O sutil tecido das coincidências e da sorte - A Mente é Maravilhosa

O sutil tecido das coincidências e da sorte

junho 12, 2017 em Psicologia 817 Compartilhados
O sutil tecido das coincidências e da sorte

As coincidências sempre despertaram a curiosidade e causaram fascínio nos seres humanos. Às vezes tudo parece se sincronizar de uma maneira inexplicável, para que coincidam duas situações que, aparentemente, não têm nenhuma relação entre si. Por isso, desde sempre, muitos associam estas casualidades a forças do além.

A sorte também foi fonte de muitas reflexões e grandes perguntas. Ela foi estudada desde os filósofos até os esotéricos. É uma força que está presente desde o começo da vida. Por que nascemos? Por que nesta família, neste país, nestas circunstâncias e não em outras? Há algo que explique ou a sorte é simplesmente caótica e indecifrável?

“Não existe a casualidade. O que se apresenta como sorte ou azar surge de fontes profundas”.
-Friedrich Schiller-

Tanto sobre a sorte quanto sobre as coincidências, surgiram diversas teorias. Elas vão desde as que se apoiam na estatística, até as que veem nestes fenômenos uma intervenção sobrenatural. No marco da psicologia se sobressai um nome de respeito, o de Karl Jung. Este psicanalista, primeiro seguidor de Freud e fundador de sua própria escola, dedicou uma boa parte de sua obra a estes fenômenos. Foi ele quem postulou o interessante conceito de “sincronicidade”.

O que foi dito sobre as coincidências e a sorte?

Um dos primeiros a se perguntar sobre estes fatores foi Hipócrates, o pai da medicina. Segundo este sábio grego, todos os componentes do universo estavam ligados por “afinidades ocultas”. Em outras palavras, para ele havia leis que explicavam tudo, mas ainda não eram conhecidas.

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Arthur Schopenhauer, um filósofo alemão de grande relevância, pensou algo semelhante: o destino de um indivíduo se ajusta invariavelmente ao destino de outro, e cada um é protagonista de seu próprio drama, enquanto simultaneamente está figurando em um drama alheio a ele. Isso é algo que ultrapassa os nossos poderes de compreensão”.

Com Sigmund Freud começa a tomar corpo o conceito de “inconsciente coletivo”, que é comum a todos os seres humanos. Quem lhe deu forma definitiva foi Carl Jung. São lembranças, fantasias, desejos dos quais não somos conscientes e que estão presentes em todos nós. Isso dá origem a uma comunicação também inconsciente entre as pessoas, que explicaria, em boa medida, o que chamamos de coincidências.

Mais adiante o mesmo psicanalista desenvolveu o conceito de “sincronicidade”. Esta se define como “a simultaneidade de duas ocorrências vinculadas pelo sentido, mas de maneira acausal”. Em outras palavras, a confluência de duas situações, sem que uma seja a causa da outra, mas que têm um conteúdo que se complementa. Os postulados de Jung, com o tempo, derivaram até uma série de formas de pensamento mágico.

As coincidências existem ou são fabricadas?

Embora a teoria de Jung seja atrativa, não é a única que explica as coincidências e a sorte. Para Freud, pai da psicanálise e professor de Jung, a coisa vai por outro lado. Em seu foco, a coincidência não existe por si mesma. É o ser humano quem a fabrica, por sua obstinada tendência a dar significado a tudo que ocorre. Também porque as neuroses induzem a repetir situações traumáticas.

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Para a psicanálise clássica nenhum elemento da realidade possui significado por si só. É o ser humano quem o outorga, em função de seus desejos e seus traumas. Neste sentido, existe a tendência a ver coincidências onde elas não existem. “Justamente no dia em que estava passando por aquela rua esbarrei naquela pessoa, que acabou sendo o amor da minha vida”. No entanto, justamente isso aconteceu outras 30 vezes com pessoas que não foram seus amores. De fato, o “amor da vida” também pode ser uma fantasia. Linda, mas ainda assim, uma fantasia.

Por outro lado, a neurobiologia descobriu que quando há uma dose elevada de dopamina no cérebro, aumenta a tendência a criar padrões em tudo. Padrões como ver coincidências onde elas não existem. A estabelecer nexos, às vezes bastante estranhos, entre fatos que não se relacionam entre si.

Talvez aquelas situações que ocorrem conosco pelo que chamamos de coincidência correspondam, na verdade, a um roteiro inconsciente. Sem nos darmos conta, buscamos estar em determinadas situações ou viver determinadas experiências. Talvez o ser humano não esteja tão à mercê da sorte e do azar como muitos supõem. Seus desejos e fantasias inconscientes são os que vão desenhando o que chamamos de destino. E dar a ele uma tinta mágica, de uma ou outra maneira, nos proporciona uma certa satisfação.

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