Psicologia do rancor: o que há por trás das pessoas rancorosas? 

· outubro 22, 2018

Hoje falaremos sobre a psicologia do rancor. As pessoas rancorosas seguram, de forma permanente, um pedaço de brasa acesa. Elas fazem isso com a intenção de jogar essa brasa sobre aqueles que as ofenderam no momento mais impensável.

No entanto, quem acaba se queimando não são os demais, e sim elas mesmas. Pois seguram tal brasa por muito tempo, se queimando com essa fonte de raiva, ódio e mal-estar.

Apesar de vir à nossa mente neste momento alguma pessoa rancorosa que conhecemos, existe um aspecto do qual não podemos descuidar. Esta dimensão, este sentimento profundo (e, sem dúvida, autodestrutivo) não é experimentado de forma exclusiva por aqueles que não sabem praticar o saudável exercício do perdão.

Na verdade, este assunto tem profundidade, nuances e dimensões contrapostas nas quais todos nós podemos cair em algum momento. Assim, cabe dizer que além do que pode parecer, estamos diante de um tipo de sentimento muito recorrente.

Quem costuma sentir rancor são, por exemplo, pessoas que foram feridas, abandonadas ou traídas em seu meio familiar. Quem foi enganado em um relacionamento amoroso, por exemplo, sofre muito com isso.

O rancor também é uma sensação permanente que habita aqueles que sobreviveram a uma guerra ou a um conflito armado. São situações, de certa forma, compreensíveis, mesmo que não sejam saudáveis de um ponto de vista psicológico.

Não é saudável porque, em primeiro lugar, o rancor é caracterizado por um fato altamente nocivo: a cronicidade. São estados angustiantes que se prolongam no tempo, que se arrastam a ponto de interferir em outros âmbitos da vida.

O humor muda, perde-se a confiança nos demais, as atitudes variam e até mesmo a forma como lidamos com as pessoas ao nosso redor muda. O rancor é como a ferrugem, se espalha e acaba enfraquecendo toda a estrutura, toda a identidade.

O ressentimento anda de mãos dadas com uma dor que queria que o objeto de seu rancor sentisse.”
-Albert Camus- 

Florescer na adversidade

Psicologia do rancor: características e perfil psicológico

As pessoas rancorosas têm uma caixa-forte em seu interior. Nela, elas escondem o peso de um preconceito, a dor de um erro, de uma traição ou inclusive de um abandono ou ofensa.

Essa caixa é blindada por uma razão evidente: não deseja esquecer nem um pouco daquilo que aconteceu. Assim, a todo esse dano moral comprimido e bem guardado, adiciona-se a tristeza que, em algum momento, sofreu mutação e se transformou em raiva e, mais tarde, em ódio.

Dessa forma, a todo este “tecido psicológico” costuma ser adicionado um último componente: o desejo de vingança. Não em seu sentido direto ou com componentes violentos. Porque o que a pessoa deseja, na maioria dos casos, é que, de algum modo, aquele que lhe causou tanto mal sofra o mesmo; na mesma moeda, o mesmo tipo de sofrimento e as mesmas condições.

Portanto, e sabendo disso, é comum que as pessoas rancorosas apresentem as seguintes características:

Incapacidade de perdoar

Às vezes, perdoar é muito difícil. Todos nós sabemos disso. No entanto, devemos saber que o perdão é, antes de tudo, um passo que nos permite encerrar uma etapa e recuperar o equilíbrio emocional.

Assim, e no que se refere a este tipo de perfil caracterizado por um rancor profundo, cabe assinalar que, além de não querer perdoar, as pessoas alimentam seu próprio sofrimento se lembrando diariamente do peso da ofensa ou do dano sofrido.

Há, portanto, uma retroalimentação constante e, com ela, uma intensificação do sofrimento. De fato, estudos como o realizado pela Universidade de Pisa e publicado na revista Frontiers in Human Neuroscience nos revelam que o ato de alimentar o ressentimento abre ainda mais a ferida emocional.

No entanto, o ato de perdoar regula um grande número de estruturas neuronais, favorece a calma, reduz o estresse e ativa áreas como o córtex pré-frontal (relacionado com a resolução de problemas).

Jovem guardando rancor

Pensamento dicotômico

Ou você está comigo, ou está contra mim. As coisas são brancas ou pretas, ou você me ajuda, ou você me trai. Este tipo de enfoque faz parte de uma clara distorção cognitiva.

É um esquema muito rígido de pensamento do qual as pessoas rancorosas sequer estão conscientes, pois estão habituadas a sempre lidar com os extremos, a se encontrar em posições muito polarizadas onde a única coisa que conseguem é estabelecer enormes e amargas distâncias daqueles que a cercam.

O orgulho não dá trégua

O orgulho é um cavalo de batalha que invade, destrói e transforma tudo. Essa característica faz com que este tipo de pessoas estejam sempre na defensiva, que se sintam feridas e altamente “doídas” com o mínimo que lhes foi dito.

Não é fácil conviver, dialogar ou chegar a acordos com quem sempre se deixa levar pelo orgulho, por essa atitude que sempre toma uma posição pessoal.

Incapacidade de atender necessidades emocionais e psicológicas

Como é de se esperar, estas pessoas têm o pleno direito de experimentar sensações negativas por quem as feriu. No entanto, há um aspecto que não se adequa à normalidade psicológica: manter de forma permanente essa raiva, essa lembrança dolorosa e a impressão que a acompanha acaba se transformando em amargura crônica. 

Temos a plena obrigação de assumir o acontecido e avançar. Avançar não é, de forma alguma, se esquecer, mas é aprender a usar certas estratégias psicológicas para lidar com as feridas e nos permitir novas oportunidades.

Assim, quem não faz isso, quem não é capaz de escapar, de encontrar uma saída válida para tanta raiva e amargura, acaba transformando o rancor em sua forma de viver.

Os efeitos de guardar rancor

Como acabar com o rancor que nos prende e domina?

Um artigo publicado em uma revista de psicologia comportamental falava de um interessante estudo realizado na Universidade de Ontário, Canadá sobre este mesmo assunto. Ele discutiu a necessidade de proporcionar ferramentas para as pessoas rancorosas para que elas chegassem ao perdão emocional.

Esta dimensão, este exercício de saúde, é determinante por uma razão muito simples: permite que nos libertemos das emoções negativas para gerar uma nova realidade psicológica a partir da qual podemos começar a trabalhar.

  • Por outro lado, é recomendável que este tipo de perfil trabalhe a flexibilidade em seu enfoque de pensamento. Com essa dimensão, facilitaremos a visão de coisas novas a partir de novas perspectivas.
  • Dessa forma, também é conveniente oferecer ferramentas para a gestão da raiva, uma dimensão sempre habitada por pensamentos distorcidos e por uma ativação fisiológica pouco saudável.
  • As pessoas rancorosas, além de tudo, precisam dar atenção a outros aspectos com os quais possam trazer o olhar do passado para o presente. Alimentar-se exclusivamente de lembranças negativas do passado entorpece a oportunidade de viver com liberdade.
  • Portanto, é recomendável que sejam iniciados novos projetos, que as pessoas se abram a novas experiências, desejos, relações, etc.

Para concluir, assim como costuma ser dito por aí, o rancor é um abismo sem fundo ou um páramo sem fronteiras. Ninguém merece viver eternamente em cenários deste tipo.

Precisamos aprender, portanto, a construir válvulas de escape, caminhos para nos libertar e respirar com maior tranquilidade e dignidade.