Por que é tão difícil esquecer um amor?

setembro 26, 2019
Os amores do passado nunca são esquecidos. Não importa se tiveram o sabor das lágrimas ou se foram tão breves quanto um verão. As pessoas são feitas de histórias e o amor é a tinta indelével para o cérebro.

Esquecer um amor é como tentar quebrar uma superfície de grafeno: algo impossível. Porque há lembranças inoxidáveis, histórias e vivências que foram escritas por meio da paixão e daquela magia que deixa marcas indeléveis na memória.

Desse modo, independentemente de querermos ou não, é impossível apagar os amores do passado porque eles também nos ajudaram a ser quem somos agora.

Em um de seus livros, o escritor libanês Khalil Gibran disse que o coração deve ser partido em algum momento da vida para poder se abrir de verdade. Talvez seja verdade que se aprende amar e que os corações partidos são os que contêm mais sabedoria entre as linhas de suas cicatrizes.

Em todo caso, muito além das decepções vividas e das felicidades aproveitadas, há um fato evidente: o cérebro nunca se esquece do que um dia amou.

Não importam receitas, conselhos ou estratégias sofisticadas para apagar da nossa memória aquela pessoa a quem um dia amamos acima de todas as coisas. De nada servem.

Porque o que se viveu não se esquece, simplesmente acabamos reconhecendo essa ausência, aceitando o que passou (e não pôde ser), permitindo-nos ampliar, por sua vez, a bagagem das nossas aprendizagens e experiências.

 “A corda cortada pode voltar a ser amarrada, pode voltar a segurar, mas está cortada. Talvez possamos voltar a nos esbarrar, mas lá onde você me abandonou, não voltará a me encontrar”.
-Bertolt Brecht-

Coração partido após separação

Esquecer um amor é algo impossível para o nosso cérebro

Deixar uma relação para trás e colocar um ponto final o quanto antes, por vezes, é algo necessário. E talvez seja para o bem de ambos, para conservar em bom estado as dignidades e evitar nos fazer mais mal do que o necessário.

Como se costuma dizer, um término no momento certo é a única estratégia para sairmos inteiros. No entanto, muito além do fato desse fim ter sido de comum acordo entre ambos ou a decisão de apenas uma pessoa, o sofrimento que resta costuma ser imenso.

Há estudos que mostram que, em média, demoramos entre 6 e 18 meses para superar um término afetivo. Esquecer um amor é algo impossível porque ninguém pode editar a vontade das próprias lembranças.

No entanto, podemos modular o impacto emocional e transformar o luto em um processo básico e necessário por meio do qual podemos, aos poucos, lidar com os sentimentos para aceitar a nova situação.

No entanto, como bem sabemos, o amor é uma emoção intensa, às vezes caótica e até mesmo desordenada. Nenhuma relação é igual. Por isso há quem tenha maior dificuldade para passar pelo luto, enquanto outros, em contrapartida, viram a página com a solidez adequada.

Seja como for, esquecer um amor é, até agora, um fato improvável devido às particularidades do nosso cérebro. Vamos ver mais algumas informações sobre esse assunto.

A memória emocional e os marcadores somáticos

As pessoas são, basicamente, criaturas emocionais que um dia aprenderam a raciocinar. As emoções são, acima de tudo, a pedra angular essencial para nos conectarmos uns com os outros.

Graças a elas, estabelecemos vínculos, nos cuidamos, identificamos riscos e promovemos o nosso bem-estar.

  • Tudo isso explica por que o amor é tão importante para o cérebro. É esse tecido que nos faz sentir seguros e valorizados no grupo social constituído por um casal. Amar e ser amado proporciona tranquilidade, reduzindo o estresse e o medo. Assim, fatos como uma traição, uma decepção, um término inesperado ou acordado sempre geram dor. 
  • Por outro lado, há a nossa memória emocional. Quando mantemos um vínculo afetivo com alguém, vários marcadores somáticos são construídos. São experiências que o cérebro associa com sensações emocionais intensas: os beijos, os carinhos, os abraços, os cheiros, as conversas, as cumplicidades, etc. Tudo isso constitui a marca do bem-estar, da felicidade, da esperança, do prazer etc.
  • Esses marcadores emocionais, e somáticos ao mesmo tempo, são criados por meio de neurocircuitos muito resistentes. Sempre vão estar aí, presentes. Por isso, por vezes, basta sentir um cheiro ou visitar um determinado lugar para que, no exato momento, emerjam não apenas lembranças, mas também sensações experimentadas em um passado muito específico.
Casal passeando ao entardecer

Há amores que também representam uma parte de nós mesmos e da nossa história

Se esquecer um amor é algo impossível, isso também se deve a outro fato. Se pudéssemos apagar essa relação da nossa memória, estaríamos apagando também a nós mesmos. As pessoas não são feitas apenas de carne e osso, mas também de histórias.

Portanto, entre essas lembranças vinculadas a um amor do passado, encontra-se também o alguém que éramos naquela época. É uma versão de si mesmo mais jovem e esperançoso que se deixou levar com toda a sua paixão por alguém.

O cérebro nunca vai escolher colocar no esquecimento essa versão do nosso eu passado. Fazer isso significaria dar um passo para trás no nosso desenvolvimento pessoal, porque cada coisa vivida, sentida, e até mesmo sofrida, nos permitiu dar forma à pessoa que somos agora.

Seria, portanto, uma pena prescindir de qualquer vírgula ou fragmento da nossa própria história de vida. Seja bom ou ruim, é o que somos.

O melhor de tudo isso é que temos a oportunidade constante de continuar escrevendo histórias melhores, porque o amor é algo que sempre vale a pena.

  • Galena K. Rhoades, et al, Breaking Up is Hard to do: The Impact of Unmarried Relationship Dissolution on Mental Health and Life Satisfaction (2011) Jun; 25(3): 366–374, Journal of Family Psychology.
  • Lewandowski, G. (2009). Promoting positive emotions following relationship dissolution through writing. The Journal of Positive Psychology, 4(1), 21-31.