Pátria, a série: você pode viver uma vida inteira com rancor?

23 Novembro, 2020
'Pátria' ocupou a posição de livro mais vendido na Espanha por mais de um ano. Nas suas páginas, encontramos um relato sincero da dor que o grupo terrorista ETA causou a todas as camadas da sociedade. Hoje, podemos desfrutar da história em formato de série televisiva.

Pátria é uma adaptação para as telas de TV do romance homônimo de Fernando Aramburu. A adaptação está a cargo do roteirista e produtor executivo Aitor Gabilondo. Após a exibição da série de oito episódios no festival de cinema de San Sebastián, agora podemos vê-la na HBO.

A série narra o drama de duas famílias em um contexto muito marcado pelo terrorismo do ETA. Uma quadrilha terrorista, na verdade uma máfia, que assassinou 853 pessoas com a intenção de pressionar o governo e impor sua vontade por independência.

No entanto, o que é valioso em Pátria é que série se afasta da análise política para dar lugar à reflexão humana através da expressão artística. Não se destina a exonerar, comparar ou relativizar o papel de ambos os lados da história. Simplesmente transmite os sentimentos daqueles que apoiaram os terroristas e daqueles que foram perseguidos, ameaçados e mortos por eles.

Patria, a série: não é o que conta, mas como conta

Durante 40 anos, o grupo terrorista ETA, através da violência, tentou ser e tomar o poder como interlocutor dos sentimentos do País Basco. Em muitos casos, a sociedade civil foi vítima dos seus ataques, chantagens e ameaças.

Diante dessa postura, o Estado nem sempre resistiu às pressões. Houve grupos, como os chamados (GAL), patrocinados pelo Estado, que também mataram e torturaram militantes do ETA ou suspeitos de o serem. Uma forma de tentar acabar com eles que, em muitos ambientes, apenas justificou ou fez algumas pessoas se tornarem adeptas da quadrilha terrorista.

Depois de declarar um cessar-fogo permanente em 2011, o ETA começou a entregar armas em 2017, antes de se dissolver completamente em maio de 2018.

Duas mulheres, duas ideologias

Pátria conta a história, ao longo de três décadas, de duas famílias bascas destruídas pelo conflito armado. O anúncio, em 2011, da extinção da ETA, levou a viúva Bittori (Lena Irureta) a voltar para sua cidade natal de San Sebastián, de onde foi forçada a fugir em consequência do assassinato do seu marido, Txato (José Ramón Soroiz ), um empresário basco de transporte.

Com seu retorno, muitas feridas se abrem. Lá eles encontram Miren (Ane Gabarain) e seu marido Joxian (Mikel Laskurain). Famílias amigas ​​até o ETA atingir uma delas. O que a Miren deseja são respostas, longe de qualquer vingança ideológica. Ela só quer saber se Joxe Mari (Jon Olivares), filho do seu ex-amigo, foi o assassino do seu marido. Ela sabe que ele está na prisão, mas não sabe qual foi seu verdadeiro papel no crime.

Uma história de passado e presente que não encontra lógica para viver

À medida que Pátria avança, fala sobre a amizade entre as duas famílias, e entendemos que há acontecimentos que marcam um antes e um depois. A necessidade urgente de se posicionar devido a mandatos familiares, geográficos ou políticos dinamiza os laços emocionais mais fortes.

Voltando em inúmeras ocasiões à morte de Txato e reproduzindo a sequência de diferentes perspectivas, a série detalha com precisão os efeitos da extorsão e a influência do ETA nas relações sociais, e o medo, e não o respeito, que foi capaz de gerar.

Pátria é honesta com a dor que as famílias dos assassinos podem ter sofrido, mas também não se esquiva do desafio de contar quem eles foram e como se tornaram assassinos.

Mulheres protestando

Pátria, a série: quando o rancor prevalece, nada progride

A série nos mostra como todas as famílias estão emocionalmente devastadas. O fato de o ETA ter baixado as armas não fez com que muitos deixassem de pensar que o assassinato era a única forma de tentar submeter as disposições do Estado legítimo. Por outro lado, como já dissemos, a série tenta, acima de tudo, dar uma visão da tragédia como um todo.

Sem exonerar os assassinos, ela explica a transição de um jovem Abertzale, que considera ingressar no grupo como uma espécie de aventura com seu amigo, para depois entrar em um inferno pessoal progressivo. A história às vezes é tão equidistante que parece – e para muitos é – generosa demais com quem matava outra pessoa com um tiro no pescoço, crianças, ou realizava um execução depois de dias de sequestro.

Gabilondo leva o espectador a uma pequena comunidade e mostra como é viver sob ameaça, e como uma amizade duradoura entre famílias pode se transformar em ódio. A ideologia política envolveu ambos os partidos e parece desumanizar as relações.

Em Pátria, não há lugar para a superficialidade de ideias e emoções

Especialmente comovente é o papel de Miren, uma mãe que, por mais compreensiva que seja com seu filho, parece apenas espalhar rancor. Como antítese, temos sua filha Arantxa (Loreto Mauleon) que, com uma visão corajosa, mostra que o que é verdadeiramente revolucionário e transgressor é a humanidade para com os outros, e seguir despertando bons sentimentos, mesmo quando a vida bate em você incessantemente. Arantxa é a brecha pela qual a esperança se infiltra em Pátria.

Uma série que é menos sobre o que acreditamos e mais sobre o que somos, pedaços de histórias determinadas por um contexto que às vezes pode trazer à tona o que há de pior em nós. Isso também nos faz pensar: quantos foram capazes de abraçar ou apoiar o terrorismo? Como uma ideologia pode nos cegar tanto a ponto de matar, ameaçar, sequestrar ou tentar subjugar o outro? Por que até hoje não sabemos a identidade dos assassinos que ainda não foram identificados, e não ouvimos pelo menos um “sinto muito” por parte dos algozes?