O sobrediagnóstico na saúde mental: como e por quê?

maio 19, 2020
Segundo algumas estatísticas, os transtornos mentais tiveram uma alta de casos alarmante. No entanto, muitas pessoas acreditam que não foram os transtornos que aumentaram, mas sim a sensibilidade para o diagnóstico que mudou e gerou um aumento de diagnósticos. A consequência é que muitas pessoas estão se medicando para corrigir um problema que não é clinicamente significativo.

O fenômeno do sobrediagnóstico na saúde mental tem relação com a tendência de tornar patológicos comportamentos que são normais e envolvem apenas um mal-estar que não pode ser classificado como um transtorno. Isso acontece dentro da psiquiatria e não gera apenas diagnósticos errados, mas também o uso de medicações quando estas, na verdade, não são necessárias.

O diagnóstico é, há muito tempo, um dos aspectos mais problemáticos da psiquiatria. Isso se deve a vários fatores. Um deles é que muitas vezes o diagnóstico é muito subjetivo, já que é o psiquiatra, com base na sua observação e com instrumentos inexatos, que determina se uma pessoa tem ou não um transtorno. Nessas condições, é muito comum que haja erros, o que por sua vez conduz a um sobrediagnóstico.

O instrumento mais aceito como referência é o Manual Diagnóstico e Estatístico dos transtornos mentais (DSM, na sua sigla em inglês). Este, por sua vez, é feito por um grupo de psiquiatras, quase todos norte-americanos. A definição dos transtornos e sua inclusão ou não no manual é feita por votação. Sua primeira versão incluía apenas 60 transtornos. A última tem mais de 500.

“Aquele que só sabe medicina, nem medicina sabe”.
-José de Letamendi-

Menina desesperada com a mão no rosto

Existe um sobrediagnóstico no campo da saúde mental?

Tudo indica que sim, há um sobrediagnóstico no campo da saúde mental. Se olharmos para a última versão do DSM, os especialistas dizem que poderíamos enquadrar 70% da população em algum transtorno mental e que, portanto, esses 70% teriam que receber algum tipo de medicação.

 O DSM-V inclui alguns supostos transtornos que foram severamente questionados, inclusive por profissionais. Por exemplo, há um distúrbio denominado “Síndrome psicótica atenuada”. O DSM diz especificamente que “Essa síndrome caracteriza-se por sintomas do tipo psicóticos que estão abaixo de um limiar para psicose plena”.

Isso seria como dizer que alguém possui características que o fazem ter uma alta possibilidade de desenvolver psicose no futuro. Não há psicose no momento, mas mesmo assim a pessoa tomaria antipsicóticos.

Na verdade, todos nós poderíamos ter essa doença. A maioria de nós já passou por alguma situação na vida em que ficou “a ponto de ficar louco”, mas nada aconteceu. Tratar um transtorno que poderia surgir no futuro – ou não – é absurdo. É como dar medicamentos de hipertensão para o filho de um hipertenso, porque essa pessoa tem um risco de desenvolver a mesma doença.

Outro exemplo, dos muitos que podemos dar, é que, pelo DSM-V, se uma pessoa se sente extremamente triste por mais de uma semana, após a morte de alguém amado, essa pessoa pode ser diagnosticada com depressão.

Um mal-estar ou um transtorno

Os limites entre saúde e doença no plano da mente não podem ser definidos de forma muito precisa. Temos que entender que o “normal” é um conceito muito subjetivo e associado geralmente a um contexto específico. Também é necessário lembrar que é próprio do ser humano ter algum grau de mal-estar, porque viver é transitar pela incerteza.

Nunca obteremos tudo aquilo que desejamos, e também nunca alcançaremos um equilíbrio perfeito. Também há um grau de mal-estar que existe dentro de cada um de nós por causa da existência da morte, e esta é uma imposição brutal. Ninguém escapa de pelo menos uma dose de frustração diante de circunstâncias que não podem ser modificadas, e todos têm algum grau de egoísmo ou maldade dentro de si.

É razoável que vivamos algumas fases nas quais sentimos tristeza, ou então outros momentos marcados pela ansiedade. Para alguns psicanalistas é perfeitamente normal que tenhamos até três episódios de psicose ao longo da vida se nos virmos diante de algum gatilho específico. Por isso, talvez o manual esteja abordando como transtornos diferentes sentimentos que são perfeitamente normais e, por isso, esteja gerando um sobrediagnóstico no campo da saúde mental.

Homem preocupado com a mão na cabeça

Como abordar o mal-estar e o transtorno

Até pouco tempo atrás, situações como o luto pela perda de um ente querido eram superadas com o apoio e o acolhimento do ambiente imediato da pessoa que sofreu a perda. A família e os amigos ajudavam a pessoa a lidar com esse mal-estar, compreendiam como normal que houvesse um tempo de sofrimento e este era aceito e tolerado. Hoje em dia, esses mecanismos de apoio estão cada vez mais fracos.

Atualmente, é muito mais difícil expressar a dor emocional e, com frequência, quem a sente se vê sozinho para lidar com a situação. Além disso, sob a premissa de um ideal de estar bem em todos os momentos, muitas pessoas nem sequer se permitem sofrer. A saída, então, é apelar para remédios que o psiquiatra pode receitar em um estalar de dedos.

O medicamento cumpre a função de, bem ou mal, ajudar a gerir o mal-estar individual e coletivo. O sobrediagnóstico é uma realidade produzida pelos dois polos da relação. De um lado, estão os psiquiatras ortodoxos, que só sabem lidar com pacientes oferecendo diagnósticos e intervenções rápidas por meio de medicamentos. Do outro, está quem sofre e se nega a entender sua dor. Dessa forma, a pessoa pede uma substância que ajude a levar a dor embora.

Bianco, A., & Figueroa, P. (2008). Sobrediagnóstico, derechos vulnerados y efectos subjetivos. Ethos educativo, 43, 64-79.