Sozinhos em um domingo em família - A Mente é Maravilhosa

Sozinhos em um domingo em família

Valéria Sílvia Pires 4, maio 2017 em Emoções 651 Compartilhados
Sozinhos em um domingo em família

Dias atrás estava em um restaurante e passei a observar o comportamento das pessoas. Uma coisa posso dizer: o nosso companheiro inseparável do futuro e de todas as horas, certamente, será o celular. Para muitos, ele já é uma extensão das mãos e uma parceria constante. Não tenho dúvida disso. Alguns casais se encontravam na mesma mesa, mas cada um envolvido com seu próprio aparelho. Estavam atentos às mensagens que pipocavam nas caixas de entrada ou ocupados em teclar com uma rapidez incrível, parecia campeonato. Os mais jovens digitavam com as duas mãos ao mesmo tempo, os mais velhos, introduzidos recentemente ao equipamento, faziam-no apenas com uma das mãos. Alguns, ainda tímidos com a novidade, “catavam milho”.

As pessoas estavam entretidas com seus respectivos equipamentos e não prestavam atenção em quem estava a seu lado, em seu entorno, quem dirá no vaivém daqueles que chegavam e saíam do restaurante. Não foram poucas as vezes que vi os garçons parados em frente ou ao lado de uma mesa, pacientemente, na vã tentativa de anotar os pedidos. Em algumas os pedidos eram feitos rapidamente, mas em outras os garçons tinham que esperar um tempão e, com certeza, deviam precisar muito do emprego, pois a pessoa mal levantava os olhos da tela do celular, principalmente se esta estava no meio da mensagem. E ali eles permaneciam por longos minutos à espera do término da ligação ou da mensagem que seria enviada. Haja paciência por parte dos garçons e falta de educação por parte dos clientes!

família desunida

Algumas pessoas acham que por conta de estar atrás dos celulares e dos notebooks podem fazer tudo, podem ser mal-educadas, ousadas, grosseiras… Pensam que a distância os isenta dos bons modos e das consequências de seus atos. É muito comum encontrarmos pessoas em aplicativos que, quando as cumprimentamos, levam de 2 a 3 dias para nos dar uma resposta. Ainda há aquelas que acreditam que não precisam nem responder. Além disso, existem outras que nos largam falando sozinhas diante de uma pergunta. Isso quando os sujeitos nem retornam. São as novidades tecnológicas que fazem parte de nosso mundo moderno juntamente com toda a parafernália eletrônica disponível no mercado e que, em certos casos, somente reforçam a escassez ou a falta de educação. Quem é educado, é educado em qualquer circunstância, com ou sem celular, com ou sem notebook, não importando o aplicativo utilizado.

Alguns casais com filhos pequenos, na tentativa de conversar um pouco ou de tratar de assuntos do dia a dia, sobre os quais não é possível conversar durante a semana, entregavam às crianças o aparelho para que estas dessem um pouco de folga e também pudessem se distrair enquanto os pais tentavam manter um diálogo decente ou, algumas vezes, estabelecer longas discussões repletas de gestos e “lavagem de roupa suja”, lágrimas eram derramadas, ou alguém saía da mesa batendo os pés, em direção ao banheiro ou à porta de saída.

Ainda havia casais que estavam muito ocupados com o aparelho celular e disputavam entre si para ver quem levaria a criança ao banheiro. O pai pedia ao filho que esperasse um pouco, pois já estava quase terminando a mensagem. Dizia à criança: “espere apenas um minutinho, filho, já já estou terminando e levarei você em seguida”. A mulher dizia, sem levantar os olhos do teclado de seu celular, para ele se apressar, pois, caso contrário, o menino faria xixi nas calças, e não ia demorar. Afirmava que ele estava enrolando demais e que dava mais importância às mensagens do que à criança, mas ela mesma não largava o aparelho dela. Outras, mais inseguras, perguntavam a seus esposos com quem falavam, questionavam quem era tão importante e não permitia que parasse um só minuto…

Algumas mesas adiante, havia uma família numerosa, na qual apenas os mais velhos não tinham um celular à mão. Por mais incrível que as pessoas ainda achem: nessa mesa eles conversavam, como há muito tempo eu não via, degustavam a comida servida com prazer e teciam comentários sobre ela. Parecia um encontro de família, pois havia várias gerações ali reunidas. Riam, lembravam fatos, gesticulavam… Enquanto isso, os mais jovens, todos com ares de enfado, pareciam ter vontade de correr para a porta de saída e se distraíam com seus respectivos aparelhos ou falavam entre si pelos aplicativos existentes, rindo muito. Mal prestavam atenção na comida que era colocada na mesa, na sobremesa, no discurso que o patriarca decidira fazer a certa altura da refeição. As crianças mal escutaram suas palavras. Riam, sussurravam, corriam, brincavam, mas não prestavam atentavam para que o familiar dizia. Este, no intuito de despertar a atenção dos mais jovens e das crianças, batia com um garfo em uma garrafa de vinho, mas nem assim conseguiu atingir seu objetivo. Ninguém da geração mais nova prestou atenção em absolutamente em nada do que ele dissera!

família que não presta atenção

As horas passavam, as pessoas saíam, outras entravam, e os garçons corriam de mesa em mesa com seus respectivos blocos de anotação na expectativa de conseguirem tirar o pedido logo e driblar as crianças que corriam por entre as mesas gritando em alto e bom som. O restaurante era bem familiar, daqueles que as famílias procuram, aos domingos, para fazer uma refeição farta e ainda poder levar os filhos, pois não havia restrição, nem frescura, como já vira em outros tantos. Sabe aqueles restaurantes em que o garçom fica olhando torto se a criança balança a perna, chora, pega o cardápio e começa a perguntar o significado dos itens? Essas são atitudes naturais e esperadas de crianças saudáveis. Ou aqueles estabelecimentos em que olham para nosso carro e ficam em dúvida se conseguiremos pagar a conta?

Era um restaurante bastante simples e agradável. A maior parte das pessoas parecia ser composta por frequentadoras habituais, pois algumas cumprimentavam e abraçavam os garçons com certa familiaridade. A comida era boa, e o preço, como bem dizia meu querido e saudoso amigo Carlinhos, “honesto“. Nele tudo acontecia: pessoas falando umas com as outras; casais que resolviam colocar o relacionamento em dia; clientes que buscavam uma refeição prazerosa, mas que mal prestavam atenção ao que comiam, quem dirá aos sabores que estavam sendo ingeridos; e tantos outros que haviam saído em busca de uma conversa agradável e mal se falavam… Havia pessoas de todo jeito. Era mais um domingo na companhia acolhedora da família ou no confinamento do celular, com educação e sem educação!

Valéria Sílvia Pires

Valéria Sílvia Pires, natural de Itaí, São Paulo, mãe de duas filhas, Advogada e observadora das pessoas e das situações do cotidiano. Autora do Livro: Um pouco de tudo - Editora Garcia - www.editoragarcia.com.br. ou na www.livrariacultura.com.br. Tem uma

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