Teoria da Reatância Psicológica: rebeldia sem causa e sem canal

março 7, 2019

A Teoria da Reatância Psicológica diz que algumas pessoas apresentam uma inclinação em sua forma de perceber a ordem social e seu lugar nela. Por isso, resistem a seguir normas, indicações ou padrões. Para elas, é mais motivante tomar um caminho diferente.

Todos nós conhecemos alguém que parece resistir a tudo. Se você diz para ela ir pela esquerda, ela vai pela direita. Se você diz para ela ir por cima, ela vai por baixo.

Quando perguntamos o motivo disso, é provável que diga que não há razão para ser como os demais, ou que ela é assim mesmo, ou coisas do tipo. Se for assim, estamos diante de algo que deu origem a uma teoria: a Teoria da Reatância Psicológica.

Com frequência, estas pessoas veem as normas como uma restrição à sua liberdade ou uma imposição desnecessária. Orgulham-se de sua própria rebeldia, mesmo que tal rebeldia não esteja orientada a alcançar um objetivo relevante.

De fato, na maioria das vezes, não há nenhum objetivo além de seguir o lado oposto – porque sim! Às vezes fazem isso abertamente, e em outras de forma mais dissimulada.

Muitos adotam atitudes reativas quando sentem que sua liberdade está sendo ameaçada.

No entanto, há algumas pessoas que levam isso ao extremo. São os chamados “rebeldes sem causa”. Isso pode trazer muitos inconvenientes para as suas vidas. Vejamos com mais detalhes…

Não posso mudar a direção do vento, mas posso ajudar as minhas velas para sempre chegar ao meu destino”.
-James Dean-

Mãos de pessoa com raiva

A Teoria da Reatância Psicológica e seus parâmetros

De acordo com a Teoria da Reatância Psicológica, há uma série de parâmetros que definem se um comportamento se ajusta à reatividade ou não.

Às vezes, as pessoas assumem uma resistência frente às normas em razão de sua arbitrariedade ou injustiça. Em outros casos, é uma inclinação em sua personalidade as leva a fazer isso.

Os parâmetros-chave, segundo a Teoria da Reatância Psicológica, são os seguintes:

  • Percepção da liberdade. A pessoa só sente que tem liberdade se puder passar por cima de uma determinada norma ou parâmetro exercido sobre ela. Se isso acontecer, ela se sentirá livre, mesmo que se mantenha forçada em outros aspectos;
  • Proporcionalidade com a ameaça. Quanto mais forte for a ameaça sobre um determinado comportamento, mais reatância é produzida. Se uma liberdade é eliminada, a reatância atinge seu ponto mais alto;
  • Importância da liberdade. A pessoa experimenta maior reatância quando liberdades que são muito importantes para ela são restringidas. Se não forem diminuídas, sua reatividade diminuirá.
  • Relação com outras liberdades. Se a liberdade ameaçada se relaciona com outras liberdades, a reatância tenderá a se ativar com mais força.
  • Fonte de ameaça. Quanto menos legítima for a fonte de ameaça à liberdade, mais forte será a reatância.

O exemplo mais típico de reatância pode ser identificado nos adolescentes.

Quando um pai, por exemplo, restringe a hora de chegada de um adolescente, é muito possível que seja ativada uma grande reatância se a figura do pai não for muito respeitada ou considerada como legítima. Então, é provável que o adolescente procure formas de fugir da ordem.

Pais brigando com adolescente

Os efeitos da reatância

A Teoria da Reatância Psicológica diz que estes tipos de comportamentos são problemáticos e geram uma série de consequências para a pessoa e seu entorno. É uma forma distorcida de lidar com desacordos, criando um preocupante vazio normativo.

As principais dificuldades originadas disso são as seguintes:

  • As pessoas começam a criar vínculos de manipulação mútua. Isso acontece quando uma pessoa resiste e o outro faz uso de artimanhas para vencer a resistência. Quando um empregado infringe uma norma, a empresa impõe uma punição, então o empregado volta a infringir outra norma para não cumprir a punição, por exemplo.
  • Implica um gasto inútil de energia emocional. O que a reatância faz é causar ainda mais tensão em qualquer conflito, em vez de resolvê-lo. Para sustentar um conflito sem se render, é preciso fazer grandes esforços, quando na verdade esse conflito pode não valer a pena.
  • Alimenta inclinações e preconceitos. A reatância impede que seja visto o verdadeiro sentido de uma restrição. Nem todos os limites à liberdade são negativos. Muitos deles têm o objetivo de garantir um maior grau de justiça ou de bem-estar coletivo.

Quando uma norma ou uma ordem fere a liberdade individual em algo essencial, o ato de se rebelar é completamente legítimo. Entretanto, isso é muito diferente de adotar uma atitude de desobediência de maneira sistemática.

Estamos falando de uma disposição que pode corroer muito a pessoa que a pratica, aqueles ao seu redor e os objetivos e metas que surgirem.

  • Brehm, J. W. (1966). A theory of psychological reactance.
  • Miron, A. M., & Brehm, J. W. (2006). Reactance theory-40 years later. Zeitschrift für Sozialpsychologie37(1), 9-18.