Qual é a relação entre ego e budismo?

junho 7, 2020
Você sabe qual é a relação entre ego e budismo? O budismo é uma das poucas correntes psicológicas e filosóficas que nega a existência inerente do ego. De acordo com o budismo, a relação que temos com nós mesmos e com os outros pode mudar.

Ego e budismo são dois termos inseparáveis. Aquele que deseja se aprofundar no budismo vai se deparar com o ego como um dos primeiros tópicos. Aquele que deseja se aprofundar no ego vai encontrar no budismo uma das mais profundas correntes filosóficas e psicológicas. O que diferencia o budismo das religiões mais conhecidas no que diz respeito ao ego? A falta da sua existência inerente. Ou seja, de acordo com o budismo, não existiríamos como parecemos existir. Não é interessante?

Grande parte do conhecimento budista visa destronar o ego da sua posição de rei. Existe uma crença de que o ego deve ser destruído, mas isso não é inteiramente verdade.

O ego ocupa uma posição central que controla e domina as nossas vidas. O budismo nos diz para colocá-lo na posição de ministro ou conselheiro. É indiscutível que temos nome, crenças, costumes… mas se o ego nos domina, fazemos dele uma identidade fixa. Por outro lado, se o colocamos na posição correta, ficamos livres de condicionamento e, portanto, mais felizes.

O que é o ego?

Desde que nascemos, nosso ego começa a se desenvolver. Tudo que somos e tudo aquilo com o que nos identificamos forma o nosso ego. Nosso nome, nacionalidade, pertencimento a diferentes grupos, crenças, etc., formam a nossa identidade. Acumulamos todas essas informações graças à nossa memória e fazemos dela o nosso “eu”. No entanto, o budismo nos diz que isso não é de todo certo.

Segundo o budismoo ego é a concepção equivocada do “eu” como uma entidade que existe por si própria. É a ideia da natureza inerente ao ego. A visão do “eu” mantida por uma mente que não compreendeu o conceito de vazio. O que é vazio? A falta de existência inerente a todos os fenômenos.

O que é o ego?

Como disse o mestre zen-budista Linji a seus discípulos: “Meus amigos, não se enganem. Todos os fenômenos, sejam eles mundanos ou supramundanos, carecem de natureza própria. Todos eles são não-nascidos e, portanto, são meras designações, nomes vazios. A expressão “mera designação” é, por si própria, vazia. Por que você toma o nome como verdade? Se você o faz, você está errado?”

É possível que, se você estiver lendo o conceito de vazio pela primeira vez, ache um pouco complexo de entender. Entender a relação entre ego e budismo é uma aventura que nos convida a descobrir novos termos e a mudar ou esclarecer um pouco o significado de alguns que já conhecemos. Então, vamos falar sobre o ego para entender melhor esses dois conceitos.

Buscando o ego: onde está? quem sou eu?

  • Está no meu nome? A resposta é não. Poderiam me chamar de um jeito ou de outro e isso não teria influência no meu modo de ser.
  • Está na minha nacionalidade? Também não. Eu poderia ter nascido em qualquer outro país.
  • Está nos meus pensamentos? Este é um ponto delicado. Muitos afirmam que somos o que pensamos porque dos pensamentos surge a ação. Hoje, no entanto, posso pensar em uma coisa e amanhã em outra. Portanto, um pensamento pode ser mais ou menos duradouro, mas eu não sou esse pensamento. Quantas vezes já mudamos de ideia? Quantas vezes já pensamos que temos pouco valor, mas nosso entorno nos faz ver e acreditar exatamente no oposto?
  • Está nas minhas ações? Nem sempre realizamos as mesmas ações. Podemos cometer erros e aprender. Podemos repetir a mesma ação algumas vezes, mas temos a capacidade de mudar o nosso comportamento. Portanto, não existe uma ação inerente que nos defina, porque também é variável.
  • Está na minha cultura, ou então na minha sociedade? Posso fazer parte de uma ou outra cultura. Isso é aleatório. Além disso, apesar da nossa cultura, também temos nosso modo de ser, nosso próprio modo de pensar. Quando viajamos, lemos, meditamos, estudamos… pode haver uma mudança em nós que muda o nosso condicionamento social e cultural.
  • Está no meu corpo? Em que parte do meu corpo está o ego? Eu sou o meu corpo? Se um dia eu sofrer um acidente e ficar sem as pernas, continuo sendo eu? A princípio, sim, mas sem as pernas. O ego não varia, mesmo que não tenha pernas. Portanto, também não está no meu corpo.

A mente nos define como “algo” (“alguém”) delimitado pelos limites do corpo, que nutre em nós a “crença” de que “estamos no corpo”.
-Enrique Martínez Lozano-

Então, onde está o meu ego? Quem sou eu?

Ego e apego

Como disse o sábio indiano Shantideva no livro Bodhisatvacharyavatara“Quando os seres comuns percebem os fenômenos, eles os consideram reais e não ilusórios. É sobre isso que os meditadores e as pessoas comuns discordam”. Assim, aos poucos nos aproximamos do conceito mais exato de Vazio e de Ego.

Se observarmos uma mesa, podemos pensar: “é uma mesa”. E aqui entram dois níveis de análise: nível relativo e nível absoluto. A nível relativo, podemos dizer que sim, temos uma mesa à nossa frente. A nível absoluto, o discurso muda. Se observarmos atentamente a mesa, podemos começar a decompô-la: quatro pernas apoiando uma tábua. Se desmontarmos a mesa, onde estará a mesa? Não haverá mesa. Se juntamos as peças, em teoria, voltaremos a ter a mesa.

Este exemplo mostra que o conjunto de quatro pernas e uma tábua colocadas e ajustadas em uma posição específica recebe a identidade de mesa. Mas ainda são quatro pernas e uma tábua. Esse exemplo tão simples é aplicável ao ego. Quando nos percebemos de forma estática e invariável, nos apegamos ao nosso ego. O ego e o apego andam de mãos dadas“Eu sou assim”, ouvimos muitas vezes. Nada mais é do que uma declaração sobre a pouca consciência de mudança que todos nós possuímos.

Quando nos apegamos ao ego, nasce nossa identidade férrea e com poucas possibilidades de mudança. No entanto, tudo muda. Quando libertamos a mente de uma identidade estática, nos abrimos a mudanças e circunstâncias externas. Dessa forma, a intensidade do nosso sofrimento diminui.

“Se você está livre do apego, não tem a sensação de que algo realmente lhe pertence”.
-Lama Yeshe-

Ego, egoísmo e egocentrismo

Ego, egoísmo e egocentrismo

Outro aspecto importante é que do ego nascem o egoísmo e o egocentrismo. Ao perceber o mundo a partir do nosso ego estático, queremos que tudo o que acontece se encaixe nas nossas expectativas, com as ideias que temos do que deveria acontecer. “Eu sou assim e as coisas devem ser como eu acho que deveriam ser”. Do ego surge o egocentrismo. Ou seja, tudo deve ser como eu acho que deveria ser. Se algo é diferente das minhas expectativas, sofro, fico irritado, com raiva, etc. E também surge o egoísmo, ou seja, em nosso mapa mental passamos a ser o Sol, pensando no que nos rodeia como elementos que giram ao nosso redor.

Como disse o psicoterapeuta, sociólogo e teólogo Enrique Martínez Lozano: A videira e os ramos, a árvore e o galho, são um ou dois? Um ramo pode dizer, com razão: “Eu sou um ramo”, e também: “Eu sou uma árvore”: eles não são um ou dois; eles são “não-dois”. Ele continua: “dada a incapacidade da mente de entender o não-dois, se alguém deseja acessar a não-dualidade, é necessário silenciar a mente, passando do “pensamento à atenção “. Então, vê-se que a “separação é apenas uma criação mental” e que nada existe separado de nada”.

O que Martínez Lozano quer nos dizer? Que o ego percebe tudo separadamente: “Eu e o resto”. Quando, na realidade, não existe observador, ação de observar nem objeto observado. Tudo é consciência, mas, devido aos nossos pensamentos, contaminamos nossa percepção da realidade.

Dessa maneira, devido a todos os nossos pensamentos e condicionamentos, percebemos o mundo a partir de um ego que criamos pouco a pouco. Mas é um ego artificial. Um ego que não existe como tal, mas forma um conjunto de muitos aspectos que, além disso, mudam.

“Olho, e as coisas existem. Penso e existo só eu”.
-Fernando Pessoa-

Ego e budismo: reflexão final

Disse Antonio Blay: “Existe apenas uma realidade. Mas não a vivemos diretamente, e sim através da mente, e a mente a divide: quando a vê dentro, a chama de “eu”; quando a vê fora, a chama de “mundo”; e quando a vê acima, ele a chama de “Deus”. Diante disso, Martínez Lozano nos dá uma chave: “Experimente deixar de lado a constrição que o levou a se limitar (reduzir-se) à sua mente. O que você é quando, em vez de pensar, simplesmente presta atenção em si mesmo? Seu eu nasce da mente; silencie a mente e você notará como o eu se dissolve; era apenas uma forma”.

Ego e budismo, sem dúvida, são dois conceitos que andam de mãos dadas. Se decidirmos nos aprofundar nesses conceitos, nos daremos conta de um novo horizonte em nossas vidas, de uma nova maneira de nos relacionarmos com os outros. Assim, trata-se de um caminho para nos conhecermos de uma maneira diferente, inovadora e enriquecedora.