Os três N’s da radicalização: necessidade, narrativa e rede social (network)

· abril 23, 2018

A radicalização é entendida como um processo social e psicológico pelo qual se alcança um compromisso crescente com uma ideologia política ou religiosa extremista. Em outras palavras, radicalizar significa adotar crenças políticas ou religiosas que não são compartilhadas pela maioria das pessoas. Mas, como ocorre a radicalização?

Existem três forças psicológicas cuja combinação pode explicar a radicalização. Estas formam os três N’s da radicalização. A primeira dessas forças está relacionada com as necessidades, as carências que levam à motivação para realizar uma ação a fim de conseguir algo. A segunda força é a narrativa, a ideologia que proporciona crenças que definem o mundo e estabelecem como se comportar. A última força é a rede social (network). Isto é, as pessoas ao nosso redor.

Três casos de radicalização

Maria tem um amor incondicional pelos animais e não suporta a crueldade com eles. Tem interesse por vários grupos de defesa dos animais, mas adverte que eles têm pouco impacto na sociedade. Um dia sente um desejo de se envolver na ação política, então se junta a um grupo ambientalista e se apaixona por seu líder.

Seu pensamento se polariza progressivamente e, por fim, tudo se torna permissível para proteger a vida dos animais. Junto com o resto do grupo, Maria sabota o governo, as pesquisas e as instalações industriais que ela acredita terem violado os direitos dos animais.

Bonecos representando manipulação

Vicente, desde muito jovem, se interessa pela filosofia e as questões sócio-políticas. Através de amigos, descobre um movimento internacional de protesto social que ocorre nas principais cidades do mundo. Se une ao movimento junto com alguns amigos. Semanas depois, durante um dos protestos, Vicente e seus companheiros são presos por atirar pedras em policiais que rejeitaram a onda de manifestantes que exigiam justiça social.

Em uma manhã ensolarada de janeiro, Abu cruzou a fronteira turca no território do EI. Sentiu que era um homem sem nada a perder. Recentemente havia se divorciado de sua esposa e estava lutando contra um vício severo em álcool e cigarro. Estava fora de forma e, definitivamente, não apto para lutar, mas a perspectiva de um trabalho burocrático com o EI no califado significava que ele poderia limpar seu “quadro pecaminoso” e se tornar um bom muçulmano.

A radicalização das necessidades

Para que ocorra a radicalização, uma necessidade deve surgir. Essa necessidade é identificada como a busca pelo significado. As pessoas querem fazer a diferença, ser importantes, ser alguém. Desta maneira, quando surge uma oportunidade de ganhar importância, a busca por significado desperta. No entanto, a importância pode ser obtida de muitas formas não violentas.

Em nossos exemplos, Maria perdeu importância ao se sentir impotente diante do abuso de animais. Vicente tenta não perder sua importância quando seus amigos se unem ao movimento, por isso se junta a eles. Por sua parte, Abu procura ganhar importância com as condições oferecidas pelo EI.

A radicalização da narrativa

Para que na conquista da importância se opte por meios violentos é necessário que a narrativa ou ideologia da pessoa permita a violência. De todas as opções que os sujeitos consideram para adquirir significado, a violência deve ser a primeira e, além disso, deve ser legitimada por suas crenças. Se a ideologia não permite a violência, outros meios são escolhidos para alcançar importância e não ocorrerá a radicalização.

Voltando aos nossos exemplos, Maria radicaliza seu pensamento depois de se unir ao grupo para aceitar que a violência é a única maneira de defender os animais. O movimento ao qual Vicente se une está de acordo com a realização de ações ilegais em favor da justiça social, o que ele acaba aceitando. Para Abu, a ideologia do EI permite a violência a fim de estabelecer um califado islâmico.

Sombra de homem

A radicalização da rede social

Finalmente, algo que os três personagens de nossos exemplos compartilham é que eles não estão sozinhos. Para ser importante, outras pessoas têm que fazer você se sentir importante. O grupo é o que, de alguma forma, dá importância às pessoas. Portanto, o último ingrediente para que ocorra a radicalização é a rede social. Na maioria dos casos, as pessoas se radicalizam junto a outras pessoas.

Maria se apaixonou por um homem radicalizado, Vicente se radicalizou junto a seus amigos e Abu se uniu a uma organização terrorista. Cada um se radicalizou de uma maneira diferente, mas todos têm algo em comum. Todos eles procuravam ser importantes, acolheram uma narrativa que justificava a violência e contavam com um grupo que os acompanhava nessa radicalização.