Por que meu parceiro não compartilha as suas preocupações?

“Não é nada. Me deixe em paz”. Quando nosso parceiro ou parceira reage dessa forma e nos mantém de fora do que está acontecendo com ele ou ela, uma lacuna se abre no relacionamento. O que podemos fazer?
Por que meu parceiro não compartilha as suas preocupações?

Última atualização: 04 Julho, 2021

“Meu parceiro(a) não compartilha as suas preocupações, guarda tudo para si e não me explica nada.” Muitas pessoas se queixam disso em um relacionamento afetivo. É um fenômeno bastante comum que muitas vezes causa discussões, cria arestas, gera desconfortos e até estabelece distâncias. A comunicação é aquele assunto pendente que nem todo mundo consegue (ou quer) resolver.

Há quem chame essas figuras relacionais de “pessoas com crostas”. São personalidades que constroem uma camada impenetrável ao seu redor, impedindo que qualquer pessoa ou coisa a penetre. Frequentemente, são somadas reações defensivas a essa crosta de isolamento. Diante de qualquer tentativa de aproximação por meio de frases como “O que você está pensando?” ou “O que te preocupa?”, a única coisa que se obtém é a raiva e o mal-estar do outro.

À medida que acumulamos experiências desse tipo, o vínculo sofre atritos e se torna doloroso. Isso porque, quando a comunicação falha, a confiança se desfaz em pedaços e, sem esse pilar, o relacionamento perde intimidade e significado. Estamos diante de um problema de grande relevância sobre o qual vale a pena saber mais.

Casal discutindo

Meu parceiro não compartilha as suas preocupações: por quê?

“Não é nada. Me deixe em paz”. Essa é certamente a reação mais comum quando tentamos nos aproximar do(a) nosso(a) parceiro(a) nos momentos em que, seja qual for o motivo, achamos que ele(a) está mais preocupado(a) do que de costume. Esse tipo de resposta e comportamento é vivido com confusão e, acima de tudo, com sofrimento.

Se há algo que todos sabemos é que um dos pontos-chave para um relacionamento feliz é uma boa comunicação. No entanto, quando nos apaixonamos por alguém, é muito difícil obter o “pacote completo”. Isto é, não é exatamente fácil que a pessoa amada sempre conte com boas habilidades em termos de inteligência emocional, empatia, compreensão e comunicação.

Porém… qual é o motivo disso? Por que as pessoas relutam em compartilhar suas preocupações e realidades emocionais com o(a) parceiro(a)? Vamos analisar esse assunto com mais detalhes.

Personalidades que vivem na defensiva

Uma das teorias mais respeitadas de John Gottman é a dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Durante mais de quatro décadas de trabalho, ele e sua equipe estudaram mais de 3000 casais. A partir desse trabalho, concluíram que um dos maiores problemas em um relacionamento é a comunicação defensiva.

Cortar as vias de comunicação, fechar-se em um casulo ou até reagir com desprezo em relação à preocupação do outro é um empecilho para a adaptação social da pessoa.  Mas por que muita gente age dessa maneira? Por trás da autodefesa está a insegurança, pois é uma questão de dar como certo que a outra pessoa não é capaz de compreender a sua realidade.

Em muitos casos, também podem ficar evidentes muita frustração acumulada e realidades internas não resolvidas.

O medo da vulnerabilidade: demonstrar emoções faz com que eu me sinta fraco(a)

Por que meu(minha) parceiro(a) não compartilha as suas preocupações? Pode ser que a pessoa tenha medo de se mostrar vulnerável. Hoje em dia, no pensamento social, a relação entre vulnerabilidade e fragilidade ainda está presente. Nossos parceiros podem sentir que o diálogo sobre suas preocupações os desnuda e os deixa indefesos contra um possível ataque, imediato ou futuro.

Uma educação pobre em questões emocionais e de comunicação

Em boa parte dos casos, os problemas de comunicação têm suas raízes na infância. O tecido familiar é o que nos nutre nessas competências da vida, como o gerenciamento das emoções, a confiança, a empatia e as habilidades de conversação.

Dessa forma, se uma pessoa cresce em um ambiente no qual as necessidades emocionais são negligenciadas ou nenhum tipo de apego é construído entre os pais e a criança, é comum que muitas lacunas sejam arrastadas até a idade adulta. Na idade adulta, é mais difícil compartilhar pensamentos e necessidades com os outros, quando durante a infância ninguém nos permitiu fazer isso.

Falta de confiança: a sensação de que o outro não vai entender

Outro fator que faz com que meu(minha) parceiro(a) não me conte sobre suas preocupações pode ser devido a outra realidade que é, no mínimo, problemática. Pode ser que a outra pessoa pense que eu não vou entender sua realidade interna. É possível que ela presuma que eu não serei capaz de entrar em sintonia com o que acontecer com ela…

Por outro lado, não podemos ignorar outro fato, que é a falta de confiança entre ambos.

Casal em crise

Como ajudar o(a) parceiro(a) a se abrir mais?

Se um clima defensivo é predominante em um relacionamento, a falta de confiança e as dificuldades de comunicação costumam abrir brechas intransponíveis nesse vínculo. É prioritário ter em mente que comunicar não é apenas manter conversas cotidianas. Uma relação não se sustenta com diálogos banais, falando sobre o tempo, as séries que assistimos e outros aspectos superficiais.

Comunicar também é mergulhar nas emoções, preocupações e necessidades. É se abrir ao outro de forma autêntica para ajudar, compreender e compartilhar. Isso é mais do que um pilar, é um tendão psicológico indiscutível. Então, o que fazer se isso não acontecer?

Meu parceiro não compartilha as suas preocupações, o que posso fazer?

Na Universidade da Flórida, o doutor Victor Harris conduziu um estudo para reunir essas estratégias que permitem  melhorar a comunicação do casal. É verdade que podemos supor que “o problema é do outro”, mas é importante lembrar que, em caso de qualquer desavença, devemos trabalhar juntos.

Vamos ver quais estratégias podemos adotar.

  • Evite pressionar.  Devemos deixar claro para o(a) parceiro(a) que estamos ao seu lado quando ele ou ela precisar, em qualquer momento e quando quiser. Queremos ajudar, compreender e acompanhar. Amar é compartilhar, não julgar ou criticar.
  • É bom lembrar ao outro que comunicar preocupações não é demonstrar nenhum tipo de fraqueza. Compartilhar pensamentos com a pessoa amada é um valor psicológico que enriquece e fortalece o vínculo. O hermetismo enfraquece e pode até chegar a romper esse vínculo.
  • Devemos buscar um momento em que a outra pessoa esteja mais relaxada e receptiva.  Nesses instantes, é bom iniciar uma conversa, mas sempre evitando perguntas diretas.
    • Este é um exemplo que poderíamos seguir: “Percebi que você parece mais preocupado(a) ultimamente.  Acho que tem algo incomodando você. Saiba que você pode me contar quando quiser. Eu te amo e estou ao seu lado para o que você quiser”.

Para concluir, é verdade que essas situações são complicadas e, em certos casos, até resultam infrutíferas. Contudo, devemos ter consciência de que a comunicação no relacionamento é a engrenagem que faz tudo funcionar. Vamos tentar melhorar essa competência de vida e de bem-estar.  

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  • Rosenberg, M. B. (2003). Nonviolent Communication – A Language of Life. Encinitas US: PuddleDancer.
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