Um Lugar Silencioso: terror psicológico em silêncio

Os dois filmes da série 'Um Lugar Silencioso' criaram uma nova saga de terror na qual não se ouve nem se grita. Aos personagens, só resta sentir e sofrer.
Um Lugar Silencioso: terror psicológico em silêncio

Última atualização: 11 Outubro, 2021

John Krasinski conseguiu silenciar os espectadores com Um Lugar Silencioso em 2018. Seu blockbuster, coescrito com Scott Beck e Bryan Woods, foi além de personagens que tentavam sobreviver sem fazer barulho. Ele ensinou o público inquieto e aterrorizado a fazer o mesmo: encheu os cinemas de observadores silenciosos.

Nenhum cinéfilo queria que Krasinski repetisse esse horror em uma sequência. No entanto, Um Lugar Silencioso – Parte II é mais rápido, mais barulhento, e seu horror é muito mais literal e direto.

Após os eventos fatais em sua casa, a família Abbott agora deve enfrentar os terrores do mundo exterior enquanto continua sua luta pela sobrevivência em silêncio. Forçados a se aventurar no desconhecido, eles rapidamente percebem que as criaturas que os caçam pelo som não são as únicas ameaças que os perseguem.

O primeiro filme terminou em seu clímax, com nossos heróis, os Abbotts, finalmente confrontando seus captores após 400 dias de terror. A “Parte II” começa com um recomeço deliciosamente cruel, remontando ao primeiro dia de tudo, quando ninguém sabia nada sobre o que estava prestes a acontecer.

Um Lugar Silencioso: se te ouvem, te caçam

Coescrito, dirigido e estrelado por John Krasinski, o primeiro filme se passa em um mundo em que grande parte da população foi dizimada por criaturas que os caçam usando o som emitido pelos humanos.

Essas criaturas semelhantes a crustáceos são cegas, mas têm uma audição altamente sensível e se comunicam por meio de sons terríveis. Se eles te ouvirem, vão caçá-lo.

O texto na tela nos diz que é o dia 89. Não há nada que esteja claro, embora uma cidade abandonada e um supermercado saqueado indiquem que aconteceu uma catástrofe. Uma família de cinco pessoas se arrasta descalça pela loja, que está praticamente vazia, comunicando-se apenas por meio da linguagem de sinais.

Sua habilidade neste ponto é explicada pela filha surda Regan (Millicent Simmonds), que usa um aparelho auditivo de fixação óssea através do qual ela não consegue ouvir nada além dos seus próprios batimentos cardíacos.

Depois de encher suas sacolas com suprimentos essenciais, o menino, de não mais de quatro anos, mostra com alegria sua descoberta: um ônibus espacial. Seu pai Lee (John Krasinski) pega o brinquedo e retira as pilhas para que não faça barulho. Vendo a decepção do menino, Regan lhe entrega o brinquedo e ninguém o vê recuperar as baterias descartadas.

Enquanto caminham pela floresta, o inevitável acontece e bipes eletrônicos ecoam no silêncio. O horror atinge o rosto de Lee e de sua esposa Evelyn (Emily Blunt) por uma fração de segundo, antes de algo correr por entre as árvores e matar o menino.

Esta abertura revela a abordagem cinematográfica sofisticada de Krasinski, estabelecendo a premissa do filme e mostrando a atenção meticulosa aos detalhes que transformarão sua história em uma aula de como criar tensão.

Uma vida sem palavras

Após este preâmbulo curto e comovente, Lee e Evelyn Abbott (Krasinski e Emily Blunt) e seus dois filhos pequenos, Marcus (Noah Jupe) e Regan (Millicent Simmonds), se trancaram em sua fazenda isolada no interior do estado de Nova York.

Eles falam quase inteiramente por linguagem de sinais (legendas são fornecidas na tela) para preservar o silêncio e porque Regan é surda de nascença. A atriz, que é surda na vida real, é a sensação do filme e uma revelação no mundo da atuação.

Eles andam descalços para abafar qualquer barulho. Até mesmo suas brincadeiras são aterrorizantes. Eles jogam Banco Imobiliário com feltro e jogam os dados no tapete.

Hoje, muitos filmes são tão agressivamente altos que o quase silêncio de Um Lugar Silencioso, tendo apenas os sons murmurantes da floresta, é um bálsamo e um aviso.

Os momentos mais ressonantes do filme ocorrem quando são rompidos os silêncios que levam às situações mais aterrorizantes, ao mesmo tempo que engenhosas.

Um exemplo é quando Lee, o pai, se aventura na floresta com seu filho e fica sob uma cachoeira barulhenta para que suas palavras sejam abafadas e o menino possa gritar brevemente e alegremente. Ou a cena em que Lee e Evelyn se abraçam em uma dança lenta enquanto ouvem, pelos fones de ouvido, Neil Young cantando “Harvest Moon”.

Um Lugar Silencioso e seu terror psicológico

O elemento do silêncio, acompanhado por ruídos ameaçadores, há muito desempenha um papel crucial em diversos filmes de terror. Os fãs do gênero provavelmente têm várias memórias de personagens tentando ficar quietos enquanto os monstros vagam pelas tábuas que rangem.

Esses momentos fugazes se elevam a um grau quase insuportável em Um Lugar Silencioso. Ao contrário de outros filmes que tentam explicar demais suas histórias, este deixa o público bem no meio de uma saga em andamento, dando apenas pistas secundárias, como velhas manchetes de jornal na rua, para indicar como a família e o mundo em geral chegaram àquela situação.

O silêncio como elemento de intimidação do público

Dizer que o filme é “silencioso” seria impreciso, já que os efeitos sonoros e a música desempenham um papel importante. No entanto, o longa contém, talvez, 10-15 linhas de diálogo falado.

Todo esse silêncio serve para semear o terror psicológico. Você não só tem medo de que alguém na tela faça barulho, mas a falta de som é transferida para o público, que tenta ficar o mais quieto e silencioso possível.

Quando os personagens se encontram em situações em que gritar seria a norma, sua incapacidade de ceder a esse desejo torna as cenas ainda mais assustadoras.

Cena do filme Um Lugar Silencioso

Uma família tentando sobreviver a monstros internos e externos

Com 90 minutos enérgicos, este é um dos filmes de terror mais engenhosos e bem elaborados. A principal razão do seu poder é a crise familiar em seu cerne. E se o objetivo do filme for muito mais do que apenas nos assustar?

John Krasinski, que coestrelou, dirigiu e coescreveu o roteiro (com Bryan Woods e Scott Beck), entende uma coisa crucial que se perde em muitos mestres do terror: quanto mais nos preocupamos com as pessoas em um filme de terror, mais assustadora e mais emocionalmente imponente torna-se a experiência.

O fato de Krasinksi e Blunt serem casados, de terem dois filhos e de Simmonds ser surda dá ao filme uma rara verdade em longas de terror. Isso explica o profundo investimento emocional que causa no espectador.

Embora Um Lugar Silencioso seja eficaz em nos assustar, há algo mais poderoso neste filme do que simplesmente nos fazer pular de medo.

O que faríamos?

O que está em jogo no filme pode ser resumido quando Evelyn, falando sobre os perigos que seus filhos enfrentam, diz ao marido: “Quem somos nós se não podemos protegê-los?” Este é o lamento elementar de todos os pais que temem o que os espera.

Somos constantemente forçados a nos perguntar: “Como lidaríamos com esta situação?” Como Evelyn também está grávida, o simples fato de pensar no parto iminente, por mais cuidadosamente preparada que ela esteja, nos dá arrepios através da tela.

O que deveria ser um evento alegre será o oposto. Além disso, o próprio nascimento é uma metáfora para a coragem e regeneração da família.

O filme também funciona como uma alegoria sobre proteção, paranoia e poder. O que o torna um clássico é que Um Lugar Silencioso transcende seu gênero de terror, mesmo quando o entrega.

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