Ultracrepidários: pessoas que opinam sobre tudo

· abril 13, 2019
Os ultracrepidários são pessoas que opinam sobre tudo sem ter conhecimento de quase nada. São perfis que não hesitam em nos corrigir, em minimizar o nosso valor para se destacar em qualquer circunstância e no meio de toda conversa.

Os ultracrepidários, longe de estarem em perigo de extinção, parecem estar cada vez mais presentes. São aquelas pessoas que opinam sobre tudo sem ter conhecimento de nada. Eles nunca se calam, nos corrigem, têm sugestões para qualquer assunto, querem consertar o mundo e subestimam os verdadeiros especialistas em uma determinada área.

É curioso ver o quão rica é a nossa linguagem e os termos que temos para definir esses comportamentos que encontramos com tanta frequência. O ultracrepidanismo parece, sem dúvida, uma palavra complicada. No entanto, é surpreendente saber que existe desde os tempos muito remotos e é usada em praticamente qualquer lugar do mundo.

Em inglês é ultracrepidarianism, em francês ultracrepidanisme, na Bósnia ultrakrepidarianizam… Todos nós já nomeamos esse perfil com uma tendência quase obsessiva de dar opiniões e conselhos sobre áreas que nem sempre conhece ou controla. É claro que todos nós temos o pleno direito de dar uma opinião sobre qualquer assunto.

Apesar disso, fazê-lo com humildade e entender que não dominamos todas as questões da vida pode “dizer muito” sobre nós. Assim, é interessante saber que o comportamento dos ultracrepidários é um assunto de grande interesse para o campo da psicologia. Vejamos mais dados a seguir.

“Temos sempre a melhor opinião sobre as coisas que não conhecemos”.
– Gottfried Wilhelm Leibniz –

Como lidar com os ultracrepidários?

Como são e por que agem dessa forma?

Se você der a sua opinião sobre as imagens da face oculta da lua facilitada pela sonda chinesa Chang’e-4, os ultracrepidários tentarão fazer um comentário próprio de Carl Sagan. Além disso, se você opinar sobre política, eles subirão na tribuna e farão um discurso de Winston Churchill. Se você falar de futebol, economia ou física quântica, eles sempre vão querer mostrar o quanto eles sabem.

  • Os ultracrepidários têm respostas para tudo. Não se calam. Eles também não estão cientes das suas limitações e, o que é pior, não respeitam a opinião do outro; procuram se destacar a todo custo e, por isso, não hesitam em desqualificar os demais.
  • Se perguntarmos agora qual é a origem desta palavra, devemos voltar a Apeles de Cós, um pintor renomado do ano 352 a. C.
  • A história nos conta que, em uma determinada ocasião, enquanto o artista favorito de Alexandre, o Grande, estava envolvido em uma de suas obras, um sapateiro entrou em sua oficina para entregar uma encomenda. Quando viu as pinturas e os murais, começou a criticar muitos detalhes.
  • Diante desse comentário, Apeles de Cós disse-lhe o seguinte: “Ne supra crepidam sutor iudicaret” (um sapateiro não deve julgar além dos sapatos).

Os ultracrepidários e o efeito Dunning-Kruger

Os ultracrepidários são basicamente caracterizados por um princípio muito elementar: quanto menos eles sabem, mais acreditam que sabem sobre algo. Essa relação responde ao que na psicologia é conhecido como efeito Dunning-Kruger.

  • O efeito Dunning-Kruger é um viés cognitivo muito comum pelo qual pessoas com menos habilidades cognitivas e intelectuais tendem (em média, mas não em todos os casos) a superestimar as suas próprias habilidades.
  • A psicologia social, através de estudos como os realizados pelos psicólogos Marian Krak e Andreas Ortman, da Universidade de Berlim, aponta o seguinte: em primeiro lugar, os ultracrepidários podem até ocupar posições de poder.
  • Há pessoas em nossa sociedade que ocupam posições para as quais não possuem habilidades suficientes. No entanto, essa autoavaliação inflada, aliada a uma atitude extrovertida e resoluta, pode permitir que alcancem posições que outras pessoas mais competentes não alcançam.
Discussão de trabalho

Não subestime os ultracrepidários: a sua reação pode ser muito prejudicial

Às vezes, o comportamento dos ultracrepidários pode parecer anedótico. É muito famosa, por exemplo, a história de McArthur Wheeler, um homem que roubou um banco em Pittsburgh em 1990. Quando as autoridades o prenderam, ele ficou muito surpreso: ele não entendia como podiam vê-lo.

Ele alegava ter aplicado suco de limão no rosto e corpo para se tornar invisível. É claro que o jovem Wheeler sofria de um distúrbio psicológico, mas a veemência com que defendia a relação entre o suco de limão e a invisibilidade chamou a atenção dos especialistas.

No entanto, além desses casos específicos, há algo sobre o qual devemos ter clareza. Os ultracrepidários são capazes de causar muitos problemas. Ter um pai, uma irmã, um chefe ou um vizinho obcecado em boicotar as nossas habilidades, em desqualificar e observar cada um dos nossos comentários, pode gerar um grande esgotamento psicológico.

Sabemos que o ideal é não cairmos nas suas provocações. No entanto, se formos obrigados a mantê-los por perto diariamente, devemos tomar outras medidas mais drásticas para conter os seus efeitos. Deixar claro que os seus comportamentos são prejudiciais e ofensivos é uma estratégia. Outra ainda mais contundente é, sem dúvida, manter uma distância adequada desse tipo de perfil.

  • Kruger, J., & Dunning, D. (1999). Unskilled and unaware of it: How difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of Personality and Social Psychology77(6), 1121–1134. https://doi.org/10.1037/0022-3514.77.6.1121
  • Krajc, M., y Ortmann, A. (2008). ¿Los no cualificados realmente son inconscientes? Una explicación alternativa. Journal of Economic Psychology , 29 (5), 724–738. https://doi.org/10.1016/j.joep.2007.12.006