Saiba mais sobre os tiques na infância

outubro 12, 2019
Os tiques são manifestações motoras, rápidas e repentinas que resultam da contração involuntária de um ou mais grupos musculares. É o distúrbio mais comum em pediatria e o tratamento costuma ser bem-sucedido.

Os tiques são manifestações motoras, rápidas e repentinas que resultam da contração involuntária de um ou mais grupos musculares. São involuntários, estereotipados, recorrentes, imprevisíveis, não rítmicos e controlados temporalmente pela vontade. Os tiques na infância são amplificados pelo estresse ou pela raiva, e podem ser mitigados pela distração ou pela concentração.

Os tiques na infância são o distúrbio de movimento mais frequente em pediatria. O impulso premonitório parece ser a parte involuntária de um tique e, muitas vezes, o movimento é realizado para aliviar o impulso.

No entanto, crianças mais novas com tiques rápidos os descrevem como algo repentino sem muita advertência ou participação voluntária.

Criança com as mãos na cabeça

Tiques na infância: idade de início e curso

Os tiques geralmente começam entre 4 e 7 anos de idade. Para a maioria das crianças, os primeiros tiques se dão ao piscar repetitivamente, cheirar, limpar a garganta ou tossir. São mais frequentes em homens do que em mulheres, com uma proporção de 3 para 1.

Os tiques variam consideravelmente em gravidade e frequência. Muitas crianças com tiques menores e transitórios entre 4 e 6 anos de idade não recebem atenção médica. Em aproximadamente 55% a 60% dos jovens, os tiques serão mínimos ao final da adolescência ou no início da idade adulta.

Já em outros 20% a 25%, os tiques se tornam pouco frequentes, mas ocasionais. Em cerca de 20%, os tiques continuam até a idade adulta (alguns dos quais chegam a relatar uma piora dos mesmos).

Características clínicas dos tiques

Existem determinadas características que definem essas manifestações motoras. São as seguintes:

  • Os tiques se agravam com a ansiedade, o cansaço, as doenças, as emoções e um tempo excessivo de telas.
  • Os tiques tendem a diminuir quando a criança se dedica a uma tarefa cognitivamente exigente e interessante.
  • A prática de exercícios reduz os tiques, especialmente durante a atividade física em si.
  • Os tiques não interferem em ações importantes nem levam a quedas ou lesões. Em qualquer apresentação desses tiques (também chamados de tiques de bloqueio), o médico deve ser alertado sobre a possibilidade de um componente funcional.
  • Podem ser observadas diferenças notáveis ​​quando os tiques são filmados.
  • Geralmente acompanham transtornos de personalidade, além de estarem presentes em famílias disfuncionais.
  • Podem vir acompanhados por uma certa sensação de prazer que se expressa no rosto, apesar da complexidade dos movimentos.
  • Sensação de não poder suprimi-los.
  • Não apresentam sensação premonitória.

Classificação dos tiques

Os tiques são classificados em motores ou vocais e em simples ou complexos. Os simples se manifestam por movimentos repentinos ou sons breves e repetitivos.

Os tiques motores complexos são movimentos coordenados de forma sequencial, mas de maneira inadequada. Por exemplo, sacudir repetidamente a cabeça, repetir os gestos de outras pessoas (ecopraxia) ou fazer gestos obscenos (copropraxia).

Os tiques vocais complexos são caracterizados por produções sonoras elaboradas, mas colocadas em um entorno inadequado. Um exemplo disso seria a repetição de sílabas, o bloqueio, a repetição de suas palavras (palilalia), repetição de palavras ouvidas (ecolalia) ou pronúncia de palavras obscenas (coprolalia).

Como os tiques são classificados no DSM-5

  • Transtorno de tique transitório: tiques motores ou vocais, ou ambos, que ocorrem há menos de um ano.
  • Transtorno de tique crônico: tiques motores únicos ou múltiplos ou tiques vocais presentes por mais de um ano.
  • Síndrome de Tourette (ST): tiques motores múltiplos juntamente com tiques vocais que duram um ano; seguem um padrão crescente e não precisam necessariamente estar presentes simultaneamente.

Comorbidade dos tiques na infância

Nas crianças com tiques, há uma presença geral de dificuldades de controle dos impulsos, diferenças sutis no funcionamento neuropsicológico e motor, além de um alto índice de comorbidades psiquiátricas ou de desenvolvimento, como o TDAH (30% a 60%), compulsões (30% a 40%), ansiedade (25%), comportamento disruptivo (10% a 30%), alterações do humor (10%), transtorno obsessivo-compulsivo (5% a 8%), transtorno do espectro autista (5%) e dificuldades de coordenação motora. Algumas crianças também apresentam raiva episódica.

Etiologia

Os tiques possuem uma etiologia multigenética complexa e são altamente hereditários. A concordância entre gêmeos monozigóticos é de 87%.

No passado, os tiques eram considerados relacionados ao comportamento ou ao estresse, e eram chamados de “hábitos nervosos” ou “contrações”, agora, sabe-se que os tiques são movimentos neurológicos que podem ser agravados pela ansiedade, mas isso não é causal.

Os mecanismos subjacentes envolvem várias redes neurais no cérebro, entre o córtex e os gânglios da base (circuitos fronto-estriado-tálamo), mas também envolvem outras áreas do cérebro, como o sistema límbico, o cérebro médio e o cerebelo.

Também foram descritas anormalidades na consciência interoceptiva e no processamento sensório-motor central.

Tratamento dos tiques na infância: intervenções comportamentais

As intervenções comportamentais incluem várias técnicas, embora o tratamento específico a ser seguido por cada criança dependa da avaliação prévia realizada, da resposta ao tratamento e das incidências que vão surgindo durante o mesmo (Bados, 2002).

A terapia de reversão de hábito (TRH) e a exposição e prevenção de resposta (ERP) são intervenções baseadas em evidências para tiques. TRH e ERP reduzirão os escores combinados de gravidade e frequência (índice de gravidade do Yale Global Tic) de 40% à 50%.

Tratamento de reversão de hábito

O tratamento de reversão de hábito proposto por Azrin (Azrin e Peterson, 1988) envolve ensinar o paciente a reconhecer o impulso premonitório e a executar uma ação chamada resposta competitiva, que reduz a possibilidade de ocorrência de seu tique irritante.

Inclui 11 técnicas principais organizadas em cinco fases:

  • Consciência. Envolve a percepção dos estímulos e das situações que precedem a manifestação do tique.
    • Descrição detalhada do tique e o treinamento para fazê-lo voluntariamente.
    • Treinamento de auto-observação para a detecção do tique quando ocorre.
    • Detecção precoce, treinamento para detectar as sensações que precedem a realização do tique.
    • Detecção de situações perigosas nas quais é mais provável que o tique seja desencadeado.
  • Treinamento de relaxamento
  • Treinamento para realizar uma resposta incompatível com o tique. É um comportamento que deve ter as seguintes características:
    • Impedir a conduta específica do tique.
    • Ser possível mantê-lo por alguns minutos
    • Produzir um aumento da consciência do comportamento em que consiste o tique.
    • Ser socialmente aceitável.
    • Ser compatível com a atividade normal.
    • Fortalecer os músculos antagônicos aos envolvidos no comportamento do tique.
    • Para tiques, geralmente consiste em tensionar isometricamente os músculos que se opõem ao movimento dos tiques.
  • Motivação. Essa fase é direcionada tanto ao paciente quanto à família. Inclui três técnicas de motivação padrão:
    • Revisão dos aspectos inconvenientes implicados pelo tique.
    • Apoio social. Consiste em uma pessoa do seu círculo pessoal se envolver e auxiliar na realização do procedimento.
    • Realização dos comportamentos em público. Para que o paciente comprove que pode realizar o método proposto em público.
  • Treinamento em generalização. Inclui a realização de exercícios nos quais o paciente deve se imaginar realizando o exercício em situações perigosas identificadas na fase 1.
Menino com tique

Terapia de exposição com prevenção de resposta

A prática de exposição com prevenção de resposta leva à necessidade de habituação e a terapia encoraja o paciente a sentir e tolerar a necessidade de tiques (exposição) sem realizá-lo (prevenção de resposta). Em uma sessão de duração fixa, solicita-se ao paciente que contenha seus tiques e um terapeuta registra por quanto tempo ele pode fazê-lo.

Não são utilizadas respostas ou acessórios. Os pacientes contam com várias assistências em cada sessão e o período de tempo em que são capazes de manter os tiques aumenta progressivamente.

Realizar exposição e prevenção de resposta de forma regular e sistemática proporciona a prática de tolerar os impulsos dos tiques e, com o tempo, a capacidade do paciente de controlá-los melhora.

Durante a sessão, o terapeuta se refere aos impulsos perguntando ao paciente quão fortes eles são; a sugestão nessa ação expõe o paciente à angústia de ter um tique apesar de falar sobre ele.

Tratamento farmacológico dos tiques na infância

A decisão de usá-los depende da natureza dos tiques e geralmente é reservada para os tiques graves e incômodos que causam dor ou lesão. As evidências atuais apontam a clonidina (um agonista alfa-2 pré-sináptico) como o medicamento de primeira linha.

Por outro lado, os antipsicóticos/antidopaminérgicos parecem ser mais eficazes em adultos. A prática clínica apoia a boa eficácia do Aripiprazol em crianças.

Os benzodiazepínicos não são usados ​​regularmente no tratamento dos tiques, mas são comuns em uma situação clínica aguda e grave. Podem ser empregados ​​como uma maneira de reduzir a ansiedade nos ataques de tiques, mas é preferível evitá-los, já que pode haver um efeito rebote.

  • Aicardi J. Other neurosychiatric syndromes. In: Aicardi J (ed). Diseases of the nervous system in childhod. New York: Mc Keith Press; 1992. p. 1338-1356
  • Moreno Rubio JA. Tics en la infancia. Rev Neurol 1999;28(Supl 2):S 189-S191.