Aquele que planta a verdade nem sempre colhe confiança

· junho 22, 2016

Quem costuma espalhar a verdade, por mais assombrosa que seja, nem sempre recebe confiança em retorno. Quando falamos de sinceridade estamos sem dúvida diante de uma faca de dois gumes, porque muitos se sentem incomodados e inclusive ameaçados diante de verdades. Isso se dá porque em alguns casos é muito mais cômodo viver na mentira. A verdade é, no fim, um espelho que nem todos estão prontos ou querem olhar para ver seu real reflexo.

O tema não deixa de ser curioso, porque quase todos nós reagimos diante da mentira vendo-a como um tipo de agressão ou uma forma direta de manipular a realidade. Há, no entanto, quem prefira um tratamento um pouco mais “pensado”, com meias verdades, do que com uma honestidade que por vezes pode machucar.
Sempre escolho saber a verdade mais cruel a viver na mais doce das mentiras, mas também sei que não são todos que estão preparados para isso. Porque a sinceridade e a honestidade muitas vezes doem, e em alguns casos falar em voz alta afasta a maioria…
Algo que valeria a pena praticar no dia a dia, mais do que uma verdade sem limites, é aprender a não dizer nunca o contrário do que pensamos. Só assim cuidaremos de nosso bem-estar emocional e seremos consistentes com nosso valores e necessidades.
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Os efeitos da verdade e da honestidade

No nosso cotidiano, a maioria de nós faz uso das mentiras piedosas. Comentamos com uma amiga que está muito bonita ainda que estejamos vendo que está com enormes olheiras, tranquilizamos nossos pais dizendo que estamos muito bem, ainda que estejamos, por exemplo, resfriados. Com isso, mantemos um equilíbrio funcional porque são situações que qualificamos como de pouca importância que não terão influência na confiança.

Agora, quando as circunstâncias são diferentes e geram diversos problemas de maior ou menor magnitude, podendo abalar a confiança, fazemos uso da honestidade. Não obstante, há quem nem sequer conceba a possibilidade de dizer mentiras piedosas, porque para eles pequenas mentiras geram ao fim do caminho grandes falsidades, e a falsidade é algo que algumas personalidades não toleram.

É aqui onde costumam aparecer os problemas de convivência, porque quem espalha a verdade no seu dia a dia é visto por outros como aquela pessoa que tudo revela, que fala o que for na cara, que não respeita ninguém. A honestidade é na verdade um apego a nossa retidão e dignidade porque uma meia verdade será sempre uma mentira inteira, ainda que muito tente-se dizer que não.

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A verdade não nos tornará livres mas nos ajudará a viver melhor

Imaginemos agora aquelas reuniões familiares em que, em alguns momentos, costumamos ficar quietos diante de algum comentário nada adequado ou até mesmo ofensivo que certos parentes costumam fazer entre si. Longe de suportar a situação, decidimos levantar a voz e dizer a verdade sobre o que achamos de determinado comportamento. É muito provável que não olhem muito bem para essa reação, e inclusive que nos dediquem uma reprovação, mas sem dúvida a atitude fará com que nos sintamos muito melhor.

Quem fica bravo ou chateado quando alguém lhe diz uma verdade prefere viver na mentira.

Apesar de que frequentemente costumam dizer aquilo que a verdade não é nada mais que a percepção pessoal de cada um, há aspectos que, longe de serem neutros ou inócuos, pedem uma reação. Demandam de nós assertividade e que levantemos nossas vozes para sermos honestos, diretos e, antes de tudo, consistentes com nossas crenças. Não obstante, também temos que ter claro que há um limite, e esse limite está em não praticar o sincericídio.

Explicamos o que é isso a seguir.

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A verdade e seus propósitos essenciais

A verdade sempre deveria ter como propósito melhorar nossa convivência, favorecer o respeito mútuo e construir confiança. Isso é um aspecto essencial para termos sempre em conta: a verdade não deve ser usada nunca como uma forma de agressão ou humilhação.

  • Dentro do budismo a verdade é concebida como uma forma de iluminação. Seu conceito teórico é realmente útil nesse contexto, porque o que se busca é antes de tudo cultivar a sinceridade no dia a dia como uma forma de sabedoria compartilhada. Por sua vez, transmite-se a concepção de que todos nós devemos estar preparados para as trocas humanas, para tudo aquilo que nos traga vida, seja bom ou ruim. Assumir as verdades é parte da aceitação pessoal de cada um.
  • A verdade deve poder ser digerida e aceita mais tarde, gerando então uma troca e um conhecimento. Se nos limitamos a remoer o ouvido não aproveitaremos nada, se ignoramos o único que fazemos é alimentar ainda mais a mentira. Assim, é necessário oferecer a verdade aos outros do jeito menos agressivo ou cruel possível, sem chegar ao sincericídio. Por isso, a forma de falar é sempre importante. Não é o mesmo dizer “não estou mais apaixonado por você” e “não sei como um dia pude me apaixonar por você”.

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Para concluir, vale a pena fazer um uso saudável dessa verdade que dói, ainda que sempre acabe curando, porque aqueles que se limitam a inventar mentiras primeiro consolam, mas logo matam. E isso definitivamente não é o ideal para construir confiança.