Quem anda de fogo em fogo morre de frio

· dezembro 13, 2016

Vamos ser claros. Sim, estou falando de você, que às vezes surge de dentro de mim com vontade de me confundir. Não é verdade que buscar o calor e o fogo de um lado para o outro vai fazer com que os encontremos, assim como também não é verdade que iremos encontrar carinho em todos estes abraços superficiais. Se continuarmos assim, como disse Antonio Porchia, iremos morrer de frio.

A verdade é que estamos presos em um jogo de mentiras: começamos a perseguir corpos que nunca irão nos dar o que precisamos. Creio que é o instante em que paramos. Vou tentar convencê-lo de que não tem problema reconhecer que chega uma hora em que o amor faz falta.

O comportamento do beija-flor

Querido eu, primeiro vou falar sobre o nosso comportamento. Você sabe quais são algumas características que diferenciam um beija-flor dos outros pássaros? Eles são especialistas no seu voo, batem as asas mais de 70 vezes por segundo e têm uma precisão assustadora. É justamente isso que permite que eles fiquem parados em um ponto fixo para alcançar o néctar de uma flor sem tocar ou sem se apoiar nela. Por isso são chamados de “beija-flor”.

beija-flor

E sabe o que acontece? A quantidade de energia que eles consomem para conseguir voar tão rápido é muito alta, e por isso, se eles se alimentarem de maneira pobre, morrem. No entanto, a diferença entre o comportamento de um beija-flor e o nosso é que eles não podem agir de outra forma, mas você e eu podemos.

Esta forma de voo tão cara vale mesmo a pena? Nós voamos, adquirimos o néctar que acreditamos necessitar de outra pessoa sem nos apoiarmos muito nela e fugimos. Queremos um pouco de calor, mas rejeitamos o carinho que chega por trás da pele. Assim, o que acontece é que acabamos por colher unicamente uma satisfação efêmera e depois frio, muito frio.

Frio por fora e vazio por dentro

Frio por fora e vazio por dentro, é isso que sentimos. A frustração do que se encontra completamente perdido e desorientado, daquele que não se reconhece momentaneamente. Mas além da sensação de calor e bem-estar que parece surgir ao se rodear de tantos fogos, nos enchemos de sofrimento emocional.

“Pena que naquela época não haviam
descoberto os buracos negros do espaço,

porque então teria sido muito fácil compreender
que sentia um buraco negro no peito,

por onde se infiltrava um frio infinito.”

-Laura Esquivel, Como água para chocolate-

É verdade que nos dizem que temos que aprender a viver sós, mas claramente nascemos para compartilhar a vida. Gostamos de ter alguém que participe das nossas conquistas e tristezas ou que nos ouça ao chegar em casa. Aquela pessoa para quem podemos ligar, sempre por impulso, quando queremos comunicar algo.

Conheça as suas necessidades atuais

Você estará pensando que havia um tempo em que andar de fogo em fogo valia a pena: nos divertíamos, vivíamos experiências novas e realizávamos os nossos desejos mais íntimos. Neste caso tudo estava bem, porque as necessidades que tínhamos eram outras.

casal-viagem

No entanto, as fraquezas atuais não são essas. Queremos um fogo de verdade que nos afaste do vazio e da solidão que existem ao acordarmos em lugares diferentes todos os dias. Já não somos feitos para isso e você tem que reconhecer. Agora queremos que nos queimem, que nos arda o coração e que nos amem.

É bom ter as ideias claras para poder encaixar as consequências dos nossos atos. Isto é, se desejamos encontrar o calor em outra pessoa, temos que começar a dirigir a vida que levamos de outra forma: vamos nos permitir ser felizes, vamos nos permitir um pouco de amor.