Quando você tiver tocado lá no fundo, só restará subir

· julho 17, 2016

Às vezes nossas vidas mergulham a todo vapor em um precipício que parece implacável. Chegamos no fundo emocional, física, social e profissionalmente e ficamos encolhidos ali, com um medo e tristeza que se tornam resistentes e causam o surgimento de diferentes transtornos da mente.

Todo mundo tem problemas graves, teve dramas ou mesmo tragédias na sua vida, mas estas descrições têm mais a ver com como a pessoa os administra do que com o evento em si. Todo mundo é forte e tem um plano até que experimenta a dor. Não ficamos sem plano, mas é preciso refazê-lo. Quando você tocar fundo pode se sentir perdido.

Aaron Beck, na sua explicação sobre a depressão, faz referência ao conceito de Flecha Descendente e outros recursos como a Técnica da Magnificação Paradoxal para questionar alguns pensamentos irracionais. Pegando como exemplo estas duas técnicas e a sua própria experiência, você perceberá que, ao tocar no fundo, você só poderá subir.

“A verdadeira dor, a que nos faz sofrer profundamente, torna às vezes sério e persistente até o homem imprudente; inclusive os pobres de espírito se tornam mais inteligentes depois de uma grande dor.”

-Fiódor Dostoyevski-

Perceber que o seu erro é o medo

Todo mundo tem medo dos eventos adversos que podem ocorrer, mas quando você já experimentou uma grande dor e sente que tocou no fundo, resta ser consciente de que existem duas opções: continuar nesse estado quase vegetativo e doloroso ou subir. Esta sim é sua decisão.

manipulação

A Flecha Descendente é uma técnica da terapia cognitiva que ensina a selecionar um pensamento negativo e a responder a pergunta: se esse pensamento fosse verdade, o que significaria para você? A resposta seria um novo pensamento negativo. Seria necessário fazer sucessivas perguntas (traçando flechas descendentes), com as quais seriam reveladas crenças contraprodutivas (perfeccionismo, a necessidade de aprovação, medos, etc).

Se você está preso a um pensamento de dor e acredita que chegou ao fundo e nada tem solução, precisa explicar o que significa para você e normalmente aparecerá outro pensamento negativo. Por exemplo, diante de alguém que perdeu um de seus filhos e que tem o pensamento de não conseguir ser capaz de voltar a cuidar dos outros, pergunte-lhe: o que significaria para você a doença de outro filho?

Certamente aparecerá outro sentimento de dor e assim sucessivamente, até chegar à visão mais catastrófica da sua vida. Ainda assim, apesar da dureza do exercício e do que tenha ocorrido, esta pessoa perceberia que poderia suportá-lo e continuar viva. É o seu pensamento que amplifica a dor, muito mais do que o que realmente está acontecendo.

Uma vez chegado este ponto, a pessoa pode perceber que mesmo tendo sofrido um evento devastador, ainda pode sofrer outros, pois nada é certo nesta vida. Inclusive a sua dinâmica de pensamentos derrotistas poderia propiciá-los: pode provocar uma perda de emprego, que o resto dos seus filhos acabem por se afastar. Enfim, perder tudo o que ela preza.

Nesse momento a pessoa percebe que está no território do desânimo, mas não quer descer para o porão. Só resta subir e, além disso, o fará mais facilmente do que pensava. Já tem poucas coisas a perder, somente o medo.

Aumentemos os pesares e vejamos o absurdo da nossa atitude atual

A Magnificação Paradoxal é uma técnica cognitiva na qual se instrui o paciente a exagerar os pensamentos negativos, em vez de tentar brecá-los ou controlá-los. De forma paradoxal, tais pensamentos podem chegar a parecer absurdos e sem sentido. Evidentemente essa técnica dever ser utilizada para pensamentos negativos associados a acontecimentos de relativa gravidade (abordar pensamentos de medo do futuro logo após a perda de um filho não seria plausível com esta técnica).

A Magnificação Paradoxal propõe ao paciente a possibilidade de que ele não está no pior estado no aspecto no qual se sente afetado. Pode se sentir sozinho porque acaba de romper um relacionamento amoroso, mas está muito longe de estar no pior estado de solidão possível, no qual também não poderia contar com seus familiares ou amigos.

Levemos nossa dor ao terror da tragicomédia e vamos rir do absurdo do nosso próprio catastrofismo.

O sofrimento nos torna sábios e a resiliência nos faz fortes

Não existe nada na vida de uma pessoa que possa afundá-la se ela realmente não o permitir. Nós estabelecemos os limites, os tempos e o ouvido atento aos comentários prejudiciais desse tipo de pessoas que opina sem ter passado por nada parecido na sua vida. Cada um tem as “suas coisas”.

Existem pessoas que vivem momentos amargos e acabam amarguradas e amargando os outros. Há outras que transformam a sua amargura na antítese do que desejam para as suas vidas: sabem o que é e não o desejam para eles nem para ninguém. São pessoas de luz, nascidas do lado mais cinzento da sua existência.

mulher-mergulhando-na-agua

Quando ultrapassamos os limites do ridículo, da dor, da humilhação, de nos sentirmos julgados, miseráveis… quando os ultrapassamos e vemos que já sofremos o bastante, alcançamos o verdadeiro sentido de nossa existência. Pois somente quando você já chegou no fundo e compreendeu o processo, percebe que a única opção possível é subir.

Temos a certeza de que já não agiremos por ego, e sim por bem-estar pessoal autêntico, nos retiraremos da competência dos outros para simplesmente lutar pelos nossos próprios sonhos. De tantas coisas passadas e sofridas, o melhor, por pura inercia, está por vir. Apresse-se, saia do lamento, lance-se a viver e simplesmente deixe que chegue. Tão baixo você chegou, agora só pode subir.