Tsunami cerebral: o que acontece no cérebro antes de morrer

· maio 14, 2018

Uma equipe de neurologistas do Hospital Charité-Universitätsmedizin de Berlim (Alemanha) e a Universidade de Cincinnati (Estados Unidos) conseguiram um dos maiores avanços do ano em matéria de neurologia. O cérebro, exatamente antes de morrer, gera uma onda de atividade elétrica, fenômeno que foi batizado como ‘tsunami cerebral’. Uma vez passado o temporal, a morte é irreversível.

Não obstante, esse pioneiro estudo cujo título é “Despolarização da difusão terminal e o silêncio elétrico na morte do córtex cerebral humano”, publicado na revista Annals of Neurology, representa uma dupla descoberta.

Por um lado, a consciência pode continuar ativa minutos depois do resto do corpo ter deixado de estar. Por outro lado, esse atraso aumenta as chances de que durante esses poucos minutos de “consciência ativa-corpo inativo”, o processo de morte cerebral possa ser revertido.

A morte de pacientes

A equipe de neurologistas alemães e norte-americanos tomou como amostra nove pacientes, procedentes da Alemanha (Berlim) e Estados Unidos (Cincinnati e Ohio). Todos eles apresentavam lesões cerebrais irreversíveis por terem sofrido acidentes de trânsito, acidentes vasculares cerebrais ou paradas cardíacas.

Por isso, os doutores e investigadores tinham como ordem não ressuscitá-los. Dessa forma, tiveram que solicitar previamente o consentimento dos parentes desses pacientes para que não os reanimassem caso fosse necessário.

Tsunami cerebral

Como estudaram o tsunami cerebral

Para estudar a atividade elétrica desse órgão, puseram eletrodos sobre a superfície cerebral. O principal objetivo era descobrir os mecanismos que intervinham nessa morte cerebral, além de conhecer os eventos neurológicos que ocorriam nesse momento.

E conseguiram! Observaram diretamente o chamado “tsunami cerebral”, uma onda de descargas elétricas que percorre todo o córtex cerebral e que causa danos irreparáveis. Esse instante é o princípio do fim das células cerebrais. É o momento em que elas se desligam, marcando sua morte irreversível.

Consciência sem batimentos cardíacos

Esse tsunami cerebral ocorre até 5 minutos depois de o coração ter parado de bater. Sem pulsações cardíacas, portanto, os neurônios podem continuar funcionando. Assim, após a parada circulatória, ocorre uma gradativa perda do potencial eletroquímico dos neurônios. Um fenômeno que se conhece como despolarização neurológica.

Por quê? Porque os neurônios necessitam de oxigênio para poder funcionar adequadamente. Quando param de receber esse combustível, fruto de uma queda da circulação cerebral, nutrem-se de reservas energéticas. Assim, se mantêm com vida uns minutos antes de desligarem completamente.

“Depois que se detém a circulação, a expansão da despolarização marca a perda de energia eletroquímica armazenada nos neurônios e a aparição de processos tóxicos que, eventualmente, conduzem à morte”.
– Jens Dreier-

A diminuição gradativa de potencial desencadeia uma série de processos tóxicos que, eventualmente, provocam a necrose e a subsequente morte celular. Não obstante, como sustenta o principal autor do estudo, o doutor Jens Dreier, quando se restabelece a circulação sanguínea, esse processo pode se reverter.

Portanto, os especialistas concluem que existe uma semelhança entre a morte cerebral dos animais e a dos seres humanos. Além disso, sustentam que existe um período em que a restauração do funcionamento cerebral é possível, hipoteticamente.

Partículas de homem se desintegrando

A relevância da descoberta

O cérebro continua sendo um dos órgãos humanos do qual menos conhecimento se tem. Por isso, junto aos grandes avanços que ocorreram nas últimas décadas, graças sobretudo às técnicas de neuroimagem, essa descoberta pode “conduzir à melhoria no futuro de procedimentos de diagnóstico e tratamento”, segundo assegurou o próprio líder da pesquisa.

A morte cerebral é “a interrupção irreversível de todas as funções cerebrais”, segundo o Sistema de Saúde da Universidade de Miami, dos Estados Unidos. Não obstante, na atualidade os cientistas não sabem com certeza qual é o método de diagnóstico da mesma. Além disso, não se sabe o momento exato em que se perde a capacidade de consciência.

Nesse sentido, essa investigação representa um avanço também para desenvolver estratégias contra a parada cardíaca e os acidentes vasculares cerebrais (AVC). Os resultados dessa pioneira pesquisa proporcionam dados impressionantes sobre a neurobiologia da morte, e são muito esperançosos. É possível salvar da morte cerebral uma pessoa que sofreu uma parada cardíaca?