Psicopatia: características e curiosidades

29 Junho, 2020
Carismático, persuasivo, manipulador, impulsivo, mas encantador no início. Assim são os indivíduos que apresentam psicopatia. Segundo alguns estudos, 1% da população é psicopata, e a maioria deles está entre nós.

Nem todos os psicopatas são criminosos ou estão na prisão. Também não são assassinos encapuzados ou indivíduos de aparência sinistra, embora o cinema e a literatura os retratem dessa maneira. Segundo Robert Hare, doutor em psicologia e especialista em psicopatia, a maioria deles está entre nós, no campo da política ou dos negócios. Incrível, não é mesmo?

Os psicopatas não são desorientados nem apresentam delírios ou alucinações. Eles também não experimentam um grande desconforto. São pessoas bastante racionais, conscientes do que fazem e de por que fazem. Em outras palavras, seus comportamentos são fruto de escolhas livres. Mas o que há por trás dessa fachada carismática e atraente que geralmente os caracteriza? Quais são seus mecanismos de ação? O funcionamento da sua mente é diferente daquele de uma pessoa empática? Vamos nos aprofundar nesse tema a seguir.

“Não é de surpreender que muitos psicopatas sejam oficialmente considerados criminosos, mas que muitos outros estejam fora da prisão e utilizem seu charme e habilidades camaleônicas para entrar na sociedade e deixar um rastro de vidas arruinadas para trás”.
-Robert Hare-

Visão histórica

O termo psicopatia significa literalmente “doença mental” (de psique, “mente” e de pathos, “doença”). No entanto, a mídia costuma usá-lo de forma inadequada, empregando-o como sinônimo de louco. O ponto é que a psicopatia não deve ser encarada como o resultado de doenças mentais, já que, como dissemos anteriormente, os psicopatas são racionais, escolhem como se comportar e não sentem desconforto pela sua condição.

No início do século XX, o psiquiatra francês Philippe Pinel foi um dos primeiros autores a escrever sobre os psicopatas. Ele utilizava o termo doença mental sem delírio para descrever os indivíduos com comportamentos marcados por uma acentuada implacabilidade e falta de restrições. Além disso, ele considerava que eles são moralmente neutros, uma concepção com a qual muitos autores não concordam pois, para eles, os psicopatas são moralmente doentes.

Visão histórica da psicopatia

Em 1941, o psiquiatra americano Hervey Cleckley fez a primeira descrição detalhada da psicopatia em The Mask of Sanity. Esse livro se tornou uma referência entre os pesquisadores da época.

“O psicopata não está familiarizado com os fatos ou dados que definem o que poderíamos chamar de valores pessoais. Ele tem uma grande incapacidade de entender essas questões. Por exemplo, é impossível para ele dedicar o menor interesse à tragédia ou à alegria humana representadas na literatura ou na arte. Ele também permanece indiferente a essas mesmas emoções na vida real. Beleza e feiúra (exceto de uma maneira muito superficial), bondade, maldade, amor, horror e humor não têm significado para ele, não o motivam. Infelizmente, lhe falta a capacidade de ver que os outros se comovem”.
-Hervey Cleckley-

Posteriormente, muitos psiquiatras se dedicaram ao estudo da psicopatia, mas se devemos destacar um deles por seus avanços, dados e resultados, é Robert Hare. Esse psiquiatra dedicou mais de três décadas à psicopatia, gerando as escalas mais amplamente utilizadas para avaliar essa dimensão: a PCL e o PCL-R.

Além dele, Kent Kiehl, professor de psicologia da Universidade do Novo México, e Kevin Dutton, psicólogo da Universidade de Oxford, também são autores amplamente reconhecidos no estudo da psicopatia.

Como curiosidade, há um trecho de uma entrevista que Dutton conduziu com um psicopata encarcerado que mostra a capacidade deste de questioná-lo e criar confusão. Em um determinado momento, o psicopata sugere que, se uma mulher se recusasse a fazer sexo com ele, ele seria capaz de conseguir de outra maneira. Dutton, ao ir embora, diz que com a entrevista ele aprendeu que os dois estão conectados de maneiras diferentes e, por esse motivo, o psicopata está na prisão e ele fora. Ao que o entrevistado respondeu:

“Não deixe que seu cérebro o engane, Kev, com todos esses exames que não te deixam ver a realidade. Há apenas uma diferença entre você e eu: eu quero e vou em frente, você quer e não vai“.

“Você está assustado, Kev, está com medo. Você tem medo de tudo, eu vejo nos seus olhos. Medo das consequências, de ser pego, do que vão pensar. Medo do que vão fazer com você quando baterem à sua porta. Você tem medo de mim”.

“Olhe para você. Você está certo, você está fora e eu estou aqui dentro. Mas… quem é livre, Kev? Livre de verdade, quero dizer. Você ou eu? Pense sobre isso hoje à noite. Onde estão as verdadeiras barras, Kev? Lá fora? (aponta para a janela) Ou aqui dentro? (toca sua têmpora). Sem dúvida, a conversa surpreende e convida à reflexão.

Principais características dos psicopatas

Existem diversos traços e características comuns na maioria dos psicopatas. No entanto, também é verdade que muitas pessoas podem apresentar alguns deles, mas isso não significa que sejam psicopatas. Lembremos que a psicopatia é uma síndrome, isto é, um conjunto de sintomas relacionados que só podem ser diagnosticados por um profissional especializado.

A seguir, descreveremos brevemente os traços mais representativos de acordo com Robert Hare:

  • Mente simples e superficial. Embora muitas vezes pareçam engenhosos e se expressem bem, costumam contar histórias pouco prováveis. A questão é que eles são capazes de lhes dar realismo graças à grande interpretação que fazem.
  • Personalidade egocêntrica e presunçosa. Os psicopatas têm uma visão narcisista da vida. Eles acreditam ser seres superiores que deveriam poder viver de acordo com seus padrões. Eles geralmente não têm vergonha de seus problemas pessoais, financeiros ou legais; os veem como algo temporário. Também pensam que suas habilidades lhes permitirão alcançar qualquer objetivo que estabelecerem para si mesmos.
  • Falta de remorso ou culpa. Esse tipo de pessoa demonstra uma grande despreocupação pelas consequências de suas ações sobre os outros, mesmo que sejam devastadoras. Ou seja, ele não se arrepende da dor ou destruição que causa e admite abertamente que não tem sentimentos de culpa. No entanto, pode acontecer de, em alguma ocasião, ele falar de um certo remorso, mesmo que posteriormente se contradiga com suas ações ou declarações.

A falta de remorso nos psicopatas geralmente está associada à sua grande capacidade de racionalizar e, assim, escapar da responsabilidade de suas ações.

“Tudo o que eu fiz no passado não me preocupa. Tente tocar o passado! Tente fazer algo com o passado. Não é real. É apenas um sonho!” Foi o que Ted Bundy falou em uma entrevista. Bundy foi um serial killer que matou quase 100 jovens.

  • Falta de empatia. Os psicopatas são incapazes de se colocar no lugar dos outros, exceto a nível intelectual. Eles não têm emoções e veem os outros como objetos que podem lhes dar gratificações. Em outras palavras, eles usam as pessoas de maneira instrumental. Sua falta de empatia vale, em geral, tanto para conhecidos quanto para estranhos: se eles mantêm laços com seus parentes, é porque os veem como posses.
  • Habilidades de manipulação e mentira. São seus talentos naturais. Mesmo quando eles são descobertos, têm a capacidade de mudar a história e reorganizar os fatos sem demonstrar vergonha ou perplexidade, mas indiferença. Além disso, eles se sentem orgulhosos de sua grande capacidade de mentir.
  • Portador de emoções superficiais. Os psicopatas geralmente manifestam uma certa pobreza emocional que limita a profundidade de seus sentimentos. Eles são frios, embora às vezes possam demonstrar emoções sinceras, mas muito contidas. Evidentemente, a linguagem que eles usam não é desprovida de conteúdo emocional, embora seja muito difícil para eles explicar os diferentes estados afetivos. Por exemplo, eles equiparam amor com desejo e excitação sexual, tristeza com frustração e raiva com irritabilidade.
Estilo de vida dos psicopatas

Estilo de vida dos psicopatas

Os psicopatas são caracterizados por levar um estilo de vida cronicamente instável, sem direção e no qual a violação das normas sociais é um fator comum. “Fiz isso porque quis” geralmente é uma de suas respostas mais frequentes a qualquer questionamento.

Frequentemente, são impulsivos para satisfazer sua principal motivação, como obter prazer ou alívio imediato de qualquer necessidade. Segundo os psicólogos Willian e Joan McCord, eles são como crianças focadas em suas necessidades e que exigem que sejam atendidas imediatamente.

Outra característica é que seu grau de controle tende a diminuir quando sentem que alguém os ataca ou compromete seus interesses. Quando isso acontece, eles são muito reativos. Apesar do fato desse controle diminuir, eles raramente esquecem qual é o propósito do que fazem, mantendo frieza em seu comportamento.

A necessidade de excitação é outro ponto forte do seu estilo de vida. Eles podem chegar a querer viver na corda bamba ou no limite, porque é aí que encontram a ação, a intensidade ou a pressa de que precisam. Eles tendem a entrar em situações de agitação emocional e são bastante intolerantes às rotinas.

Outros fatos interessantes sobre a psicopatia

Os psicopatas conhecem o significado das palavras, mas cometem erros ao entender seu valor emocional. Em outras palavras, lhes falta a dimensão emocional da linguagem.

Eles preenchem essa carência usando frases que já ouviram outros usarem em situações semelhantes. Frases com que outras pessoas tiveram sucesso e que podem ser totalmente desconexas do seu estado emocional. Eles também costumam embolar suas explicações, falhar em conectar frases de maneira consistente e, graças a uma habilidade aprimorada com a prática, são capazes de se esquivar de perguntas sem levantar suspeitas.

Seu discurso é fragmentado – eles mostram inconsistências e contradições. Por exemplo, um psicopata afirmou em uma entrevista que nunca havia sido violento, mas depois confessou que teve que matar alguém. Como curiosidade, pesquisas mais recentes sugerem que os psicopatas movem mais as mãos, principalmente quando falam sobre aspectos emocionais. 

Por outro lado, eles têm uma definição de consciência muito intelectual. Eles consideram que ela é o produto das normas que outros inventam e que, como a culpabilidade, serve como mecanismo de controle social. Tem muito pouco valor para eles, assim como o amor e a compaixão.

Como vemos, o espectro da psicopatia é misterioso e interessante ao mesmo tempo. Portanto, as pesquisas sobre o assunto são importantes para continuarmos avançando no conhecimento da personalidade psicopata.

“Os psicopatas são predadores que encantam, manipulam e abrem caminho pela vida sem piedade, deixando um longo rastro de corações partidos, expectativas arruinadas e carteiras vazias. Com total falta de consciência e sentimentos pelos outros, eles buscam o que querem da maneira que desejam, sem respeitar as normas sociais e sem o menor traço de arrependimento ou piedade”.
-Robert Hare-

  • Hare, Robert D. (2003). Sin conciencia. El inquietante mundo de los psicópatas que nos rodean. Madrid: Editorial Paidós.