Qual é a essência de uma pessoa?

Apesar de todas as mudanças pelas quais passamos, sempre temos a convicção e a sensação de que há algo que permanece, que é sempre reconhecível. Essa é a nossa essência? Qual é a essência de uma pessoa?
Qual é a essência de uma pessoa?

Última atualização: 26 março, 2022

Vivemos em um mundo em mudança, onde todos os dias temos que enfrentar novos desafios. Embora a rotina nos faça acreditar que todos os dias são iguais, na realidade cada dia é diferente do anterior. A realidade muda, e nós também. Então, por que temos menos senso de mudança do que realmente existe?

É justamente essa percepção de imutabilidade e permanência que em grande parte induz em nós essa sensação de permanência. O que exatamente é essa essência? Nascemos com ela ou a construímos? Se nascemos com ela, estamos determinados a ser como somos? Se é uma construção, como vamos construí-la?

O que é essência?

mulher sorrindo

Entendemos por “essência de uma pessoa” o conjunto de qualidades, traços ou características que fazem de uma pessoa o que ela é. A essência é invariável ou praticamente invariável, pois se variasse, a pessoa não seria mais a mesma.

Podemos equiparar esse conceito ao de identidade, que é entendida como um conjunto de crenças, padrões de comportamento e formas de sentir que nos fazem quem somos e nos diferenciam das outras pessoas. Essa identidade torna-se como uma construção que nos proporciona uma sensação de permanência e singularidade.

Mas o que sustenta essa sensação de permanência: nossa constituição física ou nossos traços psicológicos? Vamos ver. Partimos do pressuposto de que a essência é o que é constante, o que permanece na pessoa. Nossa morfologia é invariável? A experiência empírica nos mostra todos os dias que não é. Com o tempo, nosso corpo muda e envelhece. Portanto, essa sensação de permanência não vem da nossa biologia.

As características de nossos traços psicológicos são a base para essa sensação de permanência? Nossos pensamentos mudam, as formas de sentir e vivenciar o mundo variam de momento a momento.

Não somos os mesmos aos 5 anos e aos 20 anos. O desenvolvimento cognitivo e afetivo flutua de uma fase da vida para outra. Então, psicologicamente, nem sempre somos iguais. Existem variações, ainda que pequenas. Portanto, nossa percepção de permanência não vem da experiência direta de nossos traços psicológicos.

Então, se tudo muda: mente e corpo, de onde vem essa sensação de permanência? Da convicção de que não mudamos e do viés de confirmação que nos leva a buscar informações que confirmem tal concepção. Essa crença é aquela que parece permanecer imutável, mas não porque em essência seja assim, mas porque resistimos a mudá-la.

Quando tudo muda e a pessoa não muda, podemos afirmar que não é que a própria pessoa não muda, mas sim que ela resiste a fazê-lo. Isso não deve nos surpreender, todos o fazemos porque a ideia de imutabilidade que associamos à identidade nos dá a segurança de ser alguém. Se estou constantemente mudando, então quem sou eu agora? É melhor evitar a angústia de não saber e sentir a segurança de que realmente sou alguma coisa.

A essência: nascemos com ela ou a desenvolvemos?

Viemos ao mundo predefinidos por uma essência que determina quem somos para o resto de nossas vidas ou construímos essa essência? De uma posição existencial e psicológica, podemos dizer que toda essência é construída a partir da existência. Nas palavras de Jean Paul Sartre, a existência precede a essência. Nós não viemos para este mundo pré-configurados, nós nos configuramos nele.

Então, primeiro existimos, ou seja, emergimos no mundo, aparecemos e entramos em cena numa estrutura social estabelecida, e depois nos definimos: “Sou médico”, “Sou pai de família”, “Sou sou uma pessoa carismática”. Assim, não nascemos já sendo o que somos, somos feitos relacionando-nos com o mundo e com os outros.

Agora, já temos claro que a essência se faz, se constrói. Mas como? Para isso, vamos nos concentrar em uma explicação biopsicossocial, na qual entenderemos que a construção da essência de uma pessoa se faz a partir da interdependência ou inter-relações de diversos fatores: biológicos, psicológicos e sociais.

Construção biopsicossocial da essência de uma pessoa

Nossa biologia é uma parte importante de quem somos. Os genes desempenham um papel importante em nossa personalidade. Assim, uma parte de nossa essência depende da herança genética de nossos pais. Mas essa influência não deve ser entendida como determinante, mas como probabilística. Temos uma predisposição que pode ou não ser ativada dependendo do ambiente.

O fator psicológico desempenha outro papel importante na construção da essência. O que pensamos, o que acreditamos, a forma como nos sentimos e nos emocionamos no mundo configura um padrão cognitivo, comportamental e afetivo de se relacionar e ser.

No plano cognitivo, as narrativas que construímos sobre o que nos acontece e sobre nós mesmos dão origem a uma consolidação dessa essência. Por meio dessas narrativas, mantemos uma história coesa que reforça quem somos.

Esses dois fatores se desdobram em um contexto particular, dentro de uma estrutura social na qual intervêm não apenas variáveis socioeconômicas ou políticas, mas também familiares.

A educação que nossos pais ou parentes nos dão é um elemento chave em quem somos e na ativação de nossas predisposições genéticas. O ambiente estabelece um ideal de ser para nós, reforça-o, molda-o, define-o segundo as suas próprias expectativas.

Pai conversando com seu filho

Comentários finais

Se quisermos definir a essência de uma pessoa ou do ser humano em geral, podemos nos aventurar a dizer que é a mudança e interação do biológico, do social e do psicológico. Embora tenhamos a impressão de que não mudamos ou resistimos para continuar reafirmando o que pensamos ser, isso não implica que não sejamos uma mudança contínua.

Embora seja verdade que alguns elementos em nossa dimensão humana são mais estáveis que outros, como a genética ou o DNA, não devemos tomar como certo que somos imutáveis, porque, lembremos, um único fator não faz a essência, mas sim as inter-relações entre eles.

Qual você acha que é a sua essência como pessoa? Que variáveis biológicas, psicológicas e sociais você considera que fizeram de você o que você é?

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  • Martínez, Y. (2012) Filosofía existencial para terapeutas y uno que otro curioso. Ediciones LAG-Leticia Asencio Villanueva