Tratar o outro como você gostaria de ser tratado nem sempre é apropriado

08 Outubro, 2020
Ao interagir com outras pessoas, lembre-se de que elas têm seus próprios desejos, prioridades e necessidades. Portanto, tratá-las como você gostaria de ser tratado nem sempre é a melhor opção para orientar o seu comportamento.

Tratar o outro como você gostaria de ser tratado é um princípio moral compartilhado por muitas pessoas e escolas de pensamento. Filósofos, líderes religiosos e personalidades importantes promovem esse preceito que deve nortear as relações humanas. No entanto, embora todos nós conheçamos e tenhamos essa regra de ouro em mente, aplicá-la nem sempre beneficia as interações sociais.

Acontece com todos nós em algum momento: nossas melhores intenções são mal interpretadas pela outra pessoa, ou podem até mesmo prejudicar seus interesses. Parece injusto que a preocupação sincera com o bem-estar de outra pessoa possa resultar em um atentado contra o mesmo. No entanto, talvez estejamos abordando essa ajuda a partir da perspectiva errada: a nossa.

É positivo tratar o outro como você gostaria de ser tratado?

Tratar o outro como você gostaria de ser tratado pode, sem dúvida, ser uma boa premissa. Isso indica, é claro, boas intenções por parte de quem a executa. Além disso, ao seguir este conselho, estaremos mais conscientes de como nos comportamos com os outros.

Assim, provavelmente seremos sinceros, compreensivos, solidários e gentis. Essa regra moral pode nos motivar a fazer um favor a um amigo ou conhecido quando não temos vontade, ou pode nos fazer pensar duas vezes antes de criticar alguém.

É positivo tratar o outro como você gostaria de ser tratado?

Nem todos desejamos ou esperamos o mesmo

Porém, quando esquecemos as generalidades e passamos para um plano mais prático e concreto, isso nem sempre funciona tão bem. Imagine, por exemplo, que é o aniversário de um bom amigo e você comprou para ele um relógio no qual gastou uma quantia significativa de dinheiro. Ao entregar o presente e ver seu rosto decepcionado, você pode se sentir confuso e até com raiva.

Talvez o que você não tenha considerado é que esta pessoa poderia gostar de um presente mais íntimo e pessoal, feito à mão e com um significado emocional. Ou, talvez, ela esperasse uma experiência compartilhada em vez de um objeto material.

O mesmo pode acontecer em qualquer área da vida. Se você for pai ou mãe, pode ser que, ao ver seu filho enfrentando uma situação complicada ou estressante, tente relativizar a situação para ajudá-lo, mostrando que a chance de o pior acontecer é pequena e que as consequências não seriam tão desastrosas. Embora você, com a sua personalidade, receba e reaja bem a esse tipo de apoio, seu filho pode sentir que o que você realmente deseja é esquecer o problema e, assim, parar de se preocupar.

Da mesma forma, depois de uma discussão com seu parceiro na qual você reconheceu a sua parcela de culpa, você pode decidir telefonar ou fazer uma visita para conversar. No entanto, essa pessoa pode estar chateada, irritada e se recusar a ter essa conversa. O que está acontecendo? Enquanto para você o seu comportamento é uma demonstração de boa fé, para o outro ainda era muito cedo; ele precisava de um tempo sozinho para controlar a sua raiva.

Nem todos desejamos ou esperamos o mesmo

Leve as necessidades dos outros em consideração

Em resumo, podemos dizer que tratar o outro como gostaríamos de ser tratados é uma boa premissa. No entanto, é importante fazer uma advertência: você gostaria que a sua personalidade e as suas necessidades específicas fossem levadas em consideração, e é exatamente isso que você tem a oferecer ao outro.

Leve em consideração os gostos, preferências, necessidades e desejos da outra pessoa. Dê a ela a sua capacidade de sair da sua própria pele para tentar entender os seus pontos de vistaPense não tanto no que você gostaria, mas no que o outro espera e precisa, porque nós não somos todos iguais.

Mesmo que você goste que as pessoas sejam totalmente diretas e honestas com você, talvez o ser humano à sua frente prefira e precise de tato, compreensão e delicadeza. Talvez ele prefira ficar sozinho depois de uma discussão, mas se você sabe que o outro precisa de companhia, presença e diálogo, dê isso a ele.

Os relacionamentos humanos são complexos e não é fácil reconciliar nossos desejos e pensamentos com os das pessoas ao nosso redor. Porém, se você quiser saber como tratar outra pessoa, saia da sua pele e entre na dela. Trate o outro como o outro gostaria de ser tratado.

  • Moya-Albiol, L., Herrero, N., & Bernal, M. C. (2010). Bases neuronales de la empatía. Rev Neurol50(2), 89-100.
  • Singer, T., & Klimecki, O. M. (2014). Empathy and compassion. Current Biology24(18), R875-R878.