O modelo de Barkley para explicar o TDAH

março 31, 2019
O que é o TDAH? Como ele surge e por quê? Neste artigo iremos responder estas perguntas por meio do modelo de Barkley.

O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é um transtorno que tem início na infância. Há muitas explicações sobre sua origem e desenvolvimento. No entanto, uma delas chamou bastante atenção: o modelo de Barkley.

Este transtorno apresenta um padrão persistente de comportamentos de desatenção, excesso de atividade e dificuldade para controlar os impulsos, ou impulsividade. Estamos diante de um dos transtornos mais estudados em psicopatologia infantil. É o que demonstram os milhares de artigos publicados sobre o tema.

Inicialmente partiu-se de um enfoque médico. Posteriormente apareceram aproximações comportamentais, neurocognitivas, genéticas e sociais. Isso enriqueceu a compreensão deste problema. Pensemos que o enfoque dominante em toda a primeira metade do século passado era puramente médico. Considerava-se que o TDAH era causado por uma alteração neurológica, provocada por algum tipo de lesão cerebral.

Os sintomas principais do transtorno eram períodos curtos de atenção, falta de concentração, impulsividade e incapacidade de adiar as gratificações. Tudo isso costumava se manifestar por meio de problemas escolares.

TDAH na escola

Do modelo médico ao modelo comportamental

A falta de evidência da síndrome médica contribuiu para que se buscasse uma definição mais funcional do TDAH. Assim, o TDAH passou a se caracterizar como um transtorno do comportamento. Segundo este enfoque, a atividade excessiva era o aspecto mais saliente.

No entanto, em 1972 argumentou-se que a deficiência básica das crianças hiperativas não era o grau excessivo de atividade. A deficiência básica era a sua incapacidade de manter a atenção e a sua impulsividade. A maioria dos problemas que as crianças com TDAH experimentam são consequência de uma autorregulação insuficiente.

Perspectiva atual do TDAH

A perspectiva atual sobre o TDAH está definida no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e na Classificação Internacional de Transtornos Mentais da OMS.

A característica essencial deste transtorno é um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade. Este padrão é mais comum e grave do que o observado habitualmente em pessoas de um nível de desenvolvimento similar.

Os sintomas derivados dificultam a adaptação e se manifestam em características comportamentais específicas. Suas repercussões são negativas no desenvolvimento cognitivo, pessoal e social. Além disso, dificultam a aprendizagem escolar e o funcionamento cotidiano da pessoa.

O modelo de Barkley

As pesquisas sobre a origem do TDAH foram predominantemente ateóricas, exploratórias e descritivas. Apesar dos avanços, ainda existem inconsistências importantes sobre os mecanismos subjacentes ao mesmo.

O modelo de Barkley (modelo de inibição) entende que o problema básico das crianças hiperativas é um déficit da inibição comportamental. Este déficit incidiria de forma negativa em quatro funções neuropsicológicas que dependem da inibição comportamental para sua correta execução.

As quatro funções executivas do modelo de Barkley

Estas quatro funções são as seguintes: a memória operacional, a autorregulação da motivação e do afeto, a internalização da linguagem e a reconstituição (processos de análise e síntese). Estas funções executivas influenciam, por sua vez, o sistema motor, que controla o comportamento dirigido a metas.

Estas funções também afetam outros sistemas neuropsicológicos, tais como o sensorial, perceptivo, linguístico, mnésico e emocional. A memória de trabalho (memória operacional) permite reter informação enquanto se trabalha em uma tarefa, ainda que o estímulo tenha desaparecido.

O déficit de autorregulação de afeto, motivação e ativação incapacita as crianças com TDAH a controlar suas respostas emocionais diante de uma ocorrência específica. Isso faria com que manifestassem suas emoções em público, segundo o modelo de Barkley.

A internalização da linguagem também costuma apresentar um atraso nestas crianças. Esta imaturidade na linguagem interna poderia originar as dificuldades das pessoas com TDAH para adotar um comportamento governado por regras e o atraso no desenvolvimento moral.

Psicóloga trabalhando com criança

Brincadeiras menos maduras e menos criativas

A deficiência na reconstituição, análise e síntese do comportamento incapacitaria a criança hiperativa de analisar as situações e comportamentos, além de dificultar a resolução de problemas. Suas brincadeiras são menos maduras, simbólicas e criativas. Foi descoberto que têm uma execução mais pobre em tarefas de fluidez verbal e que as soluções que dão aos problemas são menos adequadas.

Segundo o modelo de Barkley, provavelmente se evidenciaria também na execução de tarefas não verbais que requerem sequências motoras novas e complexas. Estas quatro funções executivas influenciariam, por sua vez, o sistema motor.

Existem outros modelos desenvolvidos com o objetivo de explicar o TDAH. Apesar das mudanças terminológicas e da ênfase diferente dada a manifestações específicas do TDAH ao longo do tempo, os sintomas fundamentais não sofreram alterações.

  • Barkley, R. A., & Murphy, K. R. (2006). Attention-deficit hyperactivity disorder: A clinical workbook. Guilford Press.
  • Barkley, R. A. (Ed.). (2014). Attention-deficit hyperactivity disorder: A handbook for diagnosis and treatment. Guilford Publications.