteúdo neutro. E aqueles que viram o filme erótico administraram descargas de maior intensidade em comparação ao filme agressivo.

Partindo da teoria de Zillmann, em 1993 a equipe de pesquisa de Scott C. Bunce realizou um experimento sobre a transferência de excitação. Entre os principais resultados estava o fato de que os extrovertidos reagiram de forma pior diante de estímulos desagradáveis.

A razão, segundo os autores, está no fato de que aqueles que possuem maiores pontuações nesse traço de personalidade parecem gozar de menos experiências negativas no seu ambiente, motivo pelo qual devem realizar um esforço maior durante o processamento de informações de experiências desagradáveis.

Casal brigando

Conclusões finais

As pesquisas que foram realizadas até hoje sobre o paradigma da transferência de excitação mostram que as mudanças de ativação não são atribuídas corretamente aos acontecimentos reais que as desencadeiam. Os sujeitos parecem entender que sua ativação está sendo provocada pela situação que está ocorrendo naquele momento presente, e não por uma somatória de situações anteriores que foram aumentando a ativação gradualmente.

“Se você estiver com raiva, pense nas consequências”.
-Confúcio-

Os resultados também sugerem que reações e ações não se apoiam nas relações diretas entre o arousal percebido e seu antecedente causal. Esse efeito coloca em evidência a relevância do arousal fisiológico na modulação da intensidade afetiva, e confirma a ideia de que este é indiferenciado, ou seja, não específico.