A psicopatologia da consciência

25 Julho, 2020
Embora não exista consenso na definição do construto da consciência, a psicologia definiu os transtornos que envolvem uma "falta de conhecimento do conhecimento próprio". Conheça-os a seguir.
 

A consciência é estudada desde o início da filosofia, e a psicopatologia da consciência surgiu a partir desse estudo. No entanto, 2500 anos depois, ainda não parece haver um consenso sobre a definição desse construto.

Descartes falou de espírito, e seus esforços foram direcionados para entender o que significava para um espírito poder dizer algo sobre si mesmo. Block (1995) falou de dois tipos de consciência, e Chalmers (1998) assumiu que levaria “um século ou dois” para resolver esta questão.

Atualmente, especialistas estudam a consciência psicológica para descobrir se existem correlatos neurais com estados conscientes (Pérez, 2007). As linhas de pesquisa não parecem concordar com o objeto de estudo: devemos nos concentrar nos correlatos dos estados de consciência ou no conteúdo da consciência?

Transtornos psicopatológicos da consciência

Transtornos psicopatológicos da consciência

Embora a definição de consciência não pareça clara, a verdade é que existem transtornos específicos da consciência. Bleuler (1857-1939), um psiquiatra suíço, definiu a consciência como o conhecimento do conhecimento próprio”.

Dessa forma, a pessoa com uma alteração da consciência não consegue responder de forma adequada e compreensível às demandas do ambiente, nem aos estímulos internos. A psicopatologia da consciência é baseada nessa definição.

 

Gastó e Penades (2011, em Santos, Hernángomez e Travillo, 2018) falaram de quatro características da consciência que são especialmente relevantes nos transtornos que apresentaremos a seguir:

  • A subjetividade ou privacidade das nossas mentes.
  • A existência de uma única consciência em cada indivíduo.
  • Todo ato é direcionado a um fim.
  • A autoconsciência, que é a capacidade de se conhecer e se reconhecer como tal.

Os transtornos da consciência são organizados de acordo com a parte do corpo ou do cérebro que eles afetam. O Manual CeDe de Preparação PIR de Psicopatologia (2018) é tomado como um ponto de referência.

Transtornos deficitários da consciência: perdidos em um sonho

A psicopatologia da consciência inclui transtornos de déficit de comportamento. Podemos caracterizá-los como condições do cérebro em que a pessoa apresenta dificuldades para “acordar”, orientar-se e responder à estimulação sensorial. Ela parece perdida no tempo ou letárgica. Existem três tipos de transtornos de déficit de consciência:

  • Letargia, sonolência ou sopor: são indivíduos incapazes de manter a atenção, mesmo que se esforcem para fazê-lo. A letargia não é uma sensação subjetiva de sono por ter dormido mal, mas uma alteração na qual quase não há estímulo físico ou verbal.
  • Obnubilação: a pessoa está em um estado mais profundo de distraibilidade e falta de estímulo. Ela se sente confusa e irritada quando outra pessoa tenta tirá-la desse estado. Há um transtorno em todo o seu funcionamento psicológico. Além disso, há distorções perceptivas, como problemas auditivos ou visuais.
 
  • Estupor: o estupor pode ser visto em condições como a esquizofrenia catatônica. A pessoa abandona todo movimento voluntário e sua verbalização é incoerente e pouco compreensível.

A completa ausência de consciência ocorre quando a pessoa entra em coma, onde os reflexos como o pupilar corneano desaparecem e um eletroencefalograma fica plano por trinta minutos. Nesse ponto, podemos dizer a pessoa não está mais consciente.

Transtornos produtivos da consciência: alucinação em excesso

Na psicopatologia da consciência, também encontramos alterações que sugerem que, embora possa haver consciência, ela está longe da realidade, dando origem a quadros de alucinações e delírios.

O onirismo, ou delírio do sono, é uma confusão entre o real e o imaginário. Ele acontece em todos os transtornos produtivos da consciência. Nessa confusão, a pessoa experimenta estados semelhantes ao sono, intercalados com momentos de lucidez. O onirismo ou confusão podem ser vistos nos seguintes transtornos:

  • Estágio astênico-apático: aparece principalmente em pessoas idosas, precedendo estados tóxicos-confusionais. O estágio astênico-apático pode aparecer em pessoas em risco de sofrer de delirium e é caracterizado por labilidade afetiva, irritabilidade, fatigabilidade e apatia. Também ocorrem alterações nas funções psicológicas, como a memória e a atenção.
  • Estágio confusional: precede o estado confusional agudo ou delirium. Ocorrem sintomas como perda de coerência, distorção da memória, linguagem incompreensível e desinibição de comportamento.
 
  • Delirium: o delirium é uma disfunção cerebral aguda que provoca uma alteração global do estado mental e uma alteração da consciência. Aqui, há claras alterações atencionais e transtornos da percepção, do pensamento, das memórias de curto e longo prazo, da atividade psicomotora e do ciclo sono-vigília.

A mudança de contexto no delirium

O delirium geralmente ocorre em pessoas idosas que são admitidas em um hospital por razões totalmente diferentes. Durante a noite, elas entram em um estado de confusão aguda.

A mudança de contexto e o nível de ansiedade por estar em um hospital provocam essa situação. O sério problema é que os funcionários do hospital muitas vezes não sabem o que fazer. A chave é mudar o contexto.

Transtornos do estreitamento do campo de consciência: divisão entre pensamento e comportamento

Esses transtornos geram uma falta de continuidade entre a percepção e a cognição, mas são caracterizados por comportamentos aparentemente “normais”, embora cheio de automatismos.

Encontramos como o principal transtorno do estreitamento do campo de consciência os estados crepusculares. No estado crepuscular, a consciência está totalmente obscurecida, mas a compreensão do mundo pela pessoa, embora distorcida, é parcial.

O comportamento da pessoa parece estar em harmonia com o ambiente, e isso ocorre porque seu comportamento é um tanto quanto automatizado. Esses automatismos são movimentos involuntários, o que significa que a pessoa os executa inconscientemente. A pessoa sabia como executá-los perfeitamente antes de experimentar esse estado crepuscular.

 

Isso as diferencia das pessoas com esquizofrenia, por exemplo, cujos automatismos levam a comportamentos estranhos.

Os impulsos também podem aparecer nos estados crepusculares. Os impulsos são comportamentos impulsivos sem uma base cognitiva, e isso os diferencia das compulsões que podem aparecer, por exemplo, no TOC.

Uma característica dos estados crepusculares é que eles aparecem abruptamente; no entanto, eles também desaparecem abruptamente. Eles costumam durar algumas horas ou alguns dias, e a pessoa não se lembra de nada relacionado ao episódio.

Homem sofrendo de ansiedade

Alterações circunscritas da consciência: elas não vêm sozinhas

A psicopatologia da consciência também é encontrada em transtornos psicológicos ou neurológicos sem que esse seja o principal problema do paciente. É o caso de alterações como despersonalização e desrealização, que geralmente aparecem em quadros de ansiedade e pânico e quadros neuróticos.

A despersonalização é definida por Cruzado, Núñez e Rojas (2013) como uma alteração da autoconsciência de uma pessoa. A pessoa se sente distante e alheia, e acredita que é uma mera espectadora dos próprios processos mentais e movimentos do corpo. Ela só consegue definir seus sintomas com expressões como “como se”, devido à dificuldade envolvida em fazer essa descrição.

 

A despersonalização, embora encontrada em quadros psicológicos e psiquiátricos, também aparece em pessoas sem alterações devido à exaustão física e emocional, ao estresse ou à privação do sono.

A desrealização é uma alteração semelhante. No entanto, ela implica uma mudança na experiência e na percepção da pessoa sobre o mundo, e não sobre ela mesma.

  • Pérez, D. (2014). ¿La conciencia? ¿Qué es eso? Estudios de Psicología, 28(2), 127-140.
  • Cruzado, L., Núñez, P. y Rojas, G. (2013). Despersonalización: más que un síntoma, un síndrome. Revista Neuro-Psiquiatría, 76(2), 120-125.
  • Santos, J., Hernangómez, L. y Taravillo, B. (2018). Manual CeDe de Preparación PIR, 5ª edición. Madrid, España: CeDe.