Psicologia do rancor: o que há por trás das pessoas rancorosas? 

O rancor é um peso que consome todos que o carregam. Veremos o que há por trás desse sentimento e como podemos administrá-lo.
Psicologia do rancor: o que há por trás das pessoas rancorosas? 
Valeria Sabater

Escrito e verificado por o psicólogo Valeria Sabater.

Última atualização: 30 março, 2022

As pessoas rancorosas seguram, de forma permanente, um pedaço de brasa ardendo. Elas fazem isso com a intenção de jogar essa brasa sobre aqueles que as ofenderam no momento mais inesperado. No entanto, quem acaba se queimando não são os demais, mas sim elas mesmas, pois seguram durante muito tempo esta brasa, essa fonte de raiva, ódio e mal-estar.

Apesar de neste momento vir à nossa mente alguma pessoa rancorosa que conhecemos, existe um aspecto do qual não podemos descuidar. Esta dimensão, este sentimento profundo (e, sem dúvida, autodestrutivo), não é experimentado de forma exclusiva por aqueles que não sabem praticar o saudável exercício do perdão. Na verdade, este assunto tem profundidade, nuances e dimensões contrapostas nas quais todos nós podemos cair em algum momento.

Assim, cabe dizer que, muito além do que pode parecer, estamos diante de um tipo de sentimento bastante recorrente. Ele é vivenciado, por exemplo, pelas pessoas que foram feridas, abandonadas ou traídas em seu ambiente familiar. Ele também é sentido por quem foi enganado em um relacionamento amoroso. Além disso, o rancor também é uma sensação permanente que habita naqueles que sobreviveram a uma guerra ou a um conflito armado. Conforme vemos, estas são situações compreensíveis, ainda que não sejam saudáveis do ponto de vista psicológico.

Não se trata de algo saudável porque, em primeiro lugar, o rancor se caracteriza por um traço altamente nocivo: a cronicidade. Trata-se de estados angustiantes que se prolongam no tempo, que se arrastam a ponto de interferir em outros âmbitos da vida. O humor muda, perde-se a confiança nos outros, as atitudes mudam e até mesmo a forma como tratamos as pessoas ao nosso redor se transforma. O rancor é como a ferrugem, que se espalha e acaba enfraquecendo toda a estrutura, toda a identidade.

O ressentimento anda de mãos dadas com uma dor que queria que o objeto de seu rancor sentisse.”
-Albert Camus- 

Florescer na adversidade

Pessoas rancorosas: características e perfil psicológico

As pessoas rancorosas têm um cofre no seu interior. Nele, escondem o peso de uma perda, a dor de um erro, de uma traição ou até mesmo de um abandono ou ofensa. Esse cofre é blindado por uma razão evidente: não desejam esquecer nenhum detalhe daquilo que aconteceu. Assim, a todo esse dano moral comprimido e bem guardado, adiciona-se a tristeza que, em algum momento, sofreu uma mutação e se transformou em raiva e, mais tarde, em ódio.

Além disso, a esta teia psicológica geralmente também se soma um último componente: o desejo de vingança. Não no seu sentido direto ou com componentes de violência. Afinal, na maioria dos casos, o que se deseja é que, de algum modo, aquele que nos fez mal também receba na mesma moeda o mesmo tipo de sofrimento, com as mesmas condições. Portanto, sabendo disso, é comum que as pessoas rancorosas apresentem as seguintes características:

Incapacidade de perdoar

Às vezes, perdoar é muito difícil, todos sabemos. No entanto, devemos entender que o perdão é, antes de tudo, um passo que nos permite encerrar uma etapa e recuperar o equilíbrio emocional. Assim, no que se refere a este tipo de perfil caracterizado por um rancor profundo, cabe assinalar que, além de não querer perdoar, essas pessoas também alimentam o seu próprio sofrimento ao lembrar diariamente do peso da ofensa ou do dano sofrido.

Há, portanto, uma retroalimentação constante e, com ela, uma intensificação do sofrimento. De fato, estudos como o realizado pela Universidade de Pisa e publicado na revista Frontiers in Human Neuroscience revelam que o ato de alimentar o ressentimento abre ainda mais a ferida emocional. No entanto, o ato de perdoar regula um grande número de estruturas neuronais, favorece a calma, reduz o estresse e também ativa áreas como o córtex pré-frontal (relacionado com a resolução de problemas).

Jovem guardando rancor

Pensamento dicotômico

Ou você está comigo, ou está contra mim. As coisas são brancas ou pretas, ou você me ajuda, ou você me trai. Este tipo de enfoque faz parte de uma clara distorção cognitiva. Trata-se de um esquema de pensamento muito rígido do qual as pessoas rancorosas nem sequer são conscientes, uma vez que estão habituadas a sempre lidar com extremos, a se encontrar em posições muito polarizadas onde a única coisa que conseguem é estabelecer enormes e amargas distâncias daqueles ao seu redor.

O orgulho não dá trégua

O orgulho é um cavalo de batalha que invade, destrói e transforma tudo. Essa característica faz com que este tipo de pessoa sempre fique na defensiva, sentindo-se ferida e fortemente magoada por coisas mínimas. Assim, não é fácil conviver, dialogar ou chegar a acordos com quem sempre se deixa levar pelo orgulho, por essa atitude que sempre enxerga tudo como um ataque pessoal.

Incapacidade de atender necessidades emocionais e psicológicas

Todos nós podemos ser prejudicados por alguém. Assim, conforme esperado, temos o pleno direito de experimentar sensações negativas em relação a quem nos fez mal. No entanto, há um aspecto que não é parte da normalidade psicológica: manter, de forma permanente, essa raiva, essa lembrança dolorosa e a marca que a acompanha, a mesma que acaba se transformando em uma amargura crônica.

Temos a plena obrigação de encarar o acontecido e seguir adiante. Seguir adiante não é, de forma alguma, esquecer, mas sim aprender a usar certas estratégias psicológicas para lidar com as feridas e nos permitir novas oportunidades. Assim, quem não age dessa forma, quem não é capaz de escapar, de encontrar uma saída válida para tanta raiva e amargura, acaba transformando o rancor na sua forma de viver.

Os efeitos de guardar rancor

Como acabar com o rancor que nos oprime e domina?

Em um artigo publicado em uma revista de psicologia comportamental, fala-se de um interessante estudo realizado na Universidade de Ontário, Canadá, sobre este mesmo assunto. Nele, discutia-se a necessidade de proporcionar ferramentas para as pessoas rancorosas para que pudessem dar forma ao perdão emocional.

Esta dimensão, este exercício de saúde, é determinante por uma razão muito simples: permite que nos libertemos das emoções negativas para gerar uma nova realidade psicológica, a partir da qual podemos começar a trabalhar.

  • Por outro lado, é recomendável que este tipo de perfil trabalhe a flexibilidade em seu enfoque de pensamento. Com essa dimensão, facilitaremos a visão de coisas novas a partir de novas perspectivas.
  • Além disso, também é conveniente oferecer ferramentas para a gestão da raiva, uma dimensão sempre habitada por pensamentos distorcidos e por uma ativação fisiológica pouco saudável.
  • As pessoas rancorosas, por outro lado, precisam dar atenção a outros aspectos com os quais possam trazer o olhar do passado para o presente. Alimentar-se exclusivamente de lembranças negativas do passado entorpece a oportunidade de viver com liberdade. Portanto, é recomendável iniciar novos projetos, bem como se abrir a novas experiências, hobbies, relações, etc.

Algumas práticas para superar o rancor

Por sua vez, quando o rancor se apoderar de você, aconselhamos a colocar em prática as seguintes ações:

  • Expresse a sua dor. É importante que você não guarde nada dentro de si. Para isso, você pode escrever uma carta para expressar o que está sentindo ou conversar com uma pessoa de confiança. Colocar as nossas emoções em palavras é uma ótima ferramenta para administrá-las. Não tente evitar ou suprimir o que sente, pois isso só vai piorar o rancor experimentado.
  • Aceite o que aconteceu. Não podemos mudar as ações dos outros, ainda mais se elas já ocorreram. Portanto, não se prenda ao passado e aceite os fatos, por mais dolorosos que sejam.
  • Identifique o aprendizado. Toda situação passada, por mais negativa que nos pareça, pode nos deixar uma lição. Talvez seja hora de aprender a não confiar em qualquer pessoa ou de deixar de ser tão exigente com aqueles ao nosso redor… Uma vez que você reconheça o que aprendeu, poderá evitar essas situações no futuro.
  • Trabalhe a sua autoestima e autocuidado. Uma vez que você se sentir bem consigo mesmo, você terá mais força para enfrentar e superar situações difíceis. Para isso, cuide da sua alimentação, pratique exercícios de relaxamento, pratique algum esporte, cultive o tempo de lazer, conheça a si mesmo, faça terapia, etc. Essas ações, sem dúvida, farão de você uma pessoa mais forte e sábia.

Para concluir, assim como geralmente se diz, o rancor é um abismo sem fundo ou um páramo sem fronteiras. Ninguém merece viver eternamente em cenários deste tipo. Precisamos aprender, portanto, a construir rotas para escapar, caminhos para nos libertarmos e respirarmos com maior tranquilidade e dignidade.

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