A sorte tem mais a ver com a inteligência do que com o acaso

A sorte é acaso? Podemos condicionar a sorte de alguma forma? Por que algumas pessoas parecem ter nascido com uma espécie de estrela e outras não? Tudo é independente ou não condicionado por nós? Vamos tentar responder analisando alguns dos estudos mais recentes sobre o tema.
A sorte tem mais a ver com a inteligência do que com o acaso

Última atualização: 29 Dezembro, 2020

O acaso está presente desde o momento em que nascemos: não escolhemos o momento, nem o lugar, nem o ambiente em que vamos crescer. Também não escolhemos muitas das experiências que vamos viver ou pelas quais vamos passar ao longo de nossas vidas. À primeira vista, pode parecer que a sorte determina tudo, mas a realidade não é assim.

Todo mundo fala de sorte, mas não é fácil defini-la. Poderíamos dizer que tem a ver com acontecimentos ou circunstâncias fortuitas que influenciam positiva ou negativamente a vida. Dessa forma, boa sorte seria, por exemplo, ganhar um bom prêmio na loteria, e má sorte seria perder o bilhete vencedor.

Há quem se pergunte se o assunto é realmente tão aleatório. Não existe uma resposta definitiva, mas houve avanços nessa questão. Sabe-se que a sorte com letra maiúscula, como no exemplo da loteria, está muito sujeita ao acaso. Em contrapartida, a sorte cotidiana, os acontecimentos fortuitos a nosso favor, dependem mais das habilidades e de uma certa forma de inteligência.

 “A sorte não é nada mais do que a habilidade de aproveitar as situações favoráveis”.
-Orison Swett Marden-

A sorte e a adversidade

Se examinarmos a biografia dos grandes personagens históricos, é sempre surpreendente que a maioria deles tenha passado por grandes adversidades. Na verdade, quase nenhum poderia ser classificado como “sortudo”. Em última análise, eles não conseguiram o que conseguiram por obra do acaso.

Na vida cotidiana atual, essa regra não parece ser obedecida. Foi realizado um estudo que simulou o desempenho de 1000 pessoas durante 40 anos e que buscou determinar o sucesso financeiro que cada uma poderia alcançar. A pesquisa foi liderada pelos físicos Alessandro Pluchino e Andrea Rapisarda, e pelo economista Alessio Biondo.

O resultado foi desconcertante. Os indivíduos mais talentosos ou dotados não foram os que ficaram mais ricos nessa simulação. O fator que mais teve impacto sobre o acúmulo de dinheiro foi a sorte. Embora os mais talentosos tenham alcançado um certo bem-estar, os que realmente se destacaram foram os sortudos.

A sorte e a lógica

O exposto acima nos deixa diante de duas realidades. Por um lado, temos homens e mulheres que fizeram contribuições históricas à humanidade e que, em sua grande maioria, passaram por grandes adversidades. Por outro lado, existem indivíduos medianamente talentosos que alcançam sucessos financeiros mais do que notáveis por sorte, de acordo com o estudo citado.

Há algo faltando nessa equação? Talvez sim, ou assim pensa o Dr. Christian Busch, autor do livro The Mindset of Serendipity: The Art and Science of Creating Good Luck, e um dos 100 pensadores mais influentes do mundo, de acordo com The Economist, a revista Diplomatic Courier, Ideas People e Davos 50.

Segundo Busch, o segredo está naquela palavra um tanto enigmática presente no título de seu livro: serendipidade. Busch diz que aqueles súbitos lampejos de boa sorte não são necessariamente fruto do acaso.

Para esse intelectual, trata-se de dar sentido ao inesperado, à casualidade, e estar pronto para aproveitá-la. O melhor é que, na sua opinião, essa é uma habilidade que pode ser trabalhada e desenvolvida. Com isso, podemos conseguir que a “boa sorte” esteja frequentemente do nosso lado.

Mulher com borboleta

Caçadores de oportunidades

Em última análise, o que Christian Busch propõe é que a sorte também é uma questão de perspectiva. A boa sorte “se afasta” quando nossa necessidade de controle nos leva a nos distanciar daqueles caminhos em que pode haver uma maior incerteza. Em outras palavras, quando prevalece uma atitude de medo diante da incerteza.

O inesperado não existe para criar problemas, mas para nos induzir a ver outras realidades que podem ter nos escapado antes. O que ele geralmente esconde é um presente da fortuna, desde que estejamos dispostos a recebê-lo. Aceitar a imperfeição da realidade, encontrar respostas nos erros e responder com imaginação aos imprevistos são os eixos da sorte.

Nesse ponto, as histórias dos grandes personagens podem se unir às dos não talentosos, que, no entanto, acumulam grandes fortunas. O que eles têm em comum é uma boa capacidade de lidar com o novo. Muitos outros não vão tão longe porque querem se estabelecer em um mundo habitado pela certeza, e é nesse momento que as potencialidades ficam estagnadas e não é possível ver os diamantes que brilham na aparente escuridão do caos.

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  • Rovira, A., & Trías de Bes, F. (2004). La buena suerte. Barcelona: Empresa Activa.