O silêncio na psicologia

Existem muitas ferramentas terapêuticas na psicologia. No entanto, uma muito esquecida e útil é o silêncio. Se você souber criá-lo e administrá-lo, o silêncio ajuda muito nos processos terapêuticos.
O silêncio na psicologia

Última atualização: 15 Abril, 2021

O silêncio é um elemento que pertence à comunicação. Embora muitas pessoas acreditem que os silêncios são espaços vazios ao se comunicarem, eles têm significado. Isso é entendido por meio do próprio contexto. Ele é importante em diversas áreas, mas hoje falaremos especificamente sobre o silêncio na psicologia.

É curioso como encontramos silêncio em situações tão diversas, como ritos religiosos, sinais de luto, demandas de todos os tipos, conversas privadas… Agora, se esse elemento é especialmente importante em uma determinada área, é na psicologia. O silêncio na psicologia pode ser uma ferramenta muito útil a serviço dos terapeutas.

O silêncio na cultura do barulho

O silêncio não tem o mesmo significado ou importância em uma cultura e em outra. A cultura ocidental não é especialmente rica em momentos de silêncio, talvez por não termos hábitos ou costumes que nos convidem à reflexão e ao autoconhecimento.

Na série de televisão Merlí, encontramos um grande exemplo do significado do silêncio. Esta série conta as aventuras e desventuras de um professor de filosofia e a sua maneira particular de ensinar.

No seu primeiro capítulo, intitulado Os Peripatéticos, um aluno pergunta se estamos todos preparados para filosofar. Merlí responde com um silêncio de vinte e cinco segundos, com a mão no queixo e o olhar fixo no nada. Depois disso, ele explica que ficou calado para mostrar que quando alguém pensa, as pessoas olham torto.

Cena da série 'Merli'

O poder do silêncio

Por não ter um conteúdo lexical, os silêncios podem parecer inócuos ou até inúteis, mas são muitas as situações em que o silêncio pode nos ajudar no nosso dia a dia. Além disso, os seres humanos precisam de silêncio em todos os níveis.

É comum que, quando uma pessoa fica chateada e começa a discutir com outra, a tensão aumente. Se essa tensão for alimentada com uma resposta, o seu crescimento será mais pronunciado e mais longo com o tempo.

No entanto, se optarmos por permanecer em silêncio e ouvir educadamente os argumentos da outra pessoa, mesmo que não sejam compartilhados e mesmo que não sejam expressos corretamente, contribuiremos para que a fase de tensão diminua muito mais rapidamente, por não ser reforçada.

Se formos além, os silêncios são necessários porque há situações na vida que não predispõem ao uso da palavra. É o que ocorre diante de uma perda muito recente, por exemplo. As palavras assumem uma dimensão ridícula em comparação com a intensidade emocional desse tipo de situação.

Portanto, o silêncio é uma forma de comunicar e, ao contrário do que você pode pensar, não significa estar ausente. Na verdade, nesses tipos de situações, significa o contrário: estar presente, apoiar e mostrar respeito.

O silêncio na psicologia

Na psicologia clínica, os silêncios são decisivos. Por quê? Por meio das sessões de terapia, o intuito é evocar mudanças que favoreçam a saúde mental das pessoas. Essas mudanças geralmente ocorrem por meio das reflexões dos pacientes ou clientes sobre a sua situação, suas opções, o que podem ou não fazer a respeito, etc. Essas mudanças costumam ser evocadas por meio de palavras, argumentações e questionamentos do profissional. No entanto, elas também podem ser evocados por silêncios.

Apoio do terapeuta

Os silêncios em um contexto clínico estimulam a reflexão, o pensamento e a pausa. Nosso dia a dia costuma ser agitado, cheio de estímulos, de todos os tipos de pressões, e não costumamos ter espaços que nos ofereçam silêncio. Além disso, no consultório de psicologia, o silêncio pode servir como uma técnica de espelhamento.

Por exemplo, quando uma pessoa faz uma pergunta ao terapeuta, se ele responde com um silêncio devidamente executado, pode fazer com que a pergunta formulada com o intuito de saber uma resposta do profissional seja respondida pelo próprio paciente. Isso estimula o paciente ou cliente a chegar às suas conclusões, o que evitaria qualquer tipo de imposição do terapeuta.

Como vemos, o silêncio é necessário na psicologia. Como mencionado no início, é uma ferramenta e, como tal, devemos saber como usá-la.

Psicólogos novatos podem ter problemas para criar silêncios na terapia. Isso é muito comum, dada a insegurança com que iniciam seus processos terapêuticos com os pacientes, após a pouca experiência adquirida no curso da psicologia. Porém, expor-se à criação desses silêncios melhorará muito a comunicação na terapia psicológica e, portanto, contribuirá para a melhora do paciente ou cliente.

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  • Castanedo Secadas, C. Terapia Gestalt. Enfoque centrado en el aquí y ahora.Barcelona.Herder Editorial. 1988.
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