Quando um parceiro nos separa de amigos e familiares

Muitas vezes, quando o parceiro nos separa dos amigos e da família, não o faz por amor: eles o fazem pela necessidade de possuir, nos isolar e nos tornar dependentes, para, se necessário, poder nos prender.
Quando um parceiro nos separa de amigos e familiares

Última atualização: 20 Março, 2021

Quando o parceiro nos separa de amigos e familiares, ele constrói sobre nós uma prisão com grades invisíveis e dolorosas. Muitas vezes este é um isolamento sutil, mas progressivo. Podemos dizer a nós mesmos que isso é amor, que nada é tão romântico quanto vivermos exclusivamente um para o outro… Porém, aos poucos vamos descobrindo como essa jaula vai nos despojando de toda a nossa rede de apoio.

Sabemos que o assunto não é novo. Sabemos que falar sobre o problema de controle do parceiro talvez seja um tópico muito repetitivo. No entanto, a questão ainda está lá. Acontece todos os dias, independentemente da idade, status ou cultura. É algo recorrente e que se intensifica com mais frequência na população mais jovem, principalmente entre os adolescentes.

Os padrões de violência praticada pelo parceiro nem sempre são tão claros quanto pensamos. Afinal, o abuso não se limita a um tapa, a um insulto, a uma agressão que se pode identificar instantaneamente pelos danos que gera.

Existem dinâmicas mudas, tão perturbadoras que muitas vezes são confundidas com amor. São táticas sutis exercidas por um controle excessivo, por aquela supervisão dos celulares, de estar sempre atento a quem encontramos, com quem falamos e por quanto tempo.

Por mais impressionante que possa parecer, seus efeitos devastadores não tornam este tipo de veneno mais visível. Além disso, há quem o justifique, que veja nessa necessidade de controle uma demonstração de amor, preocupação e afeto sincero.

Agora, é preciso deixar claro que essas realidades são armadilhas que se colocam sob o manto do maquiavelismo e de um abuso psicológico que deixa milhares de vítimas todos os dias.

Mulher presa em frasco

Como um parceiro nos separa da família e dos amigos?

Quando uma pessoa isola seu parceiro do seu ambiente, isso geralmente é feito de forma gradual. Assim, quando o parceiro nos separa da família e dos amigos, o faz por meio de um arsenal de técnicas e ferramentas das quais não teremos conhecimento a princípio: haverá outras interpretações para seu modo de agir que tenderemos a aceitar como boas. E esse é o maior problema.

Então, vamos examinar algumas dessas estratégias.

Manipulação emocional

Uma das maneiras mais comuns de moldar o isolamento é a chantagem emocionalO amor se torna condicional e requer uma série de testes que devem ser enfrentados e demonstrados.

Após frases como “você gosta de ficar mais tempo com seus amigos do que comigo” , segue-se um “se você me ama, deve parar de ver tanto os seus amigos”.

A culpa como ferramenta

O uso da culpa está diretamente ligado à manipulação emocional. No entanto, é preciso notar que esse tipo de truque é a “rainha” do tecido psicológico do abuso.

O peso do fato de o ente querido nos culpar por negligenciá-lo, por não levá-lo em consideração, por menosprezá-lo, por não lhe dar atenção, etc., acaba gerando um impacto evidente.

Aos poucos, uma dissonância cognitiva é criada onde assumimos essas ideias para parar de sofrer, para não experimentar a contradição. Acabamos cedendo, e pouco a pouco, vemos muito menos as pessoas que nos são próximas, de modo que deixamos de sentir o peso da culpa.

Eu tenho o direito de supervisionar a sua vida porque você pertence a mim e eu pertenço a você

Quando o parceiro nos separa da família e dos amigos, ele coloca a gaiola do amor acima de nós. Tudo o que ele faz e diz é o resultado desse amor prejudicial, invalidante e destrutivo.

Isso é algo sobre o qual devemos ser muito claros. Porque quem nos controla e isola está buscando nos possuir com exclusividade, limitar a nossa realidade para que o nosso mundo tenha apenas quatro paredes: as contidas na casa e naquela pessoa.

Isso significa que não faltam frases típicas como “você é minha”, “nós somos um só”, “seu mundo é meu” ou “você é minha e eu sou seu” . Estas expressões podem inicialmente despertar paixão e fascínio, mas esta é uma visão muito perigosa, onde a fiscalização logo aparecerá para tudo o que fazemos e dizemos, para tudo o que vestimos e, sobretudo, para o que fazemos com nossos celulares e nas nossas redes sociais.

Esgotamento mental e emocional

O Dr. Tyrone C. Cheng, da Universidade do Alabama (Estados Unidos), conduziu um estudo sobre como a violência e o abuso psicológico afetam a pessoa. Fatores como o isolamento, infelizmente comum nesse tipo de relacionamento, deixam a vítima em posição de extrema vulnerabilidade.

Vamos pensar que, de repente, toda aquela rede de apoio que existia antes é deixada de lado. Quando o parceiro nos separa de amigos e familiares, perdemos aquela parte da nossa identidade que é moldada pelas pessoas que amamos.

Perde-se o apoio, restringem-se as fontes de auxilio, escuta, lazer, companhia, contato emocional… Tudo isso é devastador e é comum que leve ao desenvolvimento de um transtorno de ansiedade ou depressão.

Esgotamento mental e emocional

No entanto, o mais impressionante é o cansaço. A pessoa entra em uma contínua luta e contradição. Você deve cuidar de todos os aspectos da sua vida para não contradizer ou prejudicar o parceiro controlador, perdendo a identidade, a autoestima e até a dignidade. São estados de grande desgaste que demoram a ser recuperados.

Além disso, caso a pessoa encontre forças (e seu ambiente se responsabilize por agir em seu auxílio) e essa relação danosa termine, o processo de recuperação e “reconstrução” emocional e psicológica é lento e delicado. Leva tempo para reconstruir cada valor perdido, cada manipulação sofrida.

Para concluir, quando o parceiro nos separa da família e dos amigos, é preciso agir. Ele vai nos fazer duvidar de nós mesmos, vai colocar sobre nós o peso da culpa, a sombra do medo e o sentimento constante de que não o amamos o suficiente.

Não devemos nos deixar enganar, porque o amor verdadeiro não causa essa dor, não cria condições e deixa espaço para a pessoa ser e crescer, e para continuar a cultivar laços com aqueles que lhe são significativos e amados.

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