Psicofármacos em crianças e adolescentes

· maio 8, 2019
O uso de psicofármacos em crianças e adolescentes aumentou assustadoramente nos últimos anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

As doenças mentais são uma das maiores epidemias do século XXI. São muitas as estatísticas que alertam sobre o preocupante aumento no consumo de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos. No entanto, isso se agrava ainda mais se falarmos da população infantil e adolescente. O uso de psicofármacos em crianças e adolescentes aumentou assustadoramente nos últimos anos, entre 2005 e 2012, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com essa organização, calcula-se que aproximadamente 20% das crianças e dos adolescentes apresentam transtornos ou problemas mentais, ao passo que cerca da metade desses distúrbios se manifestam antes dos 14 anos, embora muitos não sejam detectados nem tratados. De fato, os transtornos psiquiátricos são uma das principais causas de doença e deficiência entre jovens e adolescentes.

Vários estudos garantem que os transtornos mentais têm um fator de predisposição genética, mas também um importante fator ambiental.  São muitos os fatores de risco que aumentam a prevalência dessas doenças, especialmente na infância e na adolescência. Por exemplo: transtornos familiares, como a separação dos pais ou o abandono, os abusos físicos e sexuais, o consumo de substâncias nocivas, o estresse, etc.

É preciso levar em consideração que estamos falando de épocas críticas no desenvolvimento de uma pessoa. Por um lado, a infância constitui nossa personalidade e determina a vida adulta. Por outro, a adolescência é um momento crucial de muitas mudanças em todos os níveis. Primeiro, no nível físico; segundo, no nível emocional; e terceiro, no nível social, entre outros.

Portanto, está claro que agir na prevenção e na promoção da saúde mental deve ser uma prioridade. Mas é preciso levar em consideração os ambientes mais adequados para isso: primeiro e fundamentalmente, a família, embora também sejam importantes a escola e a sociedade em geral.

Psicofármacos em crianças

Psicofármacos em crianças e adolescentes

O tratamento com psicofármacos em crianças e adolescentes sempre deve ser acompanhado de intervenções psicossociais, e nunca deve ser exclusivo.

O tratamento farmacológico dos transtornos psicológicos em crianças é bastante recente. Por um lado, durante muito tempo utilizou-se unicamente a psicoterapia porque esses problemas quase sempre estavam associados a uma causa ambiental. Por outro, não havia estudos suficientes sobre a eficácia e a segurança do uso de psicofármacos em crianças e adolescentes.

Entretanto, a situação vem mudando nos últimos anos, e são muitas as linhas de pesquisa abertas nesse campo. Mesmo assim, muitas vezes continuam sendo utilizados fármacos em crianças fora das indicações das informações de prescrição (uso compassivo).

É preciso levar em consideração que, ao longo do desenvolvimento da criança, e inclusive até a adolescência, os processos farmacocinéticos no organismo não são iguais quando comparados aos dos adultos. Assim como não são os sistemas de neurotransmissão, tão importantes nos mecanismos de ação dos psicofármacos. Por isso, é perigoso exagerar no uso de fármacos em crianças com base nos estudos realizados em adultos.

Os psicofármacos autorizados mais utilizados em crianças e adolescentes são:

  • Antidepressivos
    • A. tricíclicos: imipramina, amitriptilina, clomipramina (autorizados também para o tratamento da enurese).
    • Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS): fluoxetina.
    • Inibidores Seletivos de Recaptação de Noradrenalina (ISRN): atomoxetina para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
  • Neurolépticos
    • Haloperidol, pimozida, clorpromazina, periciazina, trifluoperazina, tioridazina.
    • Risperidona para o tratamento dos problemas de comportamento associados ao autismo.
  • Benzodiazepinas
    • Clorazepato dipotássico, diazepam, clobazam para o tratamento de transtornos de ansiedade e alterações do sono.
  • Psicoestimulantes
    • Metilfenidato, para o tratamento do TDAH.
Criança tomando comprimido

Equilíbrio entre benefício/risco do uso de psicofármacos 

Em 2004, a Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (AEMPS) recomendou não utilizar antidepressivos do grupos dos ISRS em crianças e adolescentes porque eles não apresentam eficácia e aumentam o risco de comportamentos suicidas. Além disso, nenhum dos ISRS estão aprovados nas informações de prescrição para a depressão nessas faixas etárias.

Em 2016, um grupo de pesquisadores publicou na revista The Lancet um estudo muito interessantes sobre o uso de antidepressivos em crianças e adolescentes. Foi realizada uma revisão sistemática e uma meta-análise de todos os ensaios publicados sobre o uso desses fármacos. Assim, foi comparada a eficácia de 14 antidepressivos para o tratamento do transtorno depressivo maior em crianças e adolescentes entre 9 e 18 anos.

O resultado foi impressionante: somente a fluoxetina demonstrou mais eficácia do que o placebo. Os outros antidepressivos não apresentaram um balanço benefício/risco favorável. Em outros estudos, alguns desses fármacos, como a venlafaxina, inclusive foram associados a um maior risco de comportamento suicida em adolescentes. No entanto, outros estudos não encontraram essa evidência.

Embora os resultados desses estudos nos deixem em alerta, também não devem ser considerados uma verdade absoluta. Eles têm suas limitações, e é necessário continuar investigando. Não significa que seja preciso suspender os tratamentos. Cada caso é único. Em geral, o benefício do tratamento com psicofármacos em crianças e adolescentes é maior que o risco de não aplicá-lo.

O mais importante é sempre seguir as indicações dos especialistas. São eles os profissionais que podem avaliar o balanço benefício/risco dos possíveis tratamentos em cada paciente.

  • Sánchez Mascaraque P. y Hervías Higueras P. (2019). Psicofarmacología en niños y adolescentes. AEPap (ed.). Congreso de Actualización Pediatría 2019. Madrid: Lúa Ediciones 3.0. 121-129.
  • Acosta-Hernández, M. E., Mancilla-Percino, T., Correa-Basurto, J., Saavedra-Vélez, M., Ramos-Morales, F. R., Cruz-Sánchez, J. S., & Duran-Niconoff, S. (2011). Depresión en la infancia y adolescencia: enfermedad de nuestro tiempo. Archivos de neurociencias, 16(3), 156-161.
  • Mollejo Aparicio, E. (2005). Psicofármacos en niños y adolescentes: revisión y situación actual. Revista de la Asociación Española de Neuropsiquiatría, (95), 141-150.
  • Cipriani, A., Zhou, X., Del Giovane, C., Hetrick, S. E., Qin, B., Whittington, C., … & Cuijpers, P. (2016). Comparative efficacy and tolerability of antidepressants for major depressive disorder in children and adolescents: a network meta-analysis. The Lancet, 388(10047), 881-890.