Qual é a relação entre saúde e desemprego?

março 2, 2020
Sabemos que o desemprego tem poucas consequências boas. Ele está relacionado com uma piora no estado físico e emocional. Além disso, é uma circunstância que parece prejudicar a saúde.

O trabalho na vida adulta, além de ser uma fonte de renda e representar uma remuneração pelo esforço realizado, promove as relações sociais, constituindo-se como um instrumento para a construção da identidade pessoal. Assim, quando alguém não tem a possibilidade de trabalhar, a sua vida é afetada em muitas áreas. Além das consequências sociais e psicológicas, existe uma forte relação entre a saúde e o desemprego.

Durante anos, houve um grande debate na comunidade científica sobre a relação saúde-desemprego. Por um lado, questionava-se se o desemprego afetava a saúde. Por outro, questionava-se se quem apresenta um estado de saúde pior tem mais probabilidade de acabar desempregado e/ou encontrar um novo emprego.

Um importante estudo sobre o tema descobriu que o desemprego tem um efeito direto sobre a saúde física e mental das pessoas. Por sua vez, foram encontradas evidências menos relevantes de que a saúde tinha influência na hora de encontrar um trabalho. Sendo assim, podemos concluir que esta é uma relação bidirecional.

Homem que perdeu o emprego

O desemprego piora a saúde

Não há dúvidas de que o desemprego atua como um estressor importante na vida, já que é uma situação incontrolável com duração indeterminada. Além disso, pode ser causado por um agente externo e comprometer o acesso a múltiplos reforçadores.

Como se já não bastasse, é necessário que a pessoa ponha em prática uma série de recursos pessoais para se adaptar e mudar a sua situação.

Alguns dos fatores de estresse relacionados com o desemprego são a falta de recursos financeiros, problemas familiares, problemas de relacionamento, busca de emprego, busca de ajuda e recursos, enfrentar possíveis rejeições, etc.

Quando vivemos uma situação estressante, principalmente quando permanecemos nela durante um longo período de tempo, ocorrem mudanças no nosso organismo para que possamos enfrentar o problema da melhor maneira possível.

Então, o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) provoca a liberação do hormônio cortisol. Esta reação é natural; no entanto, uma ativação repetida provoca alterações na atividade e nos níveis de cortisol.

Estas alterações têm sido relacionadas com inúmeras doenças, assim como o desemprego tem sido associado a padrões anormais de secreção de cortisol. Além disso, estes padrões são diferentes em função da idade e do sexo, indicando que, mesmo que o desemprego afete a todos, não afeta da mesma maneira.

“O trabalho é saúde”.
-Ditado popular –

Consequências

O desemprego tem sido relacionado com uma piora do estado geral de saúde. Mesmo que em algumas sociedades este ponto esteja relacionado com a falta de seguro de saúde ou de recursos financeiros, nota-se que estes efeitos são independentes da assistência médica recebida.

Os desempregados, além disso, apresentam um estado de saúde subjetivo significativamente pior do que as pessoas empregadas.

Com relação aos problemas físicos, não é surpresa que as alterações físicas de saúde que têm sido relacionadas ao desemprego estejam relacionadas ao estresse crônico, assim como os riscos de acidente cardiovascular, obesidade ou diabetes. Outra consequência associada é o consumo de substâncias viciantes, como álcool e drogas.

Além disso, existem inúmeras consequências para a saúde psicológica, diminuindo o bem-estar, a autoestima, o estado de espírito, aumentando os níveis de ansiedade e, inclusive, provocando mudanças de personalidade.

Mulher desempregada

A saúde afeta o desemprego

Os estudos também têm focado a influência da saúde mental na capacidade de conseguir um emprego. Levando em consideração que o desemprego supõe uma série de prejuízos para a saúde mental, a pessoa desempregada se encontra em um círculo vicioso muito complicado de sair.

Ou seja, uma pessoa com uma saúde mental pior teria uma probabilidade maior de perder o emprego, e também mais dificuldades para encontrar um trabalho. Além disso, haveria inúmeras possibilidades de que sua saúde piorasse entre um evento e outro.

Assim, um nível alto de mal-estar está associado a um maior risco de perda do emprego, assim como o mal-estar na infância tem sido relacionado com o desemprego na vida adulta.

Também foi observado que as pessoas com um menor nível de depressão tinham uma probabilidade maior de encontrar emprego, principalmente no caso dos homens. Uma pesquisa nacional realizada na Austrália descobriu que a saúde mental dos homens estava relacionada com a duração do futuro emprego, mas que não aumentava ou diminuía esta probabilidade.

Apesar disso, na maioria dos estudos foram utilizadas amostras da população clínica. Portanto, seria necessário contrastar esta informação com amostras da população geral.

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  • Vélez Coto, M., Valls Serrano, C. & Caracuel, A. (2019). Estrés en el desempleo: ni oficio ni beneficios. En Peralta-Ramírez, I.M. Un villano llamado estrés. Madrid: Pirámide