The Dropout: a mulher que construiu a ciência do golpe

The Dropout conta a ascensão e queda do império de Elizabeth Holmes. O melhor da série é o relato tão peculiar que faz da sociedade norte-americana e da frase que causou tanta dor: "se você quer, você pode".
The Dropout: a mulher que construiu a ciência do golpe

Última atualização: 27 maio, 2022

The Dropout é uma minissérie de oito episódios dirigida por Elizabeth Meriwether. É baseada no podcast apresentado por Rebecca Jarvis e produzido pela ABC News. A trama se concentra na ascensão e queda de Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos.

Toques de comédia misturados com drama tornam a série The Dropout rápida, engenhosa e significativa: como essa estudante que desistiu da Universidade no segundo ano conseguiu enganar todo mundo?

A série é uma crítica à superprodução científica exigida no campo da inovação, abandonando os princípios da própria ciência. A frase favorita de Holmes é “faça ou não faça, mas não tente”. No entanto, a ciência se tornou o que é precisamente por tentar, repetidas vezes. Com suas falhas, erros e soluções para eles.

The Dropout: o sonho de ser famoso e revolucionário

Elizabeth Holmes realizou o sonho de sua vida. Afinal, ela sonhava em ser bilionária, famosa e revolucionária, assim como Steve Jobs. E conseguiu. A parte B da história é que, para isso, ela contou com um produto fraudulento que manteve oculto enquanto já estava no auge de sua fama.

Os entusiastas da tecnologia já viam nela “outra visionária” que, por meio da tecnologia, conseguiria melhorar a saúde de milhões de pessoas no mundo todo. Além disso, seria uma mulher acessando territórios tradicionalmente masculinos.

Afinal, não se trata apenas da ideia que você tem, mas de como você a vende. A questão que The Dropout levanta é que os “filhotes” do Vale do Silício, oprimidos pelo número de gênios que mudaram o mundo, tais como Steve Jobs ou Elon Musk, pensavam que estavam destinados a alcançar a mesma glória.

O problema é justamente correr atrás da glória com uma ideia revolucionária, mas sem ser uma fraude para os consumidores. Muitos estudantes abandonaram a ideia de praticar ciência, tecnologia e biomedicina por vocação, voltados para cargos bons, porém discretos, tão necessários para que o mundo possa andar normalmente.

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Uma estudante com mais vontade de ter sucesso do que de fazer ciência

Em Elizabeth Holmes, todos os clichês do “se você quer, você pode” se reúnem em níveis problemáticos desde os primeiros capítulos. Antes de se tornar uma estudante universitária, vemos como seu pai é demitido da empresa onde trabalhava por causa de uma possível fraude.

“Quando você trabalha para mudar as coisas, primeiro acham que você é louca, depois tentam te derrubar e, de repente, você muda o mundo.”

-Elizabeth Holmes-

Elizabeth, então, sente o desespero de sua família ao ver como a sua situação confortável passa a ser diferente, uma vez que seu pai era um simples trabalhador, embora ganhasse um bom salário. Esse fato aumenta a bagagem de ideias preconcebidas sobre o trabalho, tais como a de que “é sempre melhor ser seu próprio patrão”.

Desde os primeiros capítulos, vemos como a obsessão de ser milionária e de criar um novo produto chega ao ridículo nas conversas e em seu comportamento habitual. Seus pais, ao invés de cultivar os valores do estudo, do trabalho ou de uma simples dose de modéstia, a encorajam a fazer deste o seu único sonho.

Elizabeth Holmes: a história de uma revolucionária do golpe tecnológico

Elizabeth Holmes nasceu em 3 de fevereiro de 1984 em Washington, DC. Sua mãe, Noel, era funcionária do comitê do Congresso, enquanto seu pai, Christian Holmes, trabalhou para a Enron antes de passar para agências governamentais como a USAID.

Quando tinha 7 anos, Holmes tentou inventar a própria máquina do tempo, preenchendo um caderno inteiro com desenhos detalhados de engenharia. Então, aos 9 anos, Holmes disse a seus familiares que queria ser bilionária quando crescesse. Seus familiares a descreveram como tendo dito isso com “a maior seriedade e determinação”.

Uma aluna “nota 10”

Foi durante o ensino médio que Holmes desenvolveu a sua ética de trabalho, muitas vezes ficando até tarde para estudar. Ela rapidamente se tornou uma aluna nota 10 e começou até mesmo o seu próprio negócio, vendendo compiladores C++, um tipo de software que traduz códigos de computador, para escolas chinesas.

Holmes começou a fazer aulas de mandarim e, no meio do ensino médio, conseguiu ser aceita no programa de verão da Universidade de Stanford, o que culminou com uma viagem para Pequim. Lá, ela conheceu seu ex-amante e cofundador da Theranos, Sunny Balwani, um homem muito mais velho e que era bilionário.

A virada radical de Elizabeth Holmes

Holmes entrou na Faculdade de Engenharia Química da Universidade de Stanford, já mais ansiosa por ser milionária do que por aprender. E assim se deu o início do golpe e o fim de um sonho louvável e até certo ponto inspirador, se não fosse pela ideia de ser bilionária a todo custo.

Querer mudar o mundo é uma ideia que deve existir em muitos jovens. Afinal, ter entusiasmo por criar algo que melhore a qualidade de vida das pessoas por meio da tecnologia é algo a ser valorizado. No entanto, insistir que você deve ser um milionário por causa dessa ideia não é algo tão bom assim.

Os resultados vêm muito depois. Para mudar ou melhorar o mundo, deve haver muito mais paixão pela ideia do que pelo próprio ego. O erro de Elizabeth Holmes foi pisar no acelerador aos 19 anos, deixando a universidade no segundo ano dos estudos, da mesma forma que outros “revolucionários”.

mulher sorrindo

O fim de uma empresa que, na verdade, nunca existiu

Em 2014, a startup de exames de sangue Theranos e sua fundadora, Elizabeth Holmes, estavam no topo do mundo. A ideia revolucionária de que, através de uma única gota de sangue, um aparelho poderia detectar inúmeras doenças, surpreendeu o mundo.

Holmes se tornou a mulher mais jovem do mundo a se tornar bilionária por conta própria, enquanto a Theranos foi uma das startups unicórnios do Vale do Silício, avaliada em cerca de 9 bilhões de dólares. No entanto, logo tudo iria desmoronar.

As deficiências e imprecisões da tecnologia Theranos foram expostas, juntamente com o papel que Holmes desempenhou em encobrir tudo. Holmes foi destituída do cargo de CEO e acusada de “fraude massiva”.

A empresa foi forçada a fechar seus laboratórios e centros de testes, o que fez com que se desmoronasse como se fosse um castelo de cartas. Enquanto aguardava julgamento, de acordo com as investigações, Holmes teria encontrado tempo para ficar noiva e se casar com um herdeiro de hotel chamado Billy Evans.

Desde então, Holmes já foi condenada por fraude no tribunal federal. Em janeiro de 2022, os jurados consideraram Holmes culpada por três acusações de fraude eletrônica e uma acusação de conspiração para cometer fraude.

Foi considerada inocente diante de quatro outras acusações e não foi possível chegar a um veredicto unânime quanto às três acusações restantes contra ela. Ela pode enfrentar 40 anos de prisão, mas Holmes, que muitos consideram uma sociopata, continua fazendo posts inspiracionais e vivendo uma vida de luxo. Uma fraude para o mundo e principalmente para todas as mulheres da ciência que sonham em mudar o mundo de verdade.

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  • Vals, E. (2017). Después de theranos. Nature Biotechnology , 35 (1), 11-16.