Teoria de dois fatores de Mowrer: é assim que seus medos funcionam

03 Novembro, 2020
Fobias, ansiedade, angústia que paralisa... A mecânica do medo não é tão misteriosa quanto você provavelmente pensa. Na verdade, ela segue diretrizes muito específicas que podem permitir reduzi-lo e até desativá-lo para ter uma vida mais satisfatória. Neste artigo, explicamos como fazer isso.

Apesar de a teoria dos dois fatores de Mowrer ter sido enunciada em 1939, ela continua sendo um dos modelos mais interessantes por dois motivos. O primeiro motivo é que ela nos permite compreender os mecanismos do medo e como ocorrem os transtornos de ansiedade e as fobias. O segundo motivo é que ela nos dá um valioso ponto de partida para lidar com muitas daquelas manifestações em que o medo limita o bem-estar.

Falar de ansiedade é referir-se, inevitavelmente, a medos e angústias. Nenhuma dimensão é tão complexa quanto o próprio medo, e como disse o poeta Horácio, quem vive com medo nunca será livre. Poucos argumentos são tão verdadeiros quanto esse. Por outro lado, nada é tão típico do ser humano quanto nutrir preocupações e medos.

Faz sentido, afinal eles fazem parte da natureza humana e atuam como mecanismos de sobrevivência. No entanto, às vezes, podem levar as pessoas a estados patológicos de desamparo. Os transtornos de pânico, as obsessões e as fobias orquestram a vida diária de milhares de pessoas e as impedem de viver uma vida normal.

São estados opressores, exaustivos e difíceis de explicar para alguém que não os vivencia. Compreender a mecânica mais básica do medo pode ajudá-lo a desmascarar o seu pior inimigo. Vamos nos aprofundar um pouco mais neste assunto.

Crise de ansiedade

O que é a teoria de dois fatores de Mowrer?

A teoria de dois fatores de Mowrer foi enunciada por Orval Hobart Mowrer em 1939. Esse psicólogo americano e professor de psicologia da Universidade de Illinois é conhecido por suas pesquisas sobre a terapia comportamental. Um de seus interesses era saber como as fobias se originam e por que elas são tão difíceis de eliminar quando aparecem.

É inútil, por exemplo, explicar a uma pessoa com medo de aviões que a probabilidade de morrer atropelado ao atravessar em um semáforo é maior que em um acidente de avião. A mente se apega a certas ideias e as mantêm ao longo do tempo até elas mudarem completamente o nosso comportamento. O Dr. Mowrer foi um dos pioneiros nesse assunto. Inclusive, graças a ele sabemos quais são os mecanismos por trás de muitos processos de ansiedade.

De acordo com a teoria de dois fatores de Mowrer, os medos, as fobias e os transtornos de ansiedade surgem a partir de duas fases.

  • Imagine alguém que precisa estar no controle de todos os aspectos da sua vida, alguém que é obsessivo e muito exigente. De repente, ele entra em um avião pela primeira vez e sente que não está no controle dessa situação.
  • Ele se sente preso e amarrado muito acima do solo, o que o leva a sofrer um ataque de pânico. Como consequência, ele não consegue mais embarcar em um avião desde então.
  • Não só isso, mas seus medos aumentaram. A ideia de sair de férias ou viajar a trabalho o apavora. Ser forçado a pegar um avião novamente intensifica ainda mais a sua ansiedade.

No exemplo acima, você pode ver duas dimensões que definem a teoria de dois fatores de Mowrer. Elas são as seguintes:

Fase 1. Condicionamento clássico

O Dr. Orval Hobart Mowrer concentrou sua pesquisa no behaviorismo. Ele estabeleceu que o primeiro processo que envolve o surgimento de fobias e muitos transtornos de ansiedade é o condicionamento clássico:

  • Um estímulo aparentemente neutro e inócuo (um avião, uma aranha, uma cena de trabalho, um supermercado lotado, etc.) de repente se torna um estímulo doloroso ou traumático.
  • Por exemplo: “Desde que tive uma experiência ruim com meus colegas de trabalho, tenho muita dificuldade para me levantar, me arrumar e ir trabalhar. Aquele lugar virou um pesadelo para mim”.
  • Como você pode ver, nessa fase, a pessoa experimentou algo aparentemente normal de uma forma desagradável.

Fase 2. Condicionamento instrumental

Depois de sofrer o impacto do condicionamento clássico (um estímulo específico adquire uma conotação dolorosa), seria suficiente evitar essa situação para voltar à normalidade. No entanto, quando se trata de fobias e ansiedade, o cérebro funciona de maneira diferente.

É aí que entra a segunda fase, ou seja, o condicionamento instrumental.

Vamos continuar com o exemplo do local de trabalho traumático. Se a pessoa sofreu algum tipo de assédio por seus colegas de trabalho, bastaria deixar aquele emprego para que seu sofrimento acabasse, certo?

  • “Quando me lembro de tudo o que aconteceu, não consigo voltar a trabalhar. Minha mente relaciona qualquer trabalho com o que passei no passado.”
  • Com esse comportamento, tudo o que ela está fazendo é reforçar o medo; há um estímulo que a assusta -> ela o evita -> ela também evita tudo que a lembra daquele estímulo original -> o medo se torna maior.

Portanto, a pessoa não evita apenas o estímulo aversivo original, mas tudo o que se aproxima dele.

Mulher sendo tomada pelo medo

Como a teoria de dois fatores de Mowrer pode ajudá-lo?

Como aponta Giorgio Nardone, “O medo olhado de frente se transforma em valentia e coragem, enquanto o evitado sempre se transforma em pânico”.

A teoria de dois fatores de Mowrer mostra a base irracional de muitos medos e como eles impedem um indivíduo de viver uma vida normal. Não há nada errado em fugir do que dói, do que atua como uma ameaça real. No entanto, muitos dos medos e das fobias não são lógicos ou garantem a sua sobrevivência. Pelo contrário, alguns medos não fazem nada além de limitar a sua vida.

As técnicas de exposição são muito adequadas para lidar com essas realidades psicológicas. Colocar-se diante do terrível estímulo fóbico e racionalizar esse medo é sempre um bom passo. Da mesma forma, a terapia breve estratégica também é um bom recurso para desbloquear tudo o que o limita e que o deixa submerso em seus medos.

Lutar contra os seus medos é sua responsabilidade. Use as ferramentas de que você dispõe para fazer isso.

  • Mowrer, O.H. (1939). A Stimulus-Response Analysis of Anxiety and its Role as a reinforcing agent. Psychological Review, 46 (6): 553-565.
  • Mowrer, O.H. (1954). The psychologist looks at language. American Psychologist, 9 (11): 660-694.