Round 6: qual é o segredo do seu sucesso?

Round 6 já é um fenômeno social. Esta série revela pistas obscuras e interessantes sobre o nosso mundo atual, a respeito das quais vale a pena refletir...
Round 6: qual é o segredo do seu sucesso?
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater em 15 Novembro, 2021.

Última atualização: 15 Novembro, 2021

E se o seu jogo favorito da infância fosse sangrento e mortal ao mesmo tempo? Essa é a premissa do último grande sucesso da Netflix: Round 6.

Esta produção sul-coreana é uma alegoria poderosa sobre o nosso presente e a sociedade altamente competitiva e desigual. O que é inovador é que eles nos mostram isso através das lentes simples e retumbantes dos jogos infantis.

Algumas pessoas comparam esta produção com títulos como The Hunger GamesBlack Mirror. É inevitável voltar a essas mesmas narrativas, é verdade. No entanto, Hwang Dong-Hyuk, o diretor e criador desta produção, explica que já tinha o roteiro de Round 6 escrito em 2008, mas o achou muito violento e não comercial e decidiu engavetá-lo.

Só recentemente ele percebeu algo: o mundo de hoje está se tornando mortal de várias maneiras. De repente, aquela história escrita há mais de dez anos fez sentido. Ele a apresentou ao Netflix e os diretores do gigante do streaming não se opuseram ao conteúdo mais explícito.

Hwang estava completamente livre para mostrar o que queria. E ele o fez. O resultado foi um sucesso absoluto.

Cena de Round 6

Elementos para entender o sucesso de Round 6

Round 6 foi lançado há poucas semanas e já está nas primeiras posições entre as séries mais vista do Netflix. Vemos frames, memes e referências a essa produção a todo momento em nossas redes sociais. A mídia já pergunta ao seu criador se vai haver uma segunda temporada – parece que, por enquanto, a resposta é negativa.

Agora, por que a série causou tanto rebuliço? O que é necessário para cativar milhares de pessoas em todo o mundo? O enredo, à primeira vista, é simples e interessante ao mesmo tempo.

Seong Gi-hun é um homem de meia-idade que vive atormentado por vários dramas pessoais. Ele mal vê a filha e tem uma dívida significativa com os agiotas. A certa altura, conhece alguém muito singular em uma estação de trem.

Este homem sugere que ele participe de algo que pode mudar a sua situação financeira. Gi-hun pondera e finalmente concorda. Logo, ele é pego por um veículo onde fica inconsciente, e acorda com outras pessoas em um depósito, usando um agasalho numerado.

Round 6 nos mergulha em um microuniverso semelhante a um inferno distópico, no qual imediatamente sentimos empatia pelas lutas dos personagens.

Uma fábula sobre a sociedade capitalista moderna

Round 6 é muito mais do que um violento exercício de sobrevivência. É uma fábula sobre as sociedades atuais, a competitividade e também as diferenças de classe. De alguma forma, nos lembra o aclamado filme Parasita, uma metáfora reveladora e chocante sobre as realidades sociais de quase todos os países.

Vivemos em um mundo onde algumas elites são obscenamente ricas e outros perdem a vida por dinheiro. É muito fácil se identificar com os protagonistas dessa produção. Na verdade, era isso que seu criador procurava: que seus personagens fossem conhecidos por nós, que todos pudéssemos reconhecer esses perfis em nós mesmos ou nas pessoas ao nosso redor.

São figuras pelas quais temos empatia quando os vemos presos em um cenário distópico. É como um dos círculos do inferno de Dante onde ninguém parece sobreviver.

Os jogos são simples, a organização complexa

Os jogos são simples, seguem regras muito básicas e são fáceis de compreender. Isso nos permite focar nossa atenção em como os personagens se desenvolvem, em como eles se aliam, se traem… Porém, nosso olhar não pode deixar de nos vincular a quem perde. Muitas vezes, temos a sensação clara de que ninguém ganha e isso adiciona ainda mais drama e interesse ao desenvolvimento da série.

Da mesma forma, não podemos deixar de fazer referência à organização dos próprios jogos. Ela nos lembra muito a sociedade de um formigueiro. Round 6 é executado por homens mascarados que diferem uns dos outros por diferentes desenhos em suas máscaras.

Aqueles que carregam um círculo, por exemplo, são os operadores básicos. Aqueles com máscaras triangulares são os soldados armados, e aqueles com máscaras quadradas são os gerentes. São como formigas operárias servindo a um propósito sangrento.

Por outro lado, deve-se destacar que o ritmo e a atmosfera são perfeitos, assim como o próprio roteiro e a direção dos atores. Por mais assustados que estejamos, por mais violência que vejamos… É inevitável ir de um capítulo a outro prendendo a respiração e dando rédea solta à expectativa.

Conforme a trama da série avança, é inevitável sentir-se apegado a determinados personagens e intuir quem acabará sendo eliminado no próximo jogo.

Cena de Round 6

Round 6 e o Experimento da Prisão de Stanford de 1971

A série de Hwang Dong-Hyuk nos leva de volta a dois conceitos teóricos e psicológicos muito específicos. Por um lado, temos a clássica teoria dos jogos de soma zero, aquela abordagem em que os ganhos ou perdas de um participante são equilibrados com os do outro jogador. Ou seja, na vida só existem vencedores e perdedores, e isso, de certa forma, favorece o equilíbrio da sociedade.

Por outro lado, ao assistir Round 6, é inevitável lembrar do famoso experimento conduzido por Philip Zimbardo em 1971. Este psicólogo nos mostrou, com seu polêmico RPG nos porões da Universidade de Stanford, que a bondade pode ser manipulada. Ele nos mostrou que às vezes, quando não podemos questionar certas regras, nos tornamos escravos ou carcereiros.

Para concluir, esta criação da televisão não apenas nos permite entender melhor a sociedade sul-coreana, mas também nos obriga a refletir sobre vários aspectos deste mundo complexo e cada vez mais distópico.

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