A personalidade complacente: tentar agradar por medo

A personalidade complacente orienta seus comportamentos com um único objetivo: obter a aprovação dos outros. O resto dos interesses são relegados a um segundo plano, incluindo os seus próprios.
A personalidade complacente: tentar agradar por medo

Última atualização: 02 Julho, 2021

A personalidade complacente não é uma categoria clínica, mas muitas vezes constitui uma expressão de dificuldades no âmbito psicológico. É comum que esse tipo de pessoa seja muito agradável e bem recebido nos ambientes em que se movimenta, mas ao mesmo tempo está pagando um preço alto por isso, mesmo que não perceba.

O que define a personalidade complacente é um condicionamento excessivo: o olhar para fora predomina na hora de perceber e tomar decisões. Essas pessoas condicionam o que pensam, querem ou sentem à satisfação de uma necessidade: ganhar a simpatia dos outros.

Na personalidade complacente, o sentimento de responsabilidade prevalece sobre o bem-estar dos outros, ou seja, a ideia de que devem buscar o bem dos outros, caso contrário, sentem culpa ou medo. A questão é que essas pessoas são capazes de passar por cima de si mesmas e de suas próprias necessidades para atingir esse objetivo. E esse é o problema.

“Nesse sentido, podemos ser condescendentes em relação a um medo, mas também sob a lógica de agradar aos outros. Podemos estar reagindo por medo ou porque atribuímos ao outro o sentimento de que somos valorizados e amados”.

-Felipe Matamala-

Homem consolando mulher triste

A personalidade complacente

Uma personalidade complacente é formada durante a infância e em um contexto em que predomina o conflito familiar. A origem geralmente está em um pai narcisista ou em uma mãe controladora (também narcisista) que formularam, quase sempre inconscientemente, uma ordem para que o filho “desaparecesse”.

Esses pais transmitiram a ideia de que eles sempre tinham razão e geralmente silenciavam as opiniões dos filhos. Normalmente, eles também eram extremamente instáveis, com explosões repentinas e inexplicáveis ​​de raiva. Pode ser que fossem violentos durante esses episódios. Seus filhos nunca sabiam o que esperar deles.

Também é possível que na gênese da personalidade complacente, além do que já foi descrito, houvesse situações como as seguintes:

  • Pais viciados. Geram situações imprevisíveis que causam medo e sensação de ameaça nos filhos.
  • Regras excessivamente rígidas e punições desproporcionais para transgressões.
  • Relação muito conflituosa e talvez violenta entre os pais.
  • Pai ou mãe com personalidade histriônica. Ou seja, com explosões de dramatismo e uma espécie de show de dor física ou emocional.
  • Pai ou mãe deprimidos ou ansiosos.

Em todos esses casos, talvez o filho tenha aprendido a se oferecer como mediador ou como fator moderador da situação. Também pode ter aprendido a temer e ter dificuldade em expressar a própria voz.

As características da personalidade complacente

O que está no cerne da personalidade complacente é o medo do conflito, da rejeição e do abandono. E as ações são condicionadas por esse medo. A pessoa não age em função de reafirmar a si mesmo, mas de evitar que seu comportamento provoque as reações que ela teme. É por isso que ela busca o bem-estar dos outros, independentemente do custo pessoal que lhe acarrete.

As principais características da personalidade complacente são as seguintes:

  • Evasão do conflito. Essas pessoas são capazes de ceder, mesmo em aspectos muito relevantes, a fim de evitar que os outros se incomodem ou que uma situação se torne explosiva.
  • Foco nas necessidades dos outros. Elas não questionam nem olham criticamente para as necessidades dos outros, mas correm para satisfazê-las.
  • Tendência a se culpar. Reafirmar-se em algum momento ou reivindicar algo para si causa um forte sentimento de culpa.
  • Dúvida contínua. Em geral, não sabem como lidar com situações problemáticas. Elas duvidam de seus sentimentos e de sua capacidade de enfrentar as dificuldades.
  • Costumam ser perfeccionistas. Essas pessoas tentam fazer tudo muito bem. No fundo, só querem evitar a possibilidade de serem repreendidas por algum engano ou descuido.
  • Baixa autoestima. Elas só se sentem confortadas quando recebem a aprovação dos outros.
  • Hipersensibilidade. A percepção da rejeição ou do desprezo dos outros gera muita mágoa.

Jovem triste no escuro

Diretrizes para a mudança

É comum alguém com personalidade complacente não ter consciência de que está com um problema. Parece “normal” se mover discretamente pelo mundo tentando não incomodar ninguém. Na verdade, essas pessoas podem ver isso como uma virtude, já que muitos, é claro, aprovarão e elogiarão sua maneira de ser pacífica e submissa.

O ponto mais difícil para elas é entender onde está a fronteira entre ser extremamente agradável e empática, e renunciar a si mesmas para agradar e não irritar os outros. Para encontrar esse limite, elas devem redirecionar o relacionamento que têm consigo mesmas.

Eles precisam aprender a praticar uma forma de “egoísmo saudável”. Às vezes, não vão conseguir fazer isso por conta própria, então precisarão de ajuda profissional para atingir esse objetivo. De qualquer modo, tudo começa quando elas descobrem que têm direito a um lugar no mundo só para elas e que, pelo mesmo motivo, merecem se dar a oportunidade de ser.

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  • Bernal, F. T., & Navarrete, F. F. (2015). Protocolo diagnóstico de los trastornos de personalidad. Medicine-Programa de Formación Médica Continuada Acreditado, 11(84), 5041-5048.