Relações e tensões durante o confinamento

maio 22, 2020
É normal surgirem tensões na convivência durante o confinamento, especialmente quando o espaço é limitado ou quando há conflitos prévios não resolvidos. É importante conversar e desatar esses nós para que a convivência não se torne um pesadelo.

Inicialmente, a quarentena não tinha motivo para se tornar um problema sério para a maioria de nós. No entanto, as restrições impostas acabaram criando tensões nas relações durante o confinamento. Nesse sentido, vale a pena examinar qual é a origem do problema, para poder intervir de maneira precisa.

No começo, ficar em casa com o parceiro ou com a família envolvia apenas um certo ajuste de hábitos e uma renovação das relações. O que acontece, porém, é que muitas das tensões que surgem durante o confinamento já existiam antes, mas a força da convivência acaba tornando a coisa mais forte e clara.

A situação atual é produto de uma mudança repentina, que exigiu adaptações rápidas. Além disso, o contexto é de incerteza, e por isso é de se esperar que fiquemos angustiados.

Tanta pressão torna as pessoas mais irritáveis e mais difíceis. No entanto, não é preciso chegar a um ponto de conflitos graves no qual as relações se perdem no meio de brigas e tensões.

“Não há nada a se temer na vida, só é necessário entender. Agora é o momento de entender mais, para que possamos temer menos”.
-Marie Curie-

Casal brigando na quarentena

Tensões nas relações durante o confinamento

A quarentena intensifica o contato entre as pessoas que vivem na mesma casa e, além disso, impõe restrições. Com certeza toda família e todo casal tinha, antes desse momento, muitos hábitos e determinações relacionadas aos espaços e aos recursos disponíveis dentro de uma rotina em comum. Com o confinamento, a primeira coisa que muda é exatamente essa.

O espaço que antes era compartilhado apenas parcialmente agora se torna um cenário constante, no qual há uma convivência intensa. A mesma coisa acontece com os recursos disponíveis, como computador, televisão e inclusive os espaços sociais.

Se as duas partes têm disposição para conversar e se adaptar, as tensões durante o confinamento conseguem ser resolvidas de forma relativamente rápida. É preciso chegar a acordos razoáveis, nos quais cada parte cede em algo para o bem comum. A ajuda mútua é imposta sobre o interesse individual, porque estamos falando de um casal ou de uma família.

Tensões crescentes

É claro que nem sempre as conversas e negociações produzem os melhores resultados e chegam a um acordo satisfatório. Em vários países, especialmente da América Latina, os índices de violência intrafamiliar aumentaram durante o confinamento.

Muitas vezes, os maus-tratos acontecem entre os membros do casal, mas também podem cair sobre as crianças. Em muitos casos, a quarentena não é a responsável por algo assim ocorrer. Geralmente, as relações já possuíam problemas do tipo antes dessa situação.

As tensões durante o confinamento se intensificam e, ao mesmo tempo, os recursos para geri-las se tornam mais escassos. Nesses casos, os conflitos latentes se tornam mais perigosos do que nunca, já que podem explodir a qualquer momento, tornando a convivência até mesmo insuportável.

Antes, as pressões podiam ser um pouco aliviadas ao nos afastarmos fisicamente. O confinamento destrói essa estratégia de evasão, o que, por sua vez, aumenta as pressões. Adicionalmente, os conflitos só são assumidos quando as pessoas estão prontas para fazer isso, e não quando são obrigadas a encará-los. O que fazer nessa situação?

Mãe e filha brigando na quarentena

Ganhar terreno

As tensões que surgem nas relações durante o confinamento não vão desaparecer como num passe de mágica. Tudo depende do tipo de conflito e da intensidade do mesmo.

Uma coisa é lidar com a incompatibilidade de uma característica e outra, por exemplo, é lidar com uma pessoa viciada o dia todo ao seu lado. Do mesmo modo, uma coisa é tolerar a indiferença ou a indolência de outras pessoas, e outra é lidar com a agressividade e a violência.

Em situações nas quais há possibilidade da integridade física de uma pessoa estar em risco, a melhor opção é pedir ajuda externa ou buscar uma maneira de se mudar, pelo menos de forma temporária. Não é necessário esperar que as coisas cheguem a algum ponto extremo para tomar uma decisão.

Se o conflito não chega a esse extremo, a melhor solução é começar a delimitar e respeitar espaços. Isso supõe elaborar horários para o uso de espaços comuns e dos recursos disponíveis. Se é muito difícil conviver, a ideia de criar uma rotina que permita administrar o está disponível sem precisar interagir constantemente também é boa.

Há muitos psicólogos que estão oferecendo seus serviços, inclusive de maneira gratuita e virtual. Diante de uma tensão coletiva difícil de superar, pode ser uma boa ideia consultar um desses profissionais e tirar proveito das suas indicações. Para algumas pessoas, inclusive, esta pode ser uma oportunidade de solucionar os problemas que estão pendentes.

Valdés, T., Valdés, X., Ambrosio, V., Arriagada, I., Jelin, E., García, B., … & Saavedra, R. (2005). Familia y vida privada:¿ Transformaciones, tensiones, resistencias o nuevos sentidos?. FLASCO-Chile.