Algumas reuniões familiares nos fazem voltar a ser quem já não somos

· outubro 8, 2017

Às vezes, as reuniões familiares podem nos fazer sentir como se fôssemos alguém que já não somos mais ou que nunca fomos. Aos olhos dos nossos pais talvez continuemos sendo aquela criança indecisa ou aquele adolescente rebelde “respondão”. Às vezes, para os nossos progenitores, continuamos sendo as mesmas crianças do passado, mesmo quando já somos adultos independentes.

É comum dizer que não existe maior tempestade do que aquela que irrompe das clássicas reuniões familiares de férias ou Natal, por exemplo. No entanto, e como já sabemos, existem famílias de todas as cores e sabores. Há aquelas em que reina a harmonia, o respeito e o bom humor e também há aquelas em que o rancor se mantém cravado como pequenos espinhos nesses vínculos rígidos e nada funcionais que roubam o fôlego e atormentam.

“Todas as famílias são felizes e infelizes à sua maneira.”
-León Tolstói-

No entanto, muito além de considerar essas realidades como algo pontual, há um fenômeno por trás disso e sobre o qual não se fala muito. Nos dias de hoje, devido à crise econômica, é comum que muitos jovens que tinham conquistado sua independência se vejam sem outra alternativa a não ser voltar a morar na casa dos pais.

Frequentemente, à sensação de fracasso no campo profissional se acrescenta algumas vezes o fato de precisar assumir um papel que já tinha ficado para trás. Um papel às vezes construído pelas próprias dinâmicas familiares e que pouco tem a ver com a pessoa que somos hoje.

Como lidar com as reuniões familiares?

A família e suas construções inconscientes

Para os nossos pais, tios ou avós, uma parte da nossa infância continua presente. Continuamos, de alguma maneira, sendo o irmão do meio, que passava o dia todo imitando o irmão mais velho e invejando os benefícios do mais novo. Pode ser até que na sua memória ainda esteja viva a lembrança daquilo que eles chamavam de “mau humor” porque éramos muito desafiadores, incontroláveis e revoltados.

Quando na verdade, talvez tenha sido esse temperamento que nos levou a ser quem somos hoje: pessoas proativas, criativas e dinâmicas, qualidades que nos proporcionam grande satisfação. Características que no passado enxergávamos como negativas devido aos constantes comentários dos nossos pais, nos pedindo para que “mudássemos”, para que “melhorássemos” até que pouco a pouco percebemos que não tínhamos por que fazer isso. Porque não eram defeitos, eram verdadeiras virtudes.

No entanto, e isso acontece muitas vezes, ao voltar para casa ou ir a reuniões familiares, basta dizer ou fazer alguma coisa para ouvirmos novamente coisas como “mas como você é pouco flexível, que personalidade você tem…de onde será que veio?”.

Jovem usando vestido de bolinhas

Quase sem saber como, voltamos ao papel do passado, o papel de filho rebelde ou conformista. As conquistas do presente não importam, assim como não importa o quanto somos orgulhosos de nós mesmos porque em muitos núcleos familiares existe a tendência inconsciente de atribuir aos seus membros seus papéis do passado, aquela posição autoconstruída pelos nossos progenitores.

Esse tipo de acontecimento tão comum tem de fato uma explicação muito interessante. Em um estudo na Universidade de Illinois foi explicado que no interior de um sistema familiar quase nada funciona de maneira independente.

Em qualquer família existe um conjunto de regras e construções inconscientes nos quais cada membro deve se comportar de acordo com o esperado. Ao mesmo tempo, são criados padrões com base nos quais se espera que cada um aja, assim como acontecia no passado.

Uma coisa, sem dúvidas, muito complexa quando por vezes nos vemos na situação de precisar voltar para casa por causa de problemas financeiros ou pessoais.

Nas reuniões familiares, devemos agir como os adultos que somos hoje

Às vezes basta entrar pela porta da casa da família para sentir que estamos de volta ao passado. Em algumas situações essa situação é agradável, até mesmo reconfortante. No entanto, para muitas pessoas as reuniões familiares pressupõem retomar conflitos não resolvidos, reviver diferenças que viraram verdadeiros oceanos de distância ou até mesmo assumir de novo um papel que já haviam deixado para trás.

  • Devemos tentar não cair nessa armadilha. A melhor forma de voltar a esse núcleo familiar é sendo quem somos agora: adultos maduros, adultos com uma história de vida própria, com aprendizados absorvidos, com virtudes e qualidades.
  • É dessa maneira que podemos encarar aqueles preconceitos e até mesmo aqueles arquétipos que em determinado momento nossos pais criaram: O Luís é o esportista, a Carmen é a rebelde, o Alberto é quem apanhava na escola e quem precisava ser defendido.
  • No entanto, pode ser que o Luis tenha escrito poemas escondidos a vida toda e que hoje queira ser dono de uma biblioteca. Pode ser que a Carmen fosse pouco rebelde e que tenha se sentido muito irritada durante uma boa parte da sua juventude. E mais, pode ser que o Alberto, aquele menino magrelo que era perseguido no recreio, hoje esteja prestando concurso para ser um policial.
Reuniões familiares

O que nós fomos ou o que os outros acreditaram que nós éramos no passado pouco tem a ver com quem somos hoje, e isso deve ser entendido pelas pessoas que fazem parte do nosso meio social. Está nas nossas mãos fazer com que eles vejam e percebam isso, evitando assumir novamente o papel que a nossa família espera e conseguir, assim, mudar os padrões do passado que apenas geram insatisfação.

Porque poucas coisas podem ser mais saudáveis em uma família do que desfrutar da liberdade com a qual mostramos quem nós realmente somos.