O sentimento de culpa e a sua relação com a ansiedade

02 Outubro, 2020
O desgaste emocional gerado pela ansiedade é imenso. Um dos seus efeitos é o sentimento constante de culpa, que aponta que tudo o que acontece é da sua responsabilidade, que o seu sofrimento também é um peso para os outros... O que devemos fazer nestas circunstâncias?

O sentimento de culpa é uma realidade bastante comum nos processos de ansiedade. É um estado em que a mente tira conclusões bastante prejudiciais e até mesmo erradas a respeito de si mesma. A pessoa carrega nos ombros fatos pelos quais não têm responsabilidade, ou as situações são distorcidas até gerar “pesos de consciência” que aumentam ainda mais o sofrimento.

“Eu errei e agora estou piorando a situação”, “Tenho certeza de que magoei essa pessoa com meu comportamento”, “Estou decepcionando minha família, decepcionando meu parceiro, meus filhos”, “Minha mãe está doente por minha culpa…” Poderíamos dar mais exemplos. No entanto, a maioria das frases sempre segue essa mesma linha e, na realidade, a pessoa não é culpada de nada.

Ela é vítima dessa visão de túnel em que a ansiedade tem absolutamente todo o controle. Desse modo, algo bastante comum é que vejam o próprio transtorno de ansiedade ou os ataques de pânico como se houvesse algo de errado com elas, uma anomalia que as sufoca e que está completamente fora do seu controle. Como posso me causar tanto sofrimento? O que há de errado comigo?

Sentimento de culpa, de estar decepcionando ou magoando as pessoas próximas… Esse tipo de pensamento acaba alimentando ainda mais o círculo vicioso da própria ansiedade. Se também adicionarmos fatores como a autoexigência ou o pensamento obsessivo, teremos como resultado uma bomba-relógio para a saúde mental.

Vamos entender um pouco mais sobre essas situações.

Homem arrependido

Sentimento de culpa: um efeito da própria ansiedade

Existe um sentimento de culpa lógico e um sentimento de culpa irracional. O primeiro está ligado a fatos concretos em que é justificável experimentar sofrimentos e pesos de consciência; tudo isso por ter causado sofrimento a outras pessoas ou por ser responsável por atos com graves consequências. O segundo, a culpa irracional, é o efeito da ansiedade e até de outros tipos de transtornos psicológicos.

No caso dessa emoção e da sua ligação com a ansiedade, é comum que esteja associada àqueles processos em que a pessoa se pune por determinadas coisas, por senti-las e até mesmo por pensar nelas.

O simples fato de estar ciente do viés mental negativo, de uma mente que está presa ao medo ou à incerteza, faz emergir a sombra da culpa. Perceber que não conseguem controlar isso e que o seu comportamento causa preocupação para os outros intensifica ainda mais esse sentimento desconfortável e destrutivo.

Sentimento de culpa e vergonha na ansiedade

Estes dados são interessantes. De acordo com uma pesquisa publicada na revista PLOS ONE e realizada na Universidade de Karolinska, na Suécia, muitas vezes os transtornos de ansiedade estão relacionados a sentimentos de culpa e também de vergonha. É claro que são duas realidades distintas, mas ambas se expressam nessas situações sob um gatilho comum: a incapacidade de se controlar e o desconforto que isso gera.

A culpa implica sentir-se mal por algo que foi feito, dito ou experimentado. A vergonha, por outro lado, é mais prejudicial em pessoas com ansiedade ou com outro tipo de transtorno: é se sentir mal por quem se é como pessoa. É se subestimar e, por sua vez, se culpar por todas as circunstâncias.

A janela da mente

Como controlar essas emoções associadas à ansiedade?

O mecanismo para acalmar, desemaranhar e apaziguar o sentimento de culpa, ou mesmo o de vergonha, obviamente percorre um único caminho: focar no gatilho que os intensifica e os molda, ou seja, na própria ansiedade.

Nessas situações, a terapia cognitivo-comportamental ou mesmo a terapia de aceitação e compromisso são úteis e eficazes na maioria dos casos.

No entanto, saber como lidar com emoções tão complexas quanto a culpa sempre é importante. Portanto, vamos nos aprofundar em alguns aspectos que poderão nos ajudar:

  • A culpa é um mecanismo por meio do qual fazemos um julgamento moral a respeito do nosso comportamento, sentimentos ou pensamentos. Presumimos que há algo errado conosco. Nesse caso, devemos entender um detalhe: a ansiedade não é um defeito ou algo que deva nos diminuir como pessoas. É uma condição psicológica que podemos e devemos administrar, comprometendo-nos com nós mesmos.
  • Deixe de agir como um juiz. Se nos punirmos com esse sentimento constante de culpa, a ansiedade aumentará ainda mais. É hora de nos tratarmos com gentileza. Portanto, aspectos como o reforço da autoestima, ganho de autoconfiança e assertividade podem nos ajudar.
  • A culpa se alimenta da preocupação. Quanto mais alimentamos as nossas preocupações e esses pensamentos obsessivos e muitas vezes irracionais, mais o sentimento de culpa cresce. Precisamos diminuir o volume da preocupação, concentrando a nossa mente em outras tarefas, em atividades gratificantes.

Para concluir, como dizia Oscar Wilde, um dos piores pesadelos da vida é sofrer pelas próprias culpas. Libertemo-nos desse fardo que, em muitos casos, alimenta processos ansiosos.

  • Hiedman Eric (2013) Shame and Guilt in Social Anxiety Disorder: Effects of Cognitive Behavior Therapy and Association with Social Anxiety and Depressive Symptoms. PLoS One. 2013; 8(4): e61713. 2013 Apr 19. doi: 10.1371/journal.pone.0061713