Personalidade ecoísta: definição e características

julho 26, 2019
Quem tem uma personalidade ecoísta não quer que os outros lhes façam se sentir especiais, já que se sentem incomodados e, inclusive, aborrecidos.

Nas palavras de Craig Malkin, podemos definir a personalidade ecoísta da seguinte maneira: Quanto menos as pessoas se sentem especiais, mais modestas se tornam até que, por fim, têm tão pouco sentido de si mesmas que se sentem inúteis e impotentes. Eu chamo essas pessoas de ecoístas” (Malkin 2015: 11).

Em outras palavras, ter uma personalidade ecoísta não significa ser modesto, mas sim ter medo de projetar uma imagem egocêntrica, narcisista e egoísta que provoque rejeição e críticas.

Como resultado, essas personalidades tentam silenciar completamente seu “eu” e suas necessidades. Ou seja, não querem que os outros façam com que se sintam especiais. De fato, quando isso acontece, podem se sentir muito incomodadas e, inclusive, ficar com raiva.

“Eco era uma ninfa que vivia na floresta. Ela tinha uma bela e doce voz e adorava conversar. Em sua eloquência, Eco sempre queria ter a última palavra.

Um dia, a deusa Hera castigou Eco por tê-la enganado e, furiosa, lhe disse:

        – A partir desse momento, você não poderá falar o que quiser e, como você gosta de ter a última palavra, só vai repetir a última palavra que escutar…

Um dia, caminhando pela floresta, Eco conheceu Narciso, um pastor jovem e bonito, pelo qual todas as ninfas estavam apaixonadas, mas ele as rejeitava.

Eco ficou profundamente apaixonada por ele e decidiu segui-lo pela floresta. De repente, Narciso escutou um barulho entre os galhos e perguntou:

        – Tem alguém aí?

        – Aí – disse Eco.

        – Apareça – gritou Narciso.

        – Apareça – repetiu Eco.

E, quando se encontraram, Eco abraçou Narciso. Ele a rejeitou assim como estava acostumado.

A deusa Nêmesis castigou Narciso e, enquanto ele bebia de uma nascente cristalina, pôde ver sua própria imagem. Ele pensou que seu reflexo fosse um ser real e ficou profundamente apaixonado por si mesmo.

A partir de então, nada mais lhe importava, e permaneceu ali por medo de perder sua imagem. Pouco a pouco, Narciso foi se transformando em uma bela flor.

Eco se refugiou nas cavernas e nos topos das montanhas, onde seu corpo físico desapareceu devido à inanição, restando somente sua voz, que repete sempre a última palavra dita por qualquer pessoa”.

Mulher com luzes flutuantes

A psicologia se inspirou em um mito para dar nome à personalidade narcisista, mas todos se esqueceram da ninfa Eco. Pelo menos até agora.

O psicólogo norte-americano Craig Malkin ficou fascinado com o papel de Eco, já que representava a antítese do narcisismo, e encontrou similaridades com as características que algumas pessoas apresentam.

Assim, decidiu se dedicar a pesquisar o que chamou de personalidade ecoísta.

“Temos que proceder de tal maneira que não nos envergonhemos de nós mesmos”.
-Baltasar Gracián-

Características da personalidade ecoísta

1. Medo de se sentir especial 

A personalidade ecoísta teme ser vista como vaidosa ou ser o centro das atenções, e nunca quer monopolizar o olhar dos outros, mesmo que seja por boas razões.

O traço característico dos ecoístas é o medo de projetar uma imagem narcisista, de parecerem muito cheios de si mesmos. Como resultado, costumam se sentir incomodados quando recebem atenção, sobretudo se for uma atenção positiva. Por isso, estas pessoas preferem passar despercebidas.

2. Repressão das necessidades 

As pessoas ecoístas nunca expressam seus desejos em suas relações pessoais. Como aponta Craig Malkin: “elas têm medo de se transformar em um peso, e não é exagerado dizer que odeiam sentir necessidades”. Dessa forma, as escondem.

Acreditam firmemente que, para ganhar o amor dos outros, têm que exigir o menos possível e dar o máximo possível. Isso as leva a se descuidar de suas necessidades, entregando-se em excesso aos outros, o que costuma gerar insatisfação e infelicidade, já que suas necessidades emocionais continuam existindo, mas não são satisfeitas.

3. Extrema sensibilidade emocional 

O ecoísmo está muito relacionado com a sensibilidade emocional. É comum que essas pessoas demonstrem, desde que nascem, uma extrema sensibilidade. Por serem tão sensíveis, elas se sentem muito envergonhadas quando são castigadas ou repreendidas.

De fato, há a hipótese de que o ecoísmo seja um tipo de introversão defensiva. Essas pessoas pensam: “se eu passar despercebida, ninguém poderá me humilhar, me envergonhar ou me fazer mal”.

“Se a alma está preocupada em sentir vergonha e superá-la, não consegue sentir prazer”.
-Stendhal-

Personalidade ecoísta

4. Baixa autoestima 

A personalidade ecoísta está relacionada com uma baixa autoestima. Sentir-se pouco especial ou pensar que não se é digno de ser levado em consideração envolve uma imagem negativa de si mesmo.

Essa falta de confiança em suas capacidades se transforma em uma profecia autorrealizável. Por isso, essas pessoas raramente vão se animar a empreender projetos ou perseguir seus sonhos. Elas possuem tão pouco amor por si mesmas que a vida acaba por devorá-las.

5. Dificuldade para saber o que querem 

As pessoas com personalidade ecoísta dedicam tantos esforços a satisfazer as necessidades dos outros e esconder seus próprios desejos que podem perder a conexão com seu “eu”, de maneira que se alguém lhes pergunta o que desejam, podem se sentir perdidas.

Essa impossibilidade de se conectar com suas necessidades faz com que sejam mais propensas a desenvolver uma dependência emocional em relação aos outros, o que é exatamente o que pretendem evitar.

6. São um ímã para os narcisistas

Segundo afirma Malkin em um artigo para a Psychology Today, estes padrões de comportamento levam a uma constante habitual na vida dos ecoístas: costumam se apaixonar por narcisistas.

Isso se deve ao fato de que os ecoístas têm tanto medo de ser o centro da atenções queter alguém de quem gostam ocupando todo o ambiente é um alívio”.

O problema, diz o psicólogo, é que “quando os narcisistas se tornam abusivos, os ecoístas se culpam pelos maus-tratos” com frases como “espero demais”, “estou sendo muito sensível” ou “não deveria ter voltado”.

  • Malkin, C. (2015). Repensando el narcisismo: el mal-y sorprendente bien-sobre el sentimiento especial . Harper Collins Editores.