Sabrina Spellman: conheça a nova versão da bruxa adolescente

novembro 19, 2019
Diante de uma nova realidade, é preciso se reinventar. É isso que aconteceu com a popular bruxa adolescente Sabrina, que se adaptou aos tempos atuais. Com uma visão mais obscura, as aventuras da jovem bruxa escondem uma metáfora da nossa própria realidade. Conciliar culturas, mudanças e novos pontos de vista: é isso que a nova Sabrina nos propõe.

Sabrina Spellman é uma personagem da série Archie da Archie Comics. A sua popularidade fez com que surgissem diversas versões da mesma, e talvez a mais conhecida até pouco tempo atrás fosse a adaptação televisiva que recebeu o nome de ‘Sabrina, Aprendiz de Feiticeira’ (1996).

Durante os anos 90, Sabrina, interpretada por Melissa Joan Hart, gozou de uma grande popularidade. Atualmente, uma nova versão da jovem bruxa chegou às nossas telas, desta vez pelas mãos da Netflix.

Em ‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ (2018) os tempos mudaram e o tom divertido e inocente dos anos 90 desapareceu, dando lugar a uma série mais obscura e inquietante. Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) precisa escolher entre dois caminhos, dois mundos: o mortal e o das bruxas.

A série está cheia de alusões ao mundo dos quadrinhos, à cultura popular e também ao satanismo, desenhando, desta forma, um entorno mais tenebroso, embora com um certo ar retrô.

Estamos diante de um ambiente muito obscuro, com elementos que nos remetem ao passado, roupas mais características dos anos 60 do que da atualidade, o que faz com que seja difícil saber em que época realmente nos encontramos.

‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ deixa de lado o tom alegre e inocente dos anos 90. Não se trata mais de uma comédia para toda a família. Apesar do elemento mágico e fantástico da série, também há menções a temas da atualidade, como o bullying.

Ainda assim, sem dúvida o centro da série é Sabrina e, como consequência, a dualidade encarnada pela personagem: metade bruxa e metade mortal.

Deixando a infância para trás

Vivemos em um período em que há um número incontável de séries televisivas, e a forma de consumi-las mudou muito. Não buscamos mais séries com risadas entaladas, e sim algo mais profundo.

Ao mesmo tempo, a série em questão mantém o tom cômico dos anos 90, mas neste caso, com toques de humor negro, onde a morte será motivo de riso e a própria religião das bruxas nos levará a situações impensáveis.

Um dos elementos que faz falta nesta nova Sabrina é Salem, um mago que havia sido condenado a viver no corpo de um gato e, como consequência, conseguia falar, era egocêntrico e se transformou em um grande conselheiro da jovem bruxa, proporcionando uma grande nota de humor.

Com a nova adaptação, a essência do personagem se perdeu. Não se trata mais de um gato que fala, e sim de um gato relativamente comum. As bruxas possuem um “familiar”, uma espécie de animal protetor que irá ajudá-las em seu caminho, e esta é a função do novo Salem.

Cena de 'O Mundo Sombrio de Sabrina'

Ambrose, primo de Sabrina, é o personagem que substituirá, de certa forma, Salem, transformando-se no novo conselheiro de Sabrina. Uma das inovações da série da Netflix é que ela se adapta perfeitamente aos novos tempos, às novas necessidades do público.

Longe de nos apresentar personagens totalmente normativos, arquetípicos e irreais, oferece personagens de todos os tipos, aproximando-nos, um pouco mais, da realidade. Sabrina é uma protagonista imperfeita, comete erros em diversas ocasiões e enfrenta muitos dilemas morais.

Foram mantidas, por outro lado, duas personagens igualmente emblemáticas e inesquecíveis: Zelda e Hilda. Ambas seguem encarnando os valores que apresentavam nos anos 90: Hilda é a inocente e brincalhona, enquanto Zelda é a contraparte séria e responsável da dupla.

No entanto, desta vez, ela manifesta valores bastante conservadores e uma grande devoção pela Igreja da Noite. Apesar das semelhanças, elas não moram mais naquela casa branca e alegre dos anos 90, e sim em uma casa escura e gótica onde gerenciam uma funerária.

Sabrina Spellman, uma jovem batalhadora

A adolescência é uma etapa cheia de perguntas, de mudanças, de incertezas, de decisões… Sabrina, como qualquer adolescente, começa a questionar o mundo que a rodeia, mas além disso, precisa lutar para unir suas duas culturas.

Devido a sua origem dupla, bruxa e mortal, Sabrina vai frequentar dois centros diferentes: uma escola e a academia de bruxas. Por mais que as duas culturas sejam distintas, ela vai enfrentar problemas muito parecidos nos dois centros, como o bullying e a exclusão das minorias.

Na escola, vemos que o entorno de Sabrina é variado. Suas melhores amigas são Roz, uma jovem negra que, assim como Sabrina, vai enfrentar o sistema, e Susie, uma vítima de bullying pelo fato de se identificar como gênero não binário.

Ou seja, estamos diante de um grupo minoritário que precisa buscar o seu lugar e enfrentar os problemas decorrentes de não se adequar à “norma” social.

Sabrina no Netflix

Os personagens são muito bem desenhados, e há um aprofundamento em suas vidas e em seu passado. Junto com o personagem de Ambrose, que se identifica como pansexual, são uma verdadeira revelação no universo televisivo.

Diante das injustiças e da situação de inferioridade sofrida pelas mulheres da escola, Sabrina funda, junto com suas amigas, uma organização que recebe o nome de WICCA (em uma clara alusão à religião pagã vinculada à bruxaria).

Graças a esta associação, as mulheres vão ter um lugar para se reunir, onde podem ler livros e comentá-los, além de se defender das injustiças e enfrentar o patriarcado.

Esta imagem de Sabrina como batalhadora e reivindicativa também está presente no mundo das bruxas; na academia, ela precisa enfrentar sua condição de minoria (consequência da sua origem dupla) e os abusos das Irmãs Estranhas.

Sabrina, por sua vez, vai precisar decidir entre entregar sua alma a Satã e pertencer para sempre à Igreja da Noite ou renunciar ao seu poder.

A dualidade de Sabrina Spellman

A nova adaptação de Sabrina Spellman apresenta uma metáfora do nosso próprio mundo, onde os choques culturais e geracionais são os encarregados de desencadear os conflitos. Apesar dos dois mundos serem opostos, os conflitos são os mesmos.

No mundo das bruxas, o Sumo Sacerdote e a tia Zelda encarnam os valores mais arcaicos da Igreja da Noite; nunca questionam nada e se alteram diante de uma mínima mudança.

No mundo dos mortais, grande parte dos habitantes de Greendale vem de famílias que apoiaram a queima das bruxas. Os amigos de Sabrina, especialmente seu namorado Harvey, possuem um passado arraigado na perseguição à bruxaria.

No entanto, parece que os personagens mais jovens não têm preconceitos e não se deixam levar pelas imposições socioculturais. É o que vemos, por exemplo, na relação de Sabrina com sua família e na de Harvey com seu pai.

Cena da nova série de Sabrina Spellman

As novas gerações cresceram em um entorno diferente onde os valores também mudaram. Sabrina não quer renunciar a ser bruxa, mas também não quer deixar de ser mortal. Ela vai tentar, embora com dificuldade, conciliar as duas tradições. Nunca é fácil unir duas culturas, muito menos na adolescência.

A série apresenta uma infinidade de questões morais. Sabrina nem sempre acerta e, em alguns casos, se deixa levar sem pensar nas consequências. Ela cresceu conhecendo sua natureza dupla e não quer renunciar à sua identidade.

Por que escolher? Por que ser uma coisa a impede de ser outra? Por que não conciliar as duas identidades? E, sobretudo, por que manter uma tradição que, na atualidade, não faz mais sentido? Também há questões vinculadas ao livre arbítrio e ao próprio destino da jovem bruxa.

Sabrina denunciará algumas das tradições mais ancestrais da Igreja do Norte, como os sacrifícios humanos. Ela vai demonstrar que as gerações jovens cresceram de outra maneira e estão abertas à mudança.

Em definitiva, estamos diante da reinvenção de uma personagem clássica que, sem perder a sua essência, soube se adaptar às novas exigências da nossa contemporaneidade. 

“Eu quero as duas coisas: liberdade e poder”.
-Sabrina-